O Poder de síntese.

Qual é a tua cor favorita?

Não sei.

Sempre tive uma dificuldade enorme em fazer escolhas. Se escolho o azul, excluo todas as outras cores e isso inquieta-me.

Por virtude desta incapacidade, vejo-me num estado recolector permanente, é nessa complementaridade que me reconheço.

Nunca fui religiosa, a família não passou essa herança e, como tal, fui encontrando um caminho para a espiritualidade através daquilo que mais amava. Inicialmente, achei-me panteísta, talvez assim seja e, quando era adolescente costumava dizer, em tom de brincadeira, que a música era a minha religião. Não mudei muito desde então. 

Nunca tive um grupo fixo de amigos, daqueles coesos com funcionamento de quasi amebas, não o digo por despeito e confesso que a certa altura invejei quem o tinha.

Com a idade aceitei a conquista das minhas amizades e acredito que é na soma de todas elas que me construo, carregando um pedaço de cada uma com orgulho, enriquecendo-me com enorme satisfação. 

A certa altura da infância achava que ser adulto significava saber um pouco de tudo.

Com muita naturalidade, acreditava que aquilo que me distinguia dos mais velhos era a quantidade colossal de conhecimento que possuíam. Um adulto deveria saber porque existe céu, quais as suas estrelas, que espécies de animais povoam a terra e o mar, qual o nome das árvores e flores de cada jardim, quais os nomes dos reis, dos rios, das linhas de caminho de ferro e tudo o resto concebível e também imaginável. A meu ver, ser adulto significava conhecer o funcionamento do motor de um carro, e porque não de um avião ou de uma nave espacial? Não havia limites, o ser humano era nada mais do a criatura perfeita, capaz de tudo o que o Poder da sua vontade determinasse.

Alimentei a ilusão de que nós, os humanos, nascíamos envoltos de uma aura mágica que nos concedia a proteção e inspiração, todos partíamos da mesma tabula rasa. Era uma ilusão, bem sei.

Em consequência dessa idealização, fui-me sentindo fascinada por um lado e abismada por outro: a fasquia era inatingível. 

Como igualar-me a esta imagem que fiz de nós?

Em conversas com um bom amigo conheci a citação de Isaac Newton, “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”, para algum conforto das minhas inquietações. É fácil sentirmo-nos insignificantes perante a grandiosidade da construção humana que nos precede, mas se queremos cumprir-nos como indivíduos talvez a resposta penda mais para a expressão supracitada. Veremos mais além quanto mais consciência tivermos daquilo sobre o qual edificamos as nossas conquistas. 

Encontrei também eco para a minha necessidade de complementaridade, através do mesmo amigo, na expressão de Jorge Luís Borges: “Não tenho a certeza de que eu exista. Sou todos os escritores que li, todas as pessoas que conheci, todas as mulheres que amei, todas as cidades que visitei, todos os meus antepassados.”

Continuarei, pois, indecisa mas cada vez mais fortalecida pela visão de um horizonte mais amplo permitido pelo legado incomensurável da história da humanidade. 

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi
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