Pelas narinas insinua-se um certo aroma de ar agastado, usado e farto. Não conseguimos identificar com clareza os tons desse cheiro, mas temos consciência que ele se adensa ao longo do tempo.

Nota-se, certamente, uma fragância pandémica. Estamos há dez meses a agir contra a nossa natureza, sempre a procurar o afastamento das pessoas que nos rodeiam. Fugir da família e dos amigos é uma condenação extraordinariamente difícil. Essa fuga cansa-nos e deixa-nos extenuados.

Mas, também, se sente um odor a falsidade. Estamos desgastados por não saber bem em quem acreditar, por ouvirmos demasiadas mensagens, algumas contraditórias, por sabermos que andam por aí boatos e ficções que nos podem contagiar. Temos dificuldade em conceber que há quem deseje que acreditemos em mentiras.

Há, ainda, um toque de bálsamo de irracionalidade. Confunde-se o direito de opinião com o dever dos factos. Discute-se a objectividade da ciência com a parcialidade da esperteza. Uma máscara ganha corpo político e consegue dividir pessoas na democracia mais velha do mundo.

E, por fim, talvez um fedor a medo. Parece que estamos a organizar-nos por trincheiras, sentimos que somos obrigados a escolher uma, porque a meio delas só há campo de batalha. Falam-se dos extremos, das democracias por um fio, de arriscar os direitos que julgávamos há muito tempo consagrados.

São o concurso dessas essências que deixa o nariz indisposto, irritado. Queremos sair deste estado de cansaço. Experimentamos apertar o nariz, mas não respiramos. Por isso, resta-nos procurar novos cheiros, que contrariem estes. Perfumes que anulem os anteriores e que nos animem, energizem e nos ofereçam um caminho.

É por isso que precisamos da cultura, agora. A cultura é a contínua procura de esperança.

A cultura, da mais elitista e codificada à mais popular e acessível, sempre garantiu um papel de desbravamento de alternativas, frequentemente inesperadas.Precisamos de voltar a sonhar, de pensar no futuro, de criar em vez cancelar.

Dispensar ou menosprezar a cultura agora é um problema para amanhã, quando o cansaço já nos tornou preguiçosos. Este é o momento para voltar a fantasiar, para recuperarmos, para encher o peito de fôlego.

Temos que encontrar soluções para que a cultura continue. Nos espaços próprios, nas ruas, nas casas. A nossa esperança depende disso.

Mas, mais importante ainda, é por isso que precisamos da cultura, sempre. A cultura é a continua procura da felicidade.

Infelizmente, na última década, temos insistido mais em conduzir a sociedade para o défice e para o PIB do que para a felicidade e para o bem-estar. A cultura obriga-nos, no entanto, a guinar o volante de vez em quando.

Em tempos em que o nervosismo e a ira pairam no ar, é preciso reservar mais espaço para estimular a esperança e a felicidade. É a cultura que nos vai dar ferramentas para resistirmos às mentiras e parcialidades, às provações de estarmos longe de quem queremos estar perto, às tentações pelos abismos populistas.

É bom que a cultura nos socorra.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à dimensão de gestão de marcas, tanto na Telecel, onde começou a trabalhar aos 22 anos, mais tarde Vodafone, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo no estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como no desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo