Porquê falar sobre a Acesso Cultura?

De forma a aumentar a presença da cultura na vida dos portugueses, algumas organizações procuram facilitar o acesso à cultura e à forma como ela é apresentada, desmistificando a ideia de que tudo é um bicho-de-sete-cabeças. A Acesso Cultura é uma dessas organizações. Conversei um pouco com a Maria Vlachou, Diretora Executiva da Acesso Cultura, para perceber um pouco melhor o que esta associação faz, como surgiu e o que pensa sobre o tema da cultura em Portugal.

O que é exatamente?

Acesso Cultura é uma associação cultural sem fins lucrativos que procura melhorar as condições de acesso à participação cultural, com profissionais do sector cultural e entidades culturais como teatros, companhias de dança, entre outras. Criada inicialmente em 2003 com o nome Grupo para a Acessibilidade nos Museus (GAM), tinha como principal trabalho, como o próprio nome indica, facilitar o acesso a museus através de membros ligados à área. Funcionou assim até 2013 quando se transformou na Acesso Cultura, uma associação cultural que acabou por herdar e dar seguimento ao trabalho realizado anteriormente. A mudança chegou depois de perceberem que não fazia mais sentido manterem-se apenas nos museus e que este tipo de iniciativa tinha de se expandir chegando a outros meios e trabalhando outras questões.

A ideia da associação surgiu principalmente da falta de comunicação que existe entre os museus e os visitantes. A linguagem usada pelos profissionais é demasiado técnica para haver entendimento entre todos, dificultando a relação entre visitante e local a ser visitado. A missão principal destes profissionais é a melhoria das condições de acesso a espaços culturais e à oferta cultural, não só em Portugal como no estrangeiro, baseando-se em três tipos de barreiras – físico, social e intelectual.

Trocando isto por miúdos. Consideram-se barreiras físicas todos os obstáculos que impeçam a movimentação no espaço, sejam elas naturais ou artificiais, condicionando, assim, pessoas com mobilidade condicionada ou reduzida. Incluem-se nas barreiras sociais todas as situações que possam limitar ou dificultar o acesso à oferta cultural – o nível de escolaridade, desemprego, isolamento social, falta de oferta cultural na sua zona de residência, iliteracia, entre outros casos. Por fim, as barreiras intelectuais são todas as dificuldades que impedem o acesso à totalidade da oferta cultural: quer seja a falta de conhecimentos técnicos/específicos, limitações sensoriais ou a dificuldade para as pessoas cujo português não é língua materna.

Para Maria Vlachou, o uso de termos técnicos utilizados em excesso pelos profissionais da área pode ser uma das razões que leva as pessoas a não incluírem programas culturais nos seus planos. Para além disto, Maria ainda afirma que – “É muito fácil dizer que a culpa é do preço praticado, mas acho que isso não é o principal fator, a falta de interesse e de uma comunicação clara por parte das entidades culturais faz com que as pessoas sintam que está a ser criado um espaço elitista, que dá ideia que é só para alguns, um espaço exclusivo”.

A falta de ligação e de criação de relevância está a afastar as pessoas da cultura, criando barreiras e fazendo com que a cultura seja vista como um hobbie e não seja entendida. É isto que a Acesso Cultura está a tentar combater.

Curso “Atendimento a pessoas com Necessidades”, ©  Acesso Cultura

O que vale mesmo a pena?

Como forma de alertar as pessoas para estes temas, a associação dispõe de vários tipos de formação: workshops, cursos, debates (não mais do que quatro por ano e abertos ao público), não só em Lisboa como em várias outras cidades. Os cursos são de pequena duração, um dia no máximo, podendo haver algumas exceções. Os responsáveis procuram estar sempre atualizados e saber para além do “menu” de ofertas disponível, o que procuram as pessoas. Maria Vlachou assegura que, “quase todos os anos há um ou dois cursos novos porque estamos atentos ao feedback que os nossos colegas nos dão e tentamos logo aprofundar a nova temática ou introduzir uma nova, para podermos dar resposta às necessidades”.

Para além de tudo isto, a associação tem ainda a Semana da Cultura, em que é pedido a várias entidades culturais que abram as suas portas e mostrem os bastidores, como trabalham e o que fazem.

