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Opinião de Marco Mendonça

Crónica do homem bom

O grande livro dos homens encontra-se agora escancarado sobre a mesa. As páginas vazias conhecem…

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O grande livro dos homens encontra-se agora escancarado sobre a mesa. As páginas vazias conhecem os primeiros rascunhos daquela que será a nova definição de masculinidade. Os seus principais autores são finalmente convidados a meter os papéis para a reforma, mesmo que ainda se considerem jovens modernos e progressistas.

Já não cabe só aos homens brancos, cisgénero, heterossexuais, privilegiados, decidir o que deve, ou não, ser considerado aceitável nas sociedades que, virtualmente, ainda dominam.

Uns a bem, outros a mal, vão percebendo que o resto da humanidade tem todo o direito e legitimidade para pensar e decidir sobre o futuro das estruturas económicas, políticas, sociais e religiosas, assim como tem toda a inteligência e criatividade para redefinir símbolos e narrativas que, até há poucas décadas, eram negligenciadas injustamente.

Chegou o tempo de se desconstruir o grande mito da masculinidade, que sempre nos foi oferecido como um altar de poder e controlo iminentemente inalcançável para qualquer outra fatia da sociedade.

Habituámo-nos, através de todos os meios de difusão da cultura ocidental, à imposição das vontades do homem branco através da força ou da ameaça da força.

Segundo o escritor e cineasta Jackson Katz, os meios de comunicação são a grande potência pedagógica do nosso tempo: “se queremos entender os fenómenos sociais da atualidade, incluindo a violência e os comportamentos abusivos do homem branco, – o sexismo e o racismo estão obviamente incluídos nestes comportamentos – temos de analisar com curiosidade a maneira como a comunicação social influencia essas narrativas.”

Na literatura, no entretenimento, nas campanhas políticas, na educação, sempre se promoveram caricaturas do homem viril, resiliente, inabalável, mas acima de tudo, violento. Seja em filmes de ação de Hollywood, seja em obras literárias da Grécia antiga, seja nos relatos históricos de guerras e conflitos territoriais, a violência é o combustível e o motor do prestígio masculino. Qualquer amostra de vulnerabilidade é sinónimo de fraqueza e qualquer frustração serve de passaporte para uma resolução sangrenta. E pelo meio dessas demandas grotescas de virilidade, vemos mulheres retratadas como submissas, depressivas, impotentes, e vemos minorias vilanizadas, humilhadas e silenciadas.

Mesmo no século XXI, a representação dessa masculinidade “ideal”, embora perca relevância aos olhos das comunidades que combatem o patriarcado e o privilégio branco, ainda encabeça as agendas de muitas instituições.

O homem branco, mesmo sendo perpetuador dos crimes mais horrendos da humanidade, habituou-se a esconder-se atrás das manchetes e estatísticas que expõem as vítimas desses mesmos crimes. Mas enquanto as mulheres, as pessoas LGBTQIA+, ou as pessoas racializadas, sofrem diariamente com a maldição da supremacia branca e masculina, os causadores desse mesmo sofrimento são hoje forçados a debater-se com outra maldição que os seus antepassados deixaram: a maldição do privilégio. Por mais difícil e humilhante que possa parecer, este é o momento certo para o homem – neste caso, foco-me especificamente no homem branco, mas é importante incluir todos os que se identificam como tal, de todas as classes, crenças, etnias e sexualidades - e assumir as suas fragilidades face ao crescente questionamento de que é alvo. É importante que se questione a si próprio e que se inclua como sujeito participante nas discussões sobre racismo, género e sexualidade. É importante que perceba que o espectro da masculinidade é tão alargado como o de qualquer outro género, e que ser homem não se resume a uma única e rígida ideia de identidade construída por sociedades arcaicas. É importante compreender que o termo “masculinidade tóxica” não é uma sentença que reduz todos os homens ao estatuto de inimigo público. A masculinidade tóxica elenca apenas um conjunto de práticas violentas culturalmente impostas, e nenhuma dessas práticas é inerente aos traços primários da biologia masculina. Nenhum homem nasce violento, desligado das suas emoções, machista, abusivo, perigoso.

Como diz o professor e Youtuber Guilherme Terreri, mais conhecido como Rita Von Hunty, num dos seus vídeos, a fragilidade masculina revela-se quando o homem resiste a “olhar-se ao espelho de modo a compreender os seus defeitos.” É certo que as sociedades que nos antecederam foram decisivas no enraizamento histórico da tendência violenta do homem, mas também é certo, ou pelo menos devia ser, que o homem de hoje tem o dever de refletir e reescrever os mitos que se criaram a seu respeito. Porque, como Rita diz, “todo o mito é também uma farsa, e toda a farsa é cómica e risível por natureza.”

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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