Nasceste agrícola.
Regaram-te com metáforas e ironias.
Está no uso usar-te.

Dizem que o poder precisa de ti para mandar.
Que os fracos se levantam com o teu alimento.
Que alcanças as múltiplas manifestações do humano.
Que és a distinção entre as pessoas as plantas os animais, as máquinas.
Que podes a paz e a guerra. Até o amor e o ódio serão formas tuas, mudadas no tempo e no espaço.

Dizem que as artes são uma expressão sublime dentro de ti.
Até Deus será uma criação tua – é preciso cultura para invocar o nome do Senhor.
Tu, situacionista e revolucionária, conservadora e reformista, anárquica e liberal, masculina e feminina, dos géneros todos que queiras, palavra, ato e omissão, pedra, ribeiro, ave, tão definida como outra coisa qualquer e mesmo indefinida como coisa alguma.

Dizem que és dos cultos e que há os incultos.  Ou até que há culturas onde a palavra cultura não existe (o que aí acontece nunca se prendeu com as palavras).

Que és alta ou baixa, houvesse vitaminas que te aditivam e uma qualquer falta de sol que te ensombra.
Que és profissional ou amadora, fosse o amador longe da cousa amada e o profissional o único agente zero zero, com licença para matar.
Que há os doutores, programadores, curadores, conservadores, e outras dores que te pregam na cruz dos templos mais sagrados, eles lá sabem porquê.

Dizem que te vestes de transcultural, multicultural, intercultural, e que quando andas nua o rei não te vê.
Que não cabes no silêncio, que estás para lá do silêncio, que és a essência do silêncio.
Fartam-se de dizer coisas sobre ti. Ou antes. Não se fartam de dizer coisas sobre ti.

Tudo dizem de ti e o seu contrário.

Anos atrás, achava que te podia pegar pelos cornos. Não para te ferir ou demonstrar capacidade de domínio. Só para assentar os pés na areia, medir forças, suar no retesar dos músculos, respiração ofegante. Eras uma abstração à procura de autor e eu propunha-me pôr-te um cabresto. Um touro preparado para a faena.

Os anos passaram. Toquei-te ao de leve. Não te incomodou. Vi-te dentro e fora de mim e não te vi dentro e fora de mim, dentro e fora de todas as coisas vi-te e não te vi. Ensaiei  uma cegueira, eras um fogo que arde sem se ver, mentiria eternamente se não dissesse que chego a mentir verdadeiramente sobre a verdade que deveras   minto. Fogo fátuo. Fruto proibido. Proibição libertada. Liberdade em fuga. Fuga sobre a fuga. Bem temperada.

Que és uma gastronomia inteira. Com mais ou menos condimentos. Segredo da avó.

Que és um universo inteiro. Com mais ou menos estrelas. Segredo meu.

Já me importei bem mais com estas coisas.

Agora, prefiro sentar-me a desenhar asas num papel, fazer do papel asas, das asas pássaro, do pássaro voo, do voo viagem, da viagem caminho, do caminho percurso, do percurso tarefa, da tarefa um desenho

onde as asas

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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