Como se tudo isto não fosse suficiente, a Acesso Cultura tem ainda os Prémios Acesso Cultura. Este prémio procura distinguir, divulgar e promover aqueles que mais se destacaram na procura por melhorar o acesso à cultura no nosso país, fazendo com que consiga chegar a todos.

Conferência Anual, ©  Acesso Cultura

Há sempre uma história lateral que merece ser contada. Qual é essa história?

Um dos prémios, Prémio Acesso Cultura – Acessibilidade Social – foi entregue à Biblioteca de Marvila pelo seu projeto Biblioteca Humana.

O projeto, dirigido pelo Paulo José Silva e pela Susana Silvestre, baseia-se na ideia desenvolvida por uma organização não-governamental dinamarquesa, a Human Library e tem como principal objetivo promover o diálogo e o respeito pelos direitos humanos ao mesmo tempo que procura combater o estereótipo.

Não é ao acaso que o projeto se chama Biblioteca Humana. Tal como o nome sugere, os “livros” são pessoas que interagem com os leitores e partilham com eles as suas vivências. As sessões são simples: existem então os chamados “livros”, pessoas com diferentes pontos de vista, valores e percursos de vida que se disponibilizam a ter uma conversa com um “leitor”, ou com um pequeno grupo de “leitores” caso o dito livro tenha demasiada procura. Num clima de partilha de vivências, de uma forma segura, informal e sem julgamentos, o ponto principal é a queda de preconceitos, estereótipos e de julgamentos pré-constituídos. Também não é ao acaso que o projeto decorre na Biblioteca de Marvila: “O projeto está a acontecer aqui, não pela localização, mas pela disponibilidade da equipa”, explica Susana.

Contando já com duas edições, a primeira delas teve lugar nos dias 27e 28 de Maio na Biblioteca de Marvila aquando do Festival Muro, e a segunda decorreu durante Os Dias de Marvila, a 24 de Setembro de 2017, no Teatro Maria Matos.

Até agora o feedback é positivo, quer seja do lado dos “livros” quer seja do lado do “leitor”. Para Paulo a diferença está no diálogo – “uma coisa é ver publicidade contra a discriminação, outra coisa é quando se fala, nos emocionamos a falar com as pessoas e descobrimos de outra forma as vivências. Tem um efeito eficaz em perceber o que é isto da discriminação”. Paulo acrescenta ainda que esta iniciativa é importante para todos os habitantes da zona, e não só, porque os coloca em contato direto com cultura – “As pessoas que vivem aqui não têm quaisquer hábitos, os que têm é TV e pouco mais, e a festa que a Junta de Freguesia organiza de bailarico. Outro tipo de programas culturais ou artísticos têm sido produzidos pela biblioteca e nota-se cada vez mais as pessoas a vir assistir as coisas”.

Susana admite que “antes de inaugurar a biblioteca permitimos às pessoas vir visitar o espaço, sem haver ainda mobiliário, ainda havia imenso pó, e essa memória vai-me ficar para sempre, porque lembro-me de ouvir as pessoas dizer ‘isto são pérolas para porcos’ é uma coisa assustadora”. Incluir este tipo de iniciativa numa zona tão complicada não é fácil, garantem. Dizer-lhes o que é uma Biblioteca Humana, colocar duas pessoas frente a frente a falar, não é fácil, mas desde que fizeram um teste junto da escola de Marvila que a receção foi notória e o interesse aumentou.

Aliás, o interesse foi tanto que para este ano esperam-se mais duas sessões: a primeira delas será em parceria com a Acesso Cultura e a segunda durante Feira do Livro LGBTQI+ juntamente com a associação ILGA. Ambas as sessões decorrerão em Outubro.

Biblioteca Humana, “Livro” e Leitor, © Câmara Municipal de Lisboa – Bibliotecas Municipais de Lisboa 

 Se eu quiser saber mais sobre este tema onde posso ir?

Para obter mais informações em relação à associação Acesso Cultura ou a todos os eventos e serviços disponíveis, podem consultar o site: acessocultura.org, onde têm todos os contactos e podem falar diretamente com a associação, ou enviar um e-mail.

Já em relação à Biblioteca Humana podes obter mais informações no site, onde podes descobrir um pouco mais sobre o projeto, bem como consultar a lista de “livros” disponíveis e um pequeno resumo de cada um deles.

Texto de André Arrátel Torrão

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