“Hoje, vende-se o ruído; o ruído domina o mercado como objecto de consumo indispensável."*


Inicio o meu texto com uma frase que não é minha mas que tanto de mim diz...
Sentada numa cadeira de madeira nas traseiras da minha casa, chapéu de palha, calças arregaçadas acima do joelhos, um novo projecto de tricot e silêncio.
Não preciso de muito mais para me encontrar comigo e perceber como o estar em silêncio me é tão fundamental e que são poucos os momentos que o tenho.
Hoje é domingo o que me permite usufruir do silêncio do meu pátio enquanto medito nesta trama que teço entre agulhas.
Preciso de silêncio e lido tão bem com ele, mesmo quando estou acompanhada. Não me sinto sozinha quando estou em minha casa ou na de outros e não há palavras, música ou a televisão ligada, sabe-me tão bem escutar apenas os sons que os corpos presentes produzem involuntariamente.
A importância que dou ao silêncio prende-se com o aceitar que não temos de estar sempre a falar e a ouvir, e é tão bom só estar e ao mesmo tempo tão difícil de o conseguir. Parece-me que somos cada vez mais incentivados a ter que nos fazer ouvir e que a contemplação passou para um plano longínquo.
Na realidade, e ao citar George Steiner na epígrafe deste texto, quero evidenciar que o ruído é uma constante do quotidiano. E quando confrontados com momentos de silêncio nem sempre se consegue lidar com esta a ausência de som. Há uma necessidade de quebrar o silêncio, e agora com o acesso facilitado a tantos canais virtuais, são poucos os que não usam essas ferramentas para o fazer. E lá se vai o silêncio, que muitas vezes é a oportunidade de estar e de observar.

Eu falo imenso, mas em contraponto tenho também muitos momentos em que nem uma palavra sai da minha boca, quem convive comigo nem sempre gosta deste estado que para mim é de auto-regulação, acredito que ao controlar a saída de palavras da minha boca ao mesmo tempo, e em determinados momentos, minimizo estragos junto dos meus ouvintes (mas isto sou eu a pensar). A verdade é que sinto que nem tudo tem de ser ouvido e partilhado, e o som/ruído, parece-me, terá de ser cada vez mais controlado.
A nossa sociedade está em constante alteração e a cultura do ruído ganha cada dia mais volume. Este volume que ocupa os nossos dias e manipula as nossas acções está cada vez mais alto e que em certos locais, cafés ou restaurantes, nem permite que se converse, quanto mais que nos percamos em leituras silenciosas.
Outro exemplo que me aflige, é entrar num espaço comercial e sair para a rua num estado de semi-surdez. Será só a mim? Na verdade esta sensação passa-me instantes depois, parece ser uma sensação efémera, mas que se repete. É efémera mas repetitiva! Será isto possível?

Este constante contacto com sons aos quais estamos sujeitos parece-me que nos inibe de seleccionar o que escutar. E mais grave, que nos limita a capacidade de escutar. Refiro-me à capacidade física e sensorial, mas também à capacidade de se estar atento, de nos ouvirmos e de ouvirmos os outros, de termos momentos de escuta activa e conseguirmos seleccionar os sons que nos chegam e ter o entendimento dos mesmos. E a importância de se ser um emissor e um ouvinte tolerante. Esta faculdade enriquece-nos como indivíduos e pode contribuir muito para uma sociedade que valoriza a educação, a cultura e a cidadania.

O silêncio faz parte do ruído e, acho, que é ele que me permite tolerar o segundo tantas vezes. Não recuso a cultura do ruído mas anseio que se invista na cultura do silêncio.
E agora, um minuto de silêncio.
*George Steiner in “Quatro Entrevistas com George Steiner”, de Ramin Jahanbegloo.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva
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