O filme Persistência, de David Barros, conquistou o prémio de melhor realização em super curta metragem, no mês de outubro, no festival internacional New York Film Awards.

De acordo com David Barros, a curta metragem “surgiu do desafio de criarmos uma campanha de mobilização dedicada aos 300 dias para os Jogos Paralímpicos Tóquio 2020 nos meios digitais do Comité Paralímpico de Portugal (CPP).”

Em entrevista ao Gerador, David Barros falou acerca da realização do filme, da rotina diária dos atletas paralímpicos, dos Jogos Paralímpicos de Tóquio em 2021, e sobre os projetos futuros que ainda gostaria de realizar.

Gerador (G.) – Gostava que começasses por contar como é que surgiu a ideia da criação do filme Persistência.

David Barros (D.B.) – O filme Persistência surgiu do desafio de criarmos uma campanha de mobilização dedicada aos 300 dias para os Jogos Paralímpicos Tóquio 2020 nos meios digitais do Comité Paralímpico de Portugal (CPP). Este filme faz parte de um conjunto de episódios que lançaremos até aos Jogos Paralímpicos e que pretende demonstrar as particularidades das várias modalidades apuradas para este grandioso evento desportivo.

A ideia para este filme surgiu com o desafio de contar a história a partir de uma perspetiva diferente. A partir do momento em que surgiu o repto para fazer um filme sobre a modalidade da natação, decidi que a linha temporal da curta-metragem deveria ter elementos de filmes como Groundhog Day, Run Lola Run e Edge of Tomorrow, em que os protagonistas revivem o mesmo dia uma e outra vez. Esta repetição diária faz com que as personagens evoluam, sejam desafiadas e tomem novas decisões que vão moldando o seu destino à medida que a história avança. Este modo de storytelling faz com que, no final, sintamos que atingir o objetivo é tão importante como o percurso que temos de fazer até lá chegar.

Fotografia da cortesia de David Barros

(G.) –  Porquê o título Persistência?

(D.B.) – É o título que define a mensagem do filme. Persistência funciona narrativamente como uma espécie de montanha russa. Começa num ritmo mais lento e, à medida que avança, os planos são mais curtos e mais fechados privilegiando o foco no esforço, no suor e na dedicação presentes no dia a dia do nadador paralímpico. O antagonista desta história é a visualização do indivíduo numa rotina na qual todos os dias têm o mesmo sabor. Para vencer este desafio é necessária a Persistência como ferramenta de trabalho rumo à concretização do objetivo. É daqui que nasce o nome.

(G.) – O filme é protagonizado pelo nadador David Grachat e pelo treinador Carlos Mota. Qual o motivo da escolha destes protagonistas?

(D.B.) – O David e o Carlos trabalham há muitos anos juntos e estabeleceram, entre si, uma grande relação de amizade. Para além disso, são altamente reconhecidos no universo paralímpico. Estes foram os motivos para avançarmos para um filme protagonizado por eles. A nível da realização, procurei que esta simbiose entre os dois transparecesse no ecrã. Privilegiei os grandes planos e as distâncias focais longas para diluir o mundo em redor deles e, assim, direcionar o olhar dos espectadores para a relação emocional de ambos.

(G.) – Segundo o Comité Paralímpico de Portugal o filme retrata “a perseverança que os atletas de alto rendimento empenham na sua rotina de treinos diários com o objetivo de alcançarem o sucesso desportivo”. Da tua experiência pessoal, consideras que o público valoriza o desempenho dos atletas neste tipo de modalidades?

(D.B.) – Sentimos uma crescente valorização do público perante o desempenho destes atletas, mas também considero que ainda há muito a fazer. Acredito que trabalhos como o filme Persistência têm a capacidade de alavancar o conhecimento e o interesse da sociedade em relação aos atletas paralímpicos.

(G.) – O filme foi premiado no festival internacional New York FilmAwards, nos E.U.A, no mês de outubro. Qual foi a sensação quando percebeste que o mesmo estava a ter um impacto tão significante?

(D.B.) –  Fico sempre com o sentido de dever cumprido quando percebo que os filmes que faço chegam às pessoas e são reconhecidos quer a nível nacional, quer a nível internacional. É sinal de que as pessoas têm orgulho e interesse do que se produz em Portugal a nível cinematográfico. Infelizmente, por vezes, existe a ideia de que o cinema português não tem qualidade suficiente, algo que, para mim, é uma falácia. A minha maior motivação é deixar sempre uma marca nas pessoas que veem os meus filmes. Se perguntar a alguém qual é o filme que mais o marcou e qual a cena em específico, toda a gente responde instintivamente. Gosto desse tipo de filmes: aqueles que deixam uma marca e que desafiam o espectador.

Fotografia da cortesia de David Barros

(G.) – A curta-metragem surge a propósito dos Jogos Paralímpicos de Tóquio em 2021. Podes contar um pouco como é a rotina dos atletas em pré-fase de competição internacional?

(D.B.) – Através da minha experiência, a nível do acompanhamento de treinos e de provas sob a forma de reportagem vídeo, posso afirmar que a motivação e a crença dos atletas estão em alta. A ambição é a mesma apesar dos Jogos Paralímpicos terem sido adiados para 2021. Quando estou a filmá-los, procuro sempre captar o pormenor: a gota de suor, o olhar concentrado ou o esforço muscular para transmitir para o grande público as características únicas do desporto paralímpico. O movimento paralímpico é rico em histórias únicas de dedicação, superação e perseverança e são essas narrativas que ambicionamos partilhar com o grande público.

(G.) – Nesta linha de pensamento, em média, quanto tempo dura a fase de treinos de um atleta? Existe algum tipo de treino específico?

(D.B.) – A formação e a preparação de um atleta inserido no alto rendimento é um investimento de vários e longos anos repletos de sacrifício, esforço e muita dedicação. Por norma, os atletas têm treinos diários ou bidiários complementados com trabalho de ginásio. Temos ainda atletas que conciliam a sua carreira desportiva com a universidade ou carreira profissional. 

(G.) –  Quais as expectativas para os Jogos Paralímpicos de Tóquio de 2021?

(D.B.) – As minhas expetativas para Tóquio 2021 são fazer o melhor trabalho possível com os recursos que existem à disposição. Falando do meu departamento em específico, temos a noção de que é um grande evento e o que queremos passar a nível de comunicação é uma grande imagem do Comité Paralímpico de Portugal e dos seus atletas.

(G.) – De um ponto de vista pessoal, que projetos ainda gostavas de realizar?

(D.B.) – O meu grande objetivo é realizar uma longa-metragem. Naturalmente, é algo que não é nada fácil, pois fazer cinema em Portugal é, muitas vezes, uma utopia. Contudo, tento contrariar isso, pois o sonho comanda a vida e irei trabalhar a 200 por cento para atingir os meus objetivos. Gostava também que essa longa-metragem tivesse distribuição a nível nacional e internacional obtendo visibilidade em alguns festivais de renome como Sitges, TIFF ou Sundance.

Descobre aqui a curta metragem premiada:

Texto de Isabel Marques
Fotografia da cortesia de David Barros