Era para ter começado às sete, mas a sala não parava de encher. De repente, o silêncio impõe-se como uma respiração antes de um aplauso que parecia sem fim, assim que os protagonistas da conversa que se seguia entram no palco. Ana Aresta, Rita von Hunty, Constança Carvalho Homem, Paulo Pascoal e André Tecedeiro recebem uma ovação sem terem dito ainda uma única palavra. Juntavam-se no palco do São Luiz, em Lisboa, para uma conversa cujo tema era Identidades. Este era, na verdade, o primeiro momento de programação do ciclo Um Coração Normal, programado pelo Teatro do Vão.

Terminada a conversa, a plateia junta-se, de pé, para um ritual dirigido por Rita von Hunty. Segue-se um aplauso, ainda de pé, com a certeza de que as horas que ali se passaram ficarão, certamente, na memória de cada pessoa que ali esteve. A cada tema que surgia, quer pela moderadora Constança Carvalho Homem, quer por questões colocadas pelo público, seguia-se um entusiasmo impossível de conter. Era como se toda a gente que ali estava esperasse desde sempre por aquele momento — talvez por isso a conversa tenha continuado, já em grupos, à entrada do teatro. Dois dias depois, encontrámo-nos com Daniel Gorjão, diretor artístico do Teatro do Vão, na ressaca da estreia de Vita&Virginia, a peça de teatro que dirigiu e que se baseia nas cartas de duas escritoras que se amaram à distância, durante 20 anos.

No palco, as atrizes Maria João Vicente e Teresa Tavares são Vita e Virginia, mas são sobretudo duas mulheres que se amaram. É sobre esta visibilidade que todo o ciclo Um Coração Normal, cujo terceiro e último momento de programação é Gejaĉo, peça auto-biográfica de João Villas-Boas. Foi sobre visibilidade, liberdade e um conceito lato de normalidade que Daniel Gorjão, que é também consultor para as artes performativas na RTP2, conversou com o Gerador. Uma semana depois, a conversa surge como extensão de um momento de reflexão que quis ser maior que ele próprio. E conseguiu.

Gerador (G.) - Dizia-te há pouco que se calhar ainda bem que nos encontrámos depois da conversa. Foi muito fora daquilo que, por norma, é uma conversa, no formato que se vê nos teatros - e que costuma até acontecer depois dos espetáculos. Qual foi o poder simbólico daquela conversa estar a acontecer naquele teatro, naquele palco, com aquelas pessoas, e com tanta gente no lado da plateia? 
Daniel Gorjão (D.G.) - No Teatro do Vão tivemos sempre esta vontade de ter a conversa como primeiro momento, para poder dar pistas para os espetáculos que se seguiam. Acho que foi isso que aconteceu, e foi muito importante ter sido no São Luiz, ter sido naquele palco, porque um palco é sempre um lugar de visibilidade. A conversa teve imensa afluência, estava programada para uma sala de cem pessoas e acabou por acontecer com quinhentas, o que é muito satisfatório para nós e mesmo para o teatro São Luiz. Foi uma conversa que acho que vai ficar na memória de quem lá esteve durante algum tempo, porque foi um momento mágico em que se deu a oportunidade de debater temas LGBTQIA+ num sítio que não é apenas uma salinha para vinte pessoas, ou para aqueles interessados da comunidade. Foi um evento aberto ao público que tentámos que não fosse uma conversa fechada nela própria, tentámos promovê-la no sentido de mostrar que era para toda a gente, e os nossos convidados tinham propriedade para falar sobre estes temas e tornaram a conversa muito interessante, apesar de não ser só na primeira pessoa. Falou-se sobre muitos outros temas, como política, religião, e isso foi muito interessante. Com todas as nossas diferenças, enquanto seres humanos, há uma normalidade social que todos pretendemos e queremos viver e estar numa comunidade que seja o mais ampla possível. 

