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Cuidado com o coração, malta!

Nas Gargantas Soltas de hoje, Manuel Luar comemora o Dia Mundial do Coração, falando-nos da dieta mediterrânica.

Ilustração de André Carrilho

O Dia Mundial do Coração celebra-se também em Portugal, a 29 de setembro.

Foi a Federação Mundial do Coração (World Heart Federation) quem escolheu o dia 29 de setembro para celebrar, desde 2020, essa fundamental “bomba mecânica” do nosso corpo, a bater quase desde que fomos concebidos até ao momento do fim.

O objetivo da data é divulgar os perigos das doenças do coração e prevenir possíveis ataques, sendo que a doença cardíaca e o acidente vascular cerebral são as principais causas de morte no mundo.

Para ajudar a manter em boa forma essa ferramenta indispensável à vida, para além de evitarmos alguns vícios hoje felizmente já um pouco datados (como o tabaco) devemos igualmente olhar pela qualidade da nossa alimentação.

E temos a felicidade de poder mergulhar nas raízes da história gastronómica do nosso país para aí recolher boas, saudáveis e saborosas práticas, relacionadas com o que muito mais tarde se convencionou chamar “dieta mediterrânica”.

O Professor Orlando Ribeiro descreve Portugal, na sua obra fundamental “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”, como uma região modulada por duas influências marítimas que se sentem desde sempre tanto no espaço físico como no espaço cultural: o Mediterrâneo e o Atlântico.

Apesar de não ter costas banhadas pelo grande mar interior ocidental, Portugal é um país mediterrânico pelo clima, produções agrícolas e pela sua cultura. E muito pelo estilo de vida, um modelo cultural sem idade que é transmitido de pais para filhos, integra formas sociais específicas de relacionamento e faz apelo a produtos locais que são (ou eram…) consumidos de acordo com a evolução natural das estações.

Azeite, pão, vinho e cereais são comuns nas sociedades que desenvolveram as três grandes religiões nascidas nesta região influenciada pelo mar interior. 

Mas apesar da frase feita e cunhada a propósito da justíssima elevação a Património Imaterial da Humanidade, a chamada “dieta mediterrânica” não se pode considerar como sendo unicamente um tipo de regime alimentar.

A “região que é Portugal”, continuando a seguir a lição de Orlando Ribeiro, resulta e individualiza-se pela dialética que se estabelece entre o espaço físico e a ocupação humana.

É uma forma de estar e de viver que muito nos honra, uma herança histórica de tradição e de civilização com raízes que mergulham no período da romanização e do “mare nostrum”.

No seu livro “Viver Portugal com o Mediterrâneo à Mesa - A dieta mediterrânea na gastronomia portuguesa”, Fortunato da Câmara já traçara um percurso histórico de grande erudição sobre a evolução dos usos e costumes alimentares dos portugueses, com relevo para as grandes influências do passado - romana, árabe e fenícia -  e sem esquecer o presente e o futuro da gastronomia portuguesa de excelência, baseada - como sempre o foi - nos produtos de primeira qualidade: peixes e mariscos irreproduzíveis, uma doçaria conventual intransmissível (no dizer do próprio autor).

Nada mais “mediterrânico” do que um belo peixe grelhado nas brasas de carvão, acompanhado pelos legumes da época.

Em Leça havia um restaurante de muita qualidade - Degrau do Castelo - onde me abriguei muitas vezes para fugir aos outros poisos restaurativos de “chamar o turista” que rodeavam o largo da fortaleza na mesma povoação.

Mestre Rui estava na Sala, sua mulher junto dos fogões. Acolitados por gente boa de tacho, enchiam de mimos os passantes com o que nos punham na mesa. A filosofia era simples: Peixe fresco e marisco da nossa costa ainda a mexer. Depois vinham os acompanhamentos, onde avultava a célebre açorda de coentros ovada, da mulher do Rui, ou os arrozes a gosto do cliente. O peixe era apresentado como o desejávamos: cozido, frito, grelhado ou no forno, dependendo da pressa e da vontade do momento.

Serviço muito amável - embora já algo "ruço" - no sentido que davam a essa palavra os nossos antepassados, tornando famosa a interjeição de João Gomes da Silva em frente de D. João I e face ao projeto de Ceuta: “Ruços Além!” Diríamos hoje: Avante os Cotas!

Num dia memorável veio para a nossa mesa um rodovalho grelhado, peixe de bela dimensão e rijo a sério, nada que se comparasse com as "molezas" aviárias. Acompanhado por grelos salteados e a tal açorda de ovas, aqui enriquecida com belíssimos camarões da Aguda, frescos. De comer e chorar por mais.

É este um dos locais que mais me fazem saudades, esperando que se encontre mais tarde um limbo qualquer onde possamos todos – os que o merecem - outra vez reencontrar estes momentos de ouro e azul.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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