Corria dezembro de 2011 quando a demolição da Torre 5 do Bairro do Aleixo abriu telejornais que deram a ver, em direto, o primeiro dos últimos 'adeus'. Sete anos depois, em setembro de 2018, lia-se no Público: “Câmara do Porto quer retirar todos os moradores do Bairro do Aleixo em seis meses”. Na altura restavam três torres, que ainda não tinham sido demolidas, e cerca de 270 pessoas a habitar num lugar que viam como seu, a sua casa. Até maio de 2019, todos os moradores deviam abandonar as suas habitações, e David Gonçalves foi registar o derradeiro último adeus.

“Aleixo” é um projeto fotográfico que nasceu da urgência de registar este momento, e que agora está organizado num livro. David, que apesar de não viver no bairro sentia uma ligação com este “lugar histórico”, conta que “este processo de descoberta e investigação no bairro acaba por gerar uma nova relação de significância com o mesmo, crescente ao longo do tempo de realização do projeto”. “ Ao longo do ‘Aleixo’ sucedem-se imagens que mostram o quotidiano desconhecido aos olhos da generalidade, imagens que traduzem a reprodução fiel do próprio lugar”, continua.

Ao todo são 50 imagens que “retratam a vida do bairro, e que testemunham diversas situações, algumas de maior intimidade e fragilidade, outras com um cariz mais privado e restrito dos olhares exteriores”, conta David Gonçalves. Sendo este último adeus um momento de profunda tristeza para alguns dos moradores que resistiram até ao último dia, o fotógrafo garante que “as imagens realizadas expõem uma relação de compromisso e respeito perante os fotografados”. 

“Em momento algum se pretendeu violar a intimidade das pessoas ou desrespeitar o seu direito à privacidade. Aquilo que está representado é a pura realidade ali vivida. E isso não se limita a uma discussão entre imagens que expõem a exibição da miséria e/ou do sensacionalismo. O que está representado é aquilo que preferimos ignorar, perante uma história polémica com duas décadas. A seleção das imagens é criteriosa, cumpre com o objetivo estipulado desde o começo: expor uma realidade e uma história desprezadas e manipuladas”, contextualiza.

É num gesto crítico e político que David Gonçalves reúne agora estas fotografias e as publica, quase que a devolver algo a quem é fotografado. “O ‘Aleixo’ surge com um único propósito”, sublinha, “lançar o convite à reflexão de vários temas: desde o direito à habitação, a gentrificação, o flagelo social do consumo, entre outros”. “Parece-me muito mais desconfortante a imagem do anterior presidente da Câmara Municipal do Porto, e um dos responsáveis sobre o processo polémico do Bairro do Aleixo, num barco, no Rio Douro, a abrir garrafas de champanhe enquanto que, do outro lado, pessoas gritavam perante as implosões das torres e, respetivamente, das suas casas”. 

Durante os últimos anos de existência do bairro, o fotógrafo acompanhou os bastidores de uma história cujas camadas nem sempre passavam para fora. “As polémicas envoltas sobre as demolições das torres e os novos donos dos terrenos marcam uma disputa longa entre os diferentes executivos camarários, os investidores envolvidos, a associação de moradores do bairro e os próprios moradores”, partilha com o Gerador. 

“No meio destas polémicas, coloca-se a necessidade de conhecer a outra versão dos factos, para além daquela que era "denunciada" pela Câmara Municipal do Porto e pela imprensa/comunicação social. Num contra-relógio, perante um fim traçado, procurou-se inventariar o máximo possível do Bairro do Aleixo, de forma a perpetuar uma memória sobre uma história com um fim trágico. A dinâmica vivida no bairro exibia uma consciência muito própria sobre o pouco tempo que restava ao bairro e aos seus moradores. Nesse sentido, as fotografias que fazem parte do ‘Aleixo’ são imagens fotográficas construídas com base no quotidiano daqueles que por lá viviam, daqueles que por lá passavam. Este livro mostra, com fidelidade, o último fôlego de uma comunidade que viveu sempre isolada em si e que tentou resistir contra tudo e contra todos.” 

O livro que lançou recentemente de forma independente - porque “seria impossível publicar certas imagens e construir esta narrativa se o ‘Aleixo’ fosse lançado por uma editora”, acredita - foi inteiramente construído por si, com design de Fernando Estevens. Explica porquê: “apenas desta forma se poderia construir uma obra extremamente fiel e representativa do problema em discussão”.

O livro pode ser comprado através do site de David Gonçalves, que podes encontrar aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de David Gonçalves

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