G. - Havia alguma expectativa da tua parte, quando organizaste este painel? Esperavas que acabasse por ser um momento tão político? Foi interessante o espaço que houve para a discórdia e para o debate…
D.G. - Acho que foi isso que tornou a noite interessante. Não estava toda a gente a dizer o mesmo e provou-se que se pode debater, que algumas pessoas podem acreditar numas coisas e outras noutras e falar sobre isso. E aconteceu isso naquela noite, aconteceu mesmo. Juntando a Rita von Hunty e a Constança [Carvalho Homem], esperava que sim, pudesse ser uma conversa mais política, e foi o que acabou por acontecer. Achei super positivo porque acabou por sair da esfera da primeira pessoa, que era a premissa inicial, e acabou por ir para outros caminhos. A direção da conversa foi no sentido de abrir pistas sobre a nossa comunidade, de debater os temas que são prementes neste momento para ela. Para mim foi muito satisfatório, mas não foi algo que previ, de todo. 

G. - E a vinda da Rita a Portugal foi graças ao vosso convite? Há um certo estatuto de celebridade em torno dela que é muito engraçado e que se sentiu no São Luiz, sempre que ela dizia alguma coisa ouvia-se um grande aplauso. Como se estivessem há muito para a ver.
D.G. - A Rita salvou a minha pandemia. Eu vi todos os vídeos dela, fiquei fã, adoro o trabalho dela, e quando estávamos a pensar nisto surgiu a ideia de a trazermos. Houve um grande esforço, porque somos uma companhia muito pequena e com poucos recursos, para a trazer em carne e osso. 

G. - O Paulo acabou com uma ideia que é também uma das premissas de um pensamento interseccional quando falamos de questões LGBTQI+: “não se esqueçam de ser anti-racistas”. Cada pessoa que ali estava tinha algo a acrescentar que era diferente das restantes. 
D.G. - As pessoas do painel foram as primeiras que convidámos e aceitaram logo, no primeiro momento. Não tivemos segundas opções. A nossa lógica era ter pessoas que pudessem falar na primeira pessoa e que pudessem ter um contributo interessante para a conversa. 

G. - As primeiras intervenções da conversa foram partilhas muito pessoais de cada uma das pessoas do painel. No segundo momento do ciclo, apresentas uma peça de teatro em que olhas para a intimidade de alguém que não és tu mesmo. Qual é o desafio para o fazer com delicadeza? E como é que chegaste até estas cartas entre a Vita Sackville-West e a Virginia Woolf?
D.G. -  Esse texto, feito pela Eileen Atkins e a Vanessa Redgrave, foi-me dado por uma grande amiga, a Teresa Paixão, que trouxe de Londres e me deu. O livro até tem uma dedicatória a dizer “fica-me a dever 8,23£ se algum dia fizer a peça”. A Teresa deu-me este texto em fevereiro de 2011 e esteve dez anos na gaveta. Achei-o interessante, à partida, primeiro porque elas são escritoras e mulheres muito interessantes e, no limite, a Virginia Woolf faz parte do nosso imaginário coletivo. Com a preparação de um outro espetáculo que vamos fazer mais para a frente, esta temática tornou-se (ainda) mais evidente no meu trabalho e quando concorremos a um concurso para o qual tínhamos de pensar no que faríamos para esse contexto, lembrei-me deste texto que já estava à espera há 10 anos. É um texto difícil de pôr em cena, porque são cartas, mas é um texto muito bonito e que toca em muitos pontos que continuámos a ter hoje em dia, e que acho que vamos continuar a ter, porque as relações humanas não mudaram assim tanto. A anatomia de uma relação LGBTQIA+ está ali, e pode ver-se nos dias de hoje da mesma forma. O que acho mais interessante é que o texto não eleva a escritora, A Virginia Woolf, a sua literatura, a sua história com o marido. É outra história. É um romance que elas perseguiram durante 20 anos, com altos e baixos. Numa das cartas a Virginia diz, a certa altura, que é um romance de cartas, da ideia, mais do que um romance carnal. É muito interessante este lado da vida delas. Para a peça, peguei numa história pessoal que não é minha, mas que ressoa na vida de cada um. Claro que é muito marcada, até porque a Virginia Woolf é alguém de quem todos nós temos uma ideia, mas no seu lado humano, no quotidiano, há coisas que nos tocam: já todos nós discutimos, já tivemos ciúmes. Há esse lado humano muito bonito e muito bem escrito. O grande desafio para mim foi pôr em cena estas duas mulheres sem pôr em cena uma mimetização das personagens. 

