The Ever Coming – Vox Humana é o novo trabalho de Dada Garbeck lançado no final do mês de março. Este é o segundo álbum do artista de Guimarães e faz parte de uma tetralogia de discos. O primeiro, editado em 2019, focou-se nos sintetizadores e o mais recente dá destaque à voz. “Este segundo disco é, sem dúvida, a continuação do primeiro e o prelúdio do terceiro, que há de chegar”, conta.

Em entrevista, o vimaranense fala das inspirações dadaístas, do processo criativo de ambos os álbuns, do boomartístico da cidade de Guimarães e da tetralogia que vai marcar o seu percurso musical. 

Gerador (G.) – Sobre o teu nome artístico, referiste numa entrevista que ele tem origem no dadaísmo e surrealismo. Tentas passar essas expressões artísticas para as tuas músicas também?

Dada Garbeck (D. G.) – O nome tem origem nesses movimentos, sobretudo por me identificar e gostar de trabalhar sobre eles. No entanto, enquanto Dada Garbeck, não existe esse propósito direto. Logicamente que, sendo eu alguém que consome muito estas formas de arte, elas estão em mim consciente ou inconscientemente. Ou seja, quer eu queira quer não, em tudo quanto faça, isso também lá estará.

G. – Lançaste, no final de março, o teu segundo álbum. Já afirmaste que decidiste “trabalhar sobretudo a voz humana como sintetizador” neste novo trabalho. O que é que isto significa em termos musicais e o que é que o ouvinte pode esperar?

D. G. – Significa essencialmente que as possibilidades, quando falamos na voz, são infinitas. Neste caso, como trabalho sobretudo com sintetizadores, achei interessante trazer a voz humana em algumas das suas extensões para este mundo. De que forma podemos mesclar a voz lírica ou a voz tradicional com a eletrónica, e em que medida é que essas vozes deixam de ser vozes e são também sintetizadores. Há uma questão – o uso ou o não uso da palavra. Porque a voz é a palavra, mas também é a não palavra, é a linguagem e a não linguagem, a pré-linguagem ou até a metalinguagem. No fundo, é olhar a voz humana como um veículo analógico de produção de som e não apenas como uma fonte de palavras e de expressões com um determinado timbre que, a meu ver, a torna redutora.

G. – De uma forma geral, podemos ver que deste um papel diferente e de destaque à voz neste novo disco. Porquê essa decisão?

D. G. – O projeto The Ever Coming é uma tetralogia e esta é a parte número dois. Existe uma ordem e uma lógica (Sintetizadores, voz, sopros e, por fim, piano). Esta decisão, que também serve para o próximo disco, deu-se porque tenho desenvolvido desde há muitos anos um trabalho extenso com e sobre a voz. Seja no teatro ou em projetos mais ligados com a tradição oral, ou até mesmo na pesquisa de técnicas usadas em todo o mundo. Esta ligação à voz fez-me querer muito desenvolver este trabalho e juntar duas áreas que me são tão íntimas. 

G. – Lançaste o disco The Ever Coming em 2019 e acabaste de editar o The Ever Coming – Vox Humana. Podemos concluir que o último é uma continuação do primeiro?

D. G. – Este segundo disco é, sem dúvida, a continuação do primeiro e o prelúdio do terceiro, que há de chegar. Todos os quatro discos são a mesma peça. Poderíamos dizer, em última análise, que este conjunto de quatro discos (tetralogia) são um só trabalho, ou seja, um longa duração. 

G. – O processo criativo e a execução de ambos foram similares?

D. G. – O processo criativo foi muito similar e será para todos os trabalhos. É um processo de muita solidão e de uma certa reclusão premeditada. A execução deste disco já tem grandes diferenças, sobretudo nos mecanismos e necessidades de gravação. Foi mais complexo a todos os níveis – produção, gravação, exigências técnicas, etc…. O primeiro foi muito mais simples e solitário. 

G. – Possuis uma música neste novo trabalho chamada Unsafe Space is the Place. Consideras que sair da zona de conforto é um estímulo para a criação artística?

D. G. – Parece-me que, não só é um estímulo para a criação artística, como é também para todas as vertentes das nossas vidas. É nesse terreno inseguro que mais crescemos. É nesse sítio desconhecido que aprendemos realmente. É a cair que se aprende, dizem. E haverá melhor sítio para cair do que o desconhecido? Estes sítios obrigam-nos a tirar o pior e o melhor de nós. É neste sítio inseguro que tens de provar o que vales. Se estivermos sempre seguros, nunca havemos de crescer. 

G. – Estando sediado em Guimarães, como é que olhas para o crescimento exponencial da cultura na cidade vimaranense?

D. G. – É amplamente notório o esforço que a cidade tem feito para se afirmar como um polo cultural de grande calibre. E esta montanha de crescimento já está num estado tal que não irá parar nos próximos anos – já não há travões que a parem. Isto é obviamente positivo, mas também traz os seus problemas. Muitas lacunas por resolver, muitos espaços de pensamento ainda meio vazios.  Sente-se que a massa crítica está a aumentar e que os artistas querem sair das garagens dos pais. Há muitas coisas a melhorar é certo – mas isso haverá sempre. Para já, esperemos que o próximo passo seja facilitar e potenciar os artistas vimaranenses, para que os seus pais não continuem a deixar os carros cá fora e possam voltar a usar as suas garagens. 

G. – Esta nova pandemia mobilizou artistas por todo o país num verdadeiro movimento para levar a cultura a casa dos espectadores através das redes sociais. Sentes que a pandemia vai mudar a maneira como as pessoas olham para os artistas?

D. G. – Acredito que vão mudar muitas coisas. Mas não para melhor. Parece-me que os artistas poderão passar por uma fase menos boa. Esta sobredose de conteúdos sem qualidade, gratuitos e até assustadores, vão ter consequências na forma como o público olha para o nosso trabalho. Entertainers de mesinha de cabeceira. E não é isso que nós somos. Somos artistas e fazemos arte, não somos fazedores de conteúdos. Pode ter consequências positivas, como negativas. Para mim o interessante seria ter aproveitado este paradigma para ficar em silêncio. O silêncio é tão importante. Isso sim, iria mostrar o quão importante é o trabalho de todos nós. 

G. – Uma pergunta final: há planos para o futuro?

D. G. – O futuro de Dada Garbeck para os próximos dois anos já está bem desenhado. Irei terminar e lançar os meus próximos dois álbuns e fechar assim a tetralogia The Ever Coming

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Rafael Farias

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