Ultimamente tenho saído para correr. Não é uma prática que me agrade especialmente, muito menos quando decido começar a fazê-lo em pleno inverno. Vivo em Lisboa, a cinco minutos do rio, numa zona de ruas íngremes e passeios acidentados que se tornam escorregadios com a chuva. Mas não é a probabilidade de tropeçar numa pedra da calçada que me preocupa, nem me incomoda ter de usar técnicas de ski em alguns trechos mais exigentes. Apesar de inconvenientes, são obstáculos com os quais lido bem. O chão está só a cumprir o seu propósito enquanto superfície sólida, mais ou menos estável, com maior ou menor inclinação, sobre a qual pessoas e objetos se deslocam, e o inverno não está a fazer mais do que aquilo a que se propõe. Protejo-me da irregularidade do chão usando ténis com boa aderência e protejo-me das baixas temperaturas usando roupa quente. Contudo, há um outro obstáculo que me tem condicionado as corridas matinais.

Este tipo de obstáculo não é comum a todos os bairros de Lisboa, mas encontra-se muito na zona onde vivo. Normalmente, aparece em estado sólido mas, quando chove, pode ficar líquido. Apresenta-se em vários tons de castanho e a sua forma e textura mudam de acordo com as condições atmosféricas em que for produzido. No verão, tem tendência para secar mais rápido com o calor e desfaz-se em migalhas densas e arenosas sob os sapatos. Na primavera, o seu cheiro pode manter-se por vários dias, contribuindo para o mau humor da vizinhança. No outono, pode revelar-se debaixo de uma folha caída que o vento decide soprar momentos antes de um passo decisivo. E no inverno deixa-se rebolar à chuva, preservando a sua humidade, amolecendo aqui e desintegrando-se ali, longe da atenção dos bípedes apressados.

Estes ditos obstáculos não nascem a saber que o são. Aliás, só se tornam obstáculos quando o ser humano assim os batiza. Normalmente, este batismo acontece na sequência de um encontro inoportuno, sem aviso prévio do seu produtor ou produtora, dos quais ficamos a conhecer as entranhas sem antes sabermos sequer os seus nomes. Colam-se à sola dos sapatos, cheiram mal e nunca deixam memórias felizes. As pessoas mais otimistas dizem que pisá-los pode ser um bom augúrio a nível financeiro, mas certamente não é na riqueza alheia que os seus responsáveis pensam quando deixam que estes ditos obstáculos pintem livremente as ruas. No teatro, estas obras disformes também são evocadas para desejar boa sorte antes dos espetáculos, e tudo graças a uma lenda muito antiga que envolvia cavalos e carroças. Mas deixemos os cavalos para outra altura. Esta crónica não é sobre animais de quatro patas. É sobre seres que se dizem racionais, especificamente os que vivem na minha zona, que na tentativa de trazer amor e união às suas famílias, compram cães em vez de os adotar, dão-lhes nomes pouco originais, como Brownie, Nestum, Lucky e Bolinha, castram-nos e, para terror da vizinhança, levam-nos a passear. Claro que levar os cães à rua é uma tarefa indispensável, pois para além de permitir que estes façam um reconhecimento saudável do território, farejando outros cães e brincando ao ar livre, também serve para que o seu dono ou dona saia de casa, contrariando o sedentarismo a que o confinamento convida. É sempre um bom pretexto para esticar as pernas, deitar conversa fora e dar um salto à loja de conveniência para comprar aquele pacote de leite de vaca, meio gordo, que ficou esquecido na última ida às Amoreiras. Mas parece que, para muitas pessoas, passear os cães é uma rotina chata, que só as faz arrepender cada vez mais daquele “sim” que disseram aos filhos quando estes lhes pediram, com um olhar angelical, um cachorrinho para o aniversário. Parece que o exercício de cuidar de um ser vivo que em nada se parece connosco, mas que ainda assim nos ama cega e incondicionalmente, dá demasiado trabalho. E deve dar tanto trabalho que, para algumas destas pessoas, passear os cães resume-se apenas a sair de casa ao mesmo tempo que eles. Se forem bem educados, andam sem trela e não se aventuram para muito longe. Cheiram aqui, espreitam ali, fazem as suas necessidades, e voltam a correr fielmente para perto do seu domesticador, que já se esqueceu da principal razão de ter saído à rua e só se lembra, isso sim, de que não trouxe agasalho suficiente, nem ténis com boa aderência para as ruas escorregadias. Eventualmente, os dois regressam a casa. E a merda ali fica, quieta, fumegante, anónima, à espera de um pé distraído que a possa arrastar para dentro de outras casas.

Lá porque a merda não é nossa, não deixamos de ter responsabilidade sobre ela. A merda virá sempre de algum lado e será sempre de alguém. Mais cedo ou mais tarde, alguém terá de se relacionar com ela, seja a apanhá-la e a deitá-la no lixo, seja a evitá-la no momento certo, seja a esborrachá-la, sem querer, no fim de um dia difícil.

Pronto, era só isto. Tenham cuidado com a merda que avistam na rua. E evitem pisá-la. Até porque ela pode, sem darmos conta, subir-nos à cabeça.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
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