G. - Como é que foi o processo de construção de personagem com as atrizes para que houvesse esse distanciamento que permitisse ter as escritoras lá de alguma forma?
D.G. - Cada uma interpreta uma delas, a Teresa Tavares a Vita, a Maria João Vicente a Virginia. Eu nunca puxei por esse lado da personagem, o que me interessava era como é que este texto ressoava na Teresa e na Maria João, como é que elas dentro da sua personalidade conseguiam transmitir alguma coisa destas cartas. Depois criei um dispositivo que é um cubo com um véu em cima, que lhe dá um ar espectral, de memória, de algo que não está presente. Não quis que a Teresa e a Maria João estivessem a fazer de Vita e Virginia, quis evocar a memória delas. Portanto, acabei por trabalhar muito em torno da memória, num tempo muito dilatado. Penso que tudo isso ajuda a ter a Vita e a Virginia sem as ter. Foi esse o trabalho que propus às atrizes e que acho que fizeram muito bem. 

G. - Um dos grandes temas em debates sobre questões LGBTQIA+ é o facto de o G ser a letra com mais espaço ou mais poder. Isto leva-me a pensar como temos referências de casais intelectuais que estão todos em relações heterossexuais - como a Beauvoir e o Sartre - e como trazeres a correspondência entre estas duas mulheres acaba por afirmar um duplo lugar de visibilidade, dizendo que um casal de mulheres pode ser um power couple. 
D.G. - Há um lugar de visibilidade e de referência para futuro. Se calhar, não para mim ou para a minha geração, mas para uma geração que não a minha, mais nova. Acho que é importante criarmos referências de futuro para que quem está a ver perceba “ok, isto existe e sempre existiu”, “eu posso ser isto”. Isso é que é interessante no teatro: é criar referências de reflexão e de nos podermos relacionar com histórias que já existiram. A Vita Sackville-West e a Virginia Woolf eram um power couple. Mesmo a relação da Virginia com o Leonard Woolf, o seu marido, era muito transgressora daquilo que é visto como sendo a normalidade. Mas trazer a história da Vita e da Virginia para o palco do São Luiz é mostrar que isto aconteceu e que este é um modelo [de relação] como qualquer outro. Acho que esse é um dos grandes desafios, hoje: dar visibilidade a (outras) referências.

G. - A tua peça estreia no ano em que também a série sobre a Maluda estreou, onde vimos um retrato daquilo que foi a sua relação com a Ana Zanatti. Há um ocupar de espaços com histórias de mulheres lésbicas. 
D.G. - E temos que ocupar esses espaços com narrativas que não sejam hetero-normativas. Eu acompanhei de perto o processo de se fazer o filme da Maluda, porque trabalho na RTP2, e acho que é mesmo preciso que quem está a programar tenha a coragem - porque hoje em dia ainda se trata de alguma coragem - de programar outro tipo de objetos que fujam a narrativas hetero-normativas. Nisso o São Luiz foi incrível porque recebeu de braços abertos o ciclo Coração Normal e foram super apoiantes. Cada vez há menos resistência, mas devia-se replicar em todos os palcos e em todos os canais, se calhar até em canais líderes de audiência que não a RTP2, que quer se queira quer não continua a ser um canal de nicho, ainda que essencial. Mas acho que está a existir cada vez mais uma convergência.

G. - Porque existem cada vez mais realizadores, encenadores, atores e atrizes que contrariam o olhar masculino e cisgénero? 
D.G. - Estes dois momentos que estamos a falar foram programados por mulheres cisgénero, hetero, mas que são aliadas da comunidade. Eu trabalho na RTP2, estou a fazer o ciclo, e sou LGBT, mas é preciso termos aliados — isso para mim é que é fundamental. Temos que ocupar lugares de poder, temos que lá estar - toda a comunidade, não só apenas os gays e as lésbicas - , mas também temos que ter aliados. E é preciso mostrar às pessoas que podem ser aliadas, que podem dar a mão a. Temos que estar nos lugares, mas também temos que ter aliados nos lugares de decisão. Acho que esta foi uma ideia super importante que ficou da conversa. As coisas não mudam à velocidade que queremos, mas se conseguirmos ter um aliado em cada sítio, as coisas acontecem muito mais rapidamente. 

