A partir do célebre texto de Sófocles, escrito por volta de 442 a.C., a atriz e encenadora Mónica Garnel traz ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, uma versão de Antígona com ecos de contemporaneidade e um olhar mais próximo da realidade atual.

Trata-se do regresso de uma peça já célebre, tantas vezes adaptada sob diversas formas, ao grande palco do D. Maria II. A tragédia de Sófocles coloca uma mulher (Antígona) no centro da ação, que recusa obedecer ao poder de Creonte, rei de Tebas, e que por isso vê a sua vida ser sacrificada. Numa versão de espírito renovado, Mónica Garnel transporta a narrativa para a atualidade, levantando questões de justiça e direitos de poder instituído.

Desafiada a encenar a peça pelo diretor do Teatro Nacional, Tiago Rodrigues, Mónica Garnel revela que abraçou o convite pelo desejo já antigo de querer abordar o universo clássico. Em declarações à imprensa, a encenadora destacou ainda o facto de se tratar da mesma peça com que a sua avó, Mariana Rey Monteiro, se estreou naquele mesmo teatro.

Efetivamente, o texto levanta questões intemporais que Mónica Garnel procurou atualizar, numa versão com muitos atores jovens no elenco. Nesse aspeto, saliente-se o facto das atrizes Carolina Passos-Sousa e Diana Lara interpretarem as irmãs Antígona e Ismena, ambas filho de Édipo, de forma alternada.

“Queria tentar atualizar, trazer o texto para um plano terreno, mais compreensível aos dias de hoje”, explica, revelando que ao texto original fez apenas “pequenos cortes e adaptações textuais”, nas quais de destaca uma lista, entoada pelo coro, com nomes de mulheres que ao longo da história ficaram célebres pela sua oposição ao poder instituído e pelo seu fim trágico.

Em termos de aspetos cénicos, a ação passa-se num ambiente de fábrica (ao contrário da proposta original de Sófocles, em que a tragédia ocorre num contexto exterior, em frente ao palácio de Tebas), que arranca com uma versão de Vitória do tema Smells Like Teen Spirit de Nirvana e alusões ao universo cinematográfico do realizador norte-americano David Lynch. “O ambiente surge devido às minhas influências”, realça, acrescentando uma vez mais o facto de ter um elenco jovem, representante de uma “juventude que pode mudar o mundo”, um pouco à imagem de resistência associada à personagem de Antígona.

Neste “thriller político”, a encenadora revelou ainda o seu fascínio por esta tragédia, por se tratar de “peça de surdos, onde ninguém se ouve”, com um lado político e de conflito sempre presente e pela “imperfeição de caráter” patente nas próprias personagens.

A estreia de Antígona acontece já este sábado dia 14 de setembro, às 20h, integrada na iniciativa Entrada Livre, que marca o arranque de temporada no Teatro Nacional D. Maria II. Depois desta data, