Tempos de intermitência – como aquele que vivemos devido ao surto pandémico de covid-19 – implicam uma certa renovação no modo de pensar, mas também uma necessária reinvenção de comportamentos e processos. Vislumbre desse mesmo efeito é notório no meio cultural e artístico, de onde tem surgido, ao longo das últimas semanas, formas inovadoras de se poder levar cultura aos diversos públicos sem que estes se ausentem das suas casas.

À sua maneira, munida pelo seu carácter independente, a Monster Jinx, editora e coletivo nascido no Porto, criou e está a difundir o movimento #cribseason. Através desta iniciativa, onde também lançam o repto a todos os criativos, é apresentado diariamente um Dj set ou um live act transmitido no Instagram do coletivo, das 18h30 às 19h30, bem como um tema inédito disponibilizado no SoundCloud.

Numa entrevista ao Gerador em torno desta iniciativa, DarkSunn, produtor e um dos membros do coletivo – que partilha com outros artistas como SlimCutz, Maria, J-K, M.A.F., E.A.R.L. ou os recém-chegados Liquid e a sua banda DON PIE PIE –, aborda o momento que vivemos, que embora pautado pela incerteza e pelas más notícias, poder ser catalisador “de mais e melhores projetos, nem que seja pelo facto de o simples tédio ser potenciador do engenho e criatividade humana”.

A #cribseason, que iniciaram no passado dia 16 de março, inclui-se neste leque mais vasto de iniciativas que têm proliferado, mas pretende ser mais do que um mera distração, promovendo um diálogo artístico entre criativos e ajudando aqueles que possam sofrer mais com o isolamento.

“Podemos estar nas nossas casas, separados, mas não estamos sozinhos. A nossa comunidade é mais do que simplesmente a presença física, é a presença sentimental. Logo, para quem tem de estar isolado na sua casa, muitas vezes só com um telemóvel para comunicar, a tendência é sermos muitas vezes bombardeados com os impactos que este vírus está a ter no mundo e na nossa própria rua. Devemos estar informados, mas não pode ser só isso. Do nosso lado, que pelo menos às 16h00 saibas que há ali uma track nova para ouvir e às 18h30 tens alguém a tocar e um conjunto de pessoal num chat a rir-se e a divertir-se, live and direct. Devemos encarar os tempos que correm com responsabilidade e seriedade, mas acreditamos que devemos sempre sentir que há mais do que aquela avalanche de desgraça”, sustenta.

Gerador (G.) – Numa altura distinta para o meio cultural e artístico, a Monster Jinx decidiu criar o seu próprio movimento, intitulado #cribseason. Porque é que decidiram que este projeto encaixava no período singular a que estamos confinados?
DarkSunn (D.) – Tal como a maior parte dos artistas, esta quarentena levou a que muitos eventos em que estávamos envolvidos ficassem no limbo, ou fossem totalmente cancelados. Se juntarmos a isto o facto de grande parte da população se encontrar em casa (ou pelo menos os que podem), achámos por bem arregaçar as mangas e lançar esse repto a outros criadores para não pararem de criar e não pararem de dar de volta a quem nos acompanha do outro lado da cortina.

G. – Trata-se de um apelo que se estende aos diversos criativos, mesmo aqueles que não pertencem ao vosso coletivo. A Monster Jinx, enquanto coletivo artístico deve servir, de alguma forma, como plataforma para ajudar outros artistas?
D. – Não tomamos isso como obrigatoriedade, mas sim como fundação e pedra de toque para a nossa crew. A [Monster]Jinx já nasce com esse intuito: dar visibilidade a artistas que não a têm. Logo, fez-nos todo o sentido tentar ser impulsionadores. A ideia da #cribseason não é “vejam o que a Monster Jinx está a fazer”, mas sim “vamos todos fazer alguma coisa”.

O coletivo organiza as festas Purple Hazin’, que decorrem no Maus Hábitos, no Porto, e no Musicbox, em Lisboa © Pedro Mkk

G. – No vosso comunicado fazem referência ao facto de a criatividade ter impacto na “higiene mental de todos”. Em que medida é que a problemática da ansiedade ou dos problemas psicológicos teve relevância na hora de criarem esta iniciativa?
D. – É importante, logo à partida, que ninguém se sinta sozinho. Podemos estar nas nossas casas, separados, mas não estamos sozinhos. A nossa comunidade é mais do que simplesmente a presença física, é a presença sentimental. Logo, para quem tem de estar isolado na sua casa, muitas vezes só com um telemóvel para comunicar, a tendência é sermos muitas vezes bombardeados com os impactos que este vírus está a ter no mundo e na nossa própria rua. Devemos estar informados, mas não pode ser só isso. Do nosso lado, que pelo menos às 16h00 saibas que há ali uma track nova para ouvir e às 18h30 tens alguém a tocar e um conjunto de pessoal num chat a rir-se e a divertir-se, live and direct. Devemos encarar os tempos que correm com responsabilidade e seriedade, mas acreditamos que devemos sempre sentir que há mais do que aquela avalanche de desgraça que vemos quando abrirmos um jornal ou uma televisão. Internamente, serviu também para todos nós, na Monster Jinx, focarmos e sentirmos que temos um objetivo comum e que esse objetivo não só pode ser maior do que nós, como o deve ser. Mais uma vez, comunidade.

G. – Nas últimas semanas, em virtude da situação atual, têm sido muitas as propostas artísticas que se têm lançado pela Internet. Acreditam que esta fase pode propiciar o aparecimento de mais e melhores projetos artísticos ou que, pelo contrário, também se esgota na sua lógica limitada pelas plataformas?
D. – Há duas camadas aqui. A primeira é a reclusão forçada, que por si só pode ser catalisadora de mais e melhores projetos, nem que seja pelo facto de o simples tédio ser potenciador do engenho e criatividade humana. A segunda camada é o que sairá daqui. As dúvidas são muitas e ninguém sabe bem quando poderemos voltar aos palcos, no nosso caso. O facto de muitos artistas estarem a fazer o mesmo – sejam os streamings, seja a edição de trabalhos – não acredito que vá esgotar os ouvintes, porque se agora tens muitos artistas a trabalhar “ao mesmo tempo”, também se calhar nunca tiveste tantos ouvintes predispostos a ouvir. Claro que um streaming no Instagram live não é um “concerto”, porque falta ali uma série de elementos técnicos e de pessoas ao teu lado (ou à tua frente…), mas é o possível agora. Estou a adorar a criatividade que tem surgido face às dificuldades técnicas!

G. – Se a situação se mantiver durante algum tempo e já tiverem passado por todos os artistas que compõem o coletivo, já estudaram outras hipóteses de continuar com esta iniciativa? O sistema de doação parece-vos uma opção viável no futuro?
D. – Nós temos planos para continuarmos com o #cribseason durante todo o tempo desta quarentena. Ao mesmo tempo, como sabes, toda a nossa música é gratuita. Já o era muito tempo antes dos serviços de streaming. Ao mesmo tempo, e face a isso, temos montado no bandcamp uma opção de “pay what you want”, logo pode potenciar as doações. É uma opção, sem dúvida. Acho que se este tempo de quarentena se alargar muito, vamos começar a ver os sistemas de Patreon, OnlyFans e afins a serem mais utilizados na comunidade artística portuguesa. Do nosso lado, mantemos a nossa lógica: continuar a editar música, gratuita e independente como de costume, tal como edições físicas que são sempre uma ótima forma de quem nos ouve nos ajudar a continuar. Há uns dias, lançámos umas meias #cribseason, para o pessoal deixar o calçado à porta de casa, por exemplo. Acho que a forma mais direta de quem nos ouve nos ajudar é ouvir, partilhar e recomendar a nossa música a quem acham que iria gostar.

G. – Para a Monster Jinx, que também persiste pelos eventos que produz e organiza, que impacto é que esta situação pode ter na vossa atividade como editora e coletivo?
D. – Posso-te adiantar que só em março já teve um impacto muito significativo. Tínhamos agendados três eventos coletivos este mês, dois deles residências que temos no Musicbox e Maus Hábitos, fora apresentações de projetos de membros nossos, bem como Dj sets e afins. Como a grande parte dos artistas em Portugal e no mundo (arrisco a dizer quase a totalidade), a nossa sustentabilidade vem muito do trabalho que fazemos ao vivo, logo, o impacto é muito significativo. No nosso caso, tem o potencial de afetar as edições futuras de formatos físicos. Mas, no final do dia, as forças que mantêm a Monster Jinx unida estão muito consolidadas e são superiores a esta tempestade e estamos focados no que aí vem. Há pessoas que estão a sentir os impactos de forma muito mais violenta e dramática do que nós, e é nessas que devemos pôr o nosso foco e ajudar como podemos.

A Monster Jinx foi criada no Porto em 2009 © Pedro Mkk

G. – Sentem que esta conjuntura veio evidenciar fragilidades que já estavam presentes no meio cultural em Portugal?
D. – A dependência quase total de espetáculos ao vivo é uma delas. Mas, ao mesmo tempo, ninguém conta tocar em tempo de guerra, não é? Há valores que têm de ser maiores. Ser artista em Portugal é ser sofredor, acho. Mas ao mesmo tempo, não acredito que existissem planos de contingência e continuidade na secretária dos artistas, pelo menos não a este nível. Toda a gente faz contas a uns gigs serem cancelados, mas por cada gig cancelado, aparece outro e assim sucessivamente. De um momento para outro, não tens espetáculos ao vivo. Acho que esta discussão acerca das fragilidades deve ser tida, especialmente na forma como olhamos para o modelo de negócio e como podemos explorar outros caminhos para além da apresentação ao vivo.

G. – Recentemente juntaram uma banda, os Don Pie Pie, ao vosso leque de artistas. Esta escolha sai um pouco do foco que têm tido como editora. Que futuro é que podemos esperar do vosso trabalho enquanto coletivo e editora?
D. – A entrada de Don Pie Pie foi muito orgânica. Sentimos que têm muito que ver connosco, a vários níveis, e que a música deles representa bem o que é a Monster Jinx: a olhar para o futuro, mas com as influências do passado. Nós vamos continuar a tentar cumprir a nossa missão: trazer música fresca e independente. Esperem novidades, porque vão haver muitas durante estes próximos meses.

Podes seguir os DJ sets ou live acts do coletivo, todos os dias a partir das 18h30 aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de capa de Nash Does Work

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