G. - Porque como fazem parte do problema, fazem parte da solução (?)
D.G. - Exatamente. Nós precisamos de reivindicar, compreender o problema e dar soluções, mas eles é que nos podem ajudar verdadeiramente a mudar. 

G. - Uma ideia transversal a todo o ciclo é a de uma procura pela garantia de liberdade, inclusive em Gejaĉo, a peça do João Villas-Boas. 
D.G. - Ser normal, não ser o diferente. A ideia aqui é tu incluires. É seres livre para seres quem és. O espetáculo do João é mesmo sobre isso, sobre ele ser livre. O Gejaĉo é um projeto que ele tinha há algum tempo e, como a temática se relacionada com o Vita e Virginia, decidimos juntá-los neste pequeno ciclo…

G. - E o João também está na equipa da tua peça.
D.G. - Ele faz apoio à criação e eu faço olhar exterior na peça dele. Tentámos reunir a mesma equipa, o cenário é o mesmo, com algumas alterações, que já eram premissas de programarmos no mesmo ciclo, com espetáculos um a seguir ao outro. O João, no Gejaĉo, que é “bicha” em Esperanto, tem uma abordagem muito diferente da Vita e Virginia, na primeira pessoa; é a voz do João, sobre um ritual de passagem para um ser LGBTQIA+, numa pesquisa dele sobre a sua auto-biografia e como pôr isso em cena. É um objeto muito sensível, mas cheio de força. É fundamental um artista também poder dizer “eu também sou isto”. Enquanto eu estou a dizer pelas palavras de outros, ele fá-lo pelas palavras dele mesmo. E é preciso existir este espaço nestes teatros, porque não é a mesma coisa que fazê-lo numa sala pequenina ou num teatro municipal. 

G. - Esses assuntos estão cada vez mais presentes em filmes e séries. Achas que o teatro tem acompanhado essa evolução? 
D.G. - O teatro vai acompanhando. Há vários criadores a trabalharem essas temáticas, ainda este mês estreou o Orlando, do Albano Jerónimo. Há criadores que vão pegando sempre nestes temas; não é uma coisa que aconteça todos os dias, mas acho que lentamente vai criando caminho para que estas narrativas sejam contadas, para que estes problemas sejam refletidos em cena, artisticamente. Este discurso está cada vez mais presente no teatro, não acho que estejamos a anos-luz disso acontecer. Está a acontecer neste momento. 

G. - Outra coincidência bonita foi este ciclo estar no mesmo mês de programação da Gala Abraço, também no São Luiz, que tem sido um espaço de afirmação também. Foi lá que a Symone De La Dragma se estreou como drag queen, por exemplo. Sendo registos diferentes, há um diálogo que se cria entre estes dois momentos.
D.G. - Isso é que me parece mais interessante, serem registos muito diferentes. A Gala Abraço não tem nada a ver com o ciclo Coração Normal, mas tem tudo a ver. São temas que dizem respeito a uma comunidade e nós somos comunidade, e o interessante na programação é independentemente da forma, dar palco a essa comunidade. O São Luiz está a dar palco para que esta comunidade tenha voz e se possa expressar, para que temas que nos são íntimos possam ser debatidos à luz do dia. Eu sou fã da Gala Abraço e acho que é uma festa para todos nós, e é muito bonito o teatro da cidade, como o São Luiz gosta de ser tratado, dar espaço a esta comunidade para ter uma noite só para si num lugar que não é uma discoteca pequena, com um palco pequeno. É importante que esse evento se mantenha para sempre.

G. - E o que é um coração normal?
D.G. - É um coração livre, aceite pelos outros. 

Texto de Carolina Franco
Fotografias de @Marília Maia e Moura