Se, como escreveu Franz Kafka (1883-1924), “quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece”, a curadoria, na sua nobre missão de descodificar, resignificar e/ou permitir a permeabilidade dos públicos na produção artística contemporânea, é uma espécie de rejuvenescedor humano. Contudo, não foi pela alegoria cosmética que me lembrei de Kafka, mas antes porque procurava nele alguma espécie de oráculo vinculativo do horror burocrático em que a pós-modernidade está mergulhada e de como a inoperância do excesso de papelada e da falta de transparência de procedimentos e afins torpe a fluidez da sociedade em todas as suas dimensões, a começar pela economia e a acabar nas relações afetivas. Por estes dias, defendi as minhas provas públicas de doutoramento em Ciências da Comunicação, pela Universidade do Minho, com uma tese intitulada “A Curadoria (expandida) enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea”, quase sete meses depois de a ter entregue… No ato simbólico da defesa, entre a “Utopia” de José Afonso (1929-1987) e a “Inquietação” de José Mário Branco (1942-2019) que moldam a minha forma quotidiana de estar pelo poder transformador da Arte e da Cultura, apercebi-me de que no enlace do tempo a minha perceção do exercício da atividade profissional havia evoluído da expansão para a fixação de um conceito 360º.

Em O Crepúsculo dos Deuses, Nietzsche (1844-1900) refere que são necessários educadores para ensinar três tarefas: ensinar a ver, ensinar a pensar e ensinar a falar e a escrever. O objetivo desta aprendizagem seria, segundo o filósofo, a designada “cultura distinta”. O que se entende por distinto? O que é da elite? E como transferimos o poder agregador da elite nos processos de difusão da cultura na construção de um modelo social que tenha na democratização do acesso à arte e à cultura a sua base? Como convencemos a elite à ação comunicante e a perder o medo da distopia em que mergulhou ao considerar-se juíza do gosto e da verdade sobre o que é e não é Arte? E qual o papel da curadoria, inscrita disciplinarmente (como proponho) no campo mais vasto das Ciências da Comunicação, neste desafio global, em que todos somos essenciais, de mudar o mundo? Harald Szeemann (1933-2005), considerado por muitos como pai da curadoria, escreveu que “para se ser curador é preciso ter entusiasmo, amor e alguma obsessão.”; Boris Groys (n.1947), outra das minhas referências, “a curadoria cura a impotência da imagem, a sua incapacidade de se mostrar a si mesma.”

Voltando ao Kafka: a burocracia do sistema condiciona-nos e é inimiga da expressão pública da nossa própria evolução e, desde junho de 2020, momento em que dei por concluída a tal etapa académica em que proponho uma visão expandida da curadoria considerando que o curador é um operário, um gestor, um investigador, um influenciador, um mediador, um ativista, um autor e a curadoria é um ato de comunicação, um conceito mais agregador vem-se desenhando na minha própria ação. A revolução que a afirmação do digital está a provocar nas formas de difusão da cultura, por um lado, e o desafio cada vez maior de um pensamento sobre a importância do espaço público enquanto construtor de identidades e de confrontos inter e intrapessoais, traz às estruturas de programação cultural novas urgências. A curadoria já não está hoje, como não mais poderá estar, confinada à autoria individual, sendo, cada vez mais, uma ação coletiva e de equipas multidisciplinares que a constroem enquanto metadisciplinas. Mais do que pensar a exposição enquanto dispositivo de comunicação, a curadoria, focada na promoção e divulgação da arte e dos artistas contemporâneos, na potenciação da penetração dos públicos nas suas camadas de leitura e na mediação entre os elementos do sistema da arte, exige a integração de conteúdos audiovisuais, editoriais, de uma aproximação à pedagogia e uma ação ampla de produção de ferramentas de autonomização dos públicos, facultando as interações em liberdade e não condicionadas às formas tradicionais de educação e mediação cultural que, não obstante, também se devem reforçar na dependência do discurso do curador. Em suma, a curadoria é, cada vez mais, uma demanda de 360º e, sete meses depois, não obstante a nota máxima, o título era outro. Bem dizia Kafka, agora sim sobre o mote da burocracia, “Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.” Começar 2021 em disrupção de pensamento, em sentido contrário à tendência da inércia. Já não me livro disto.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

É curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e doutoranda em Ciências da Comunicação, com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Com mais de 12 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), entre tantos outros. É membro fundados da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães e em 2019 publicou o seu primeiro livro de prosa poética, intitulado “Pequenos Delitos do Coração”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete

gerador-gargantas-soltas-helena-mendes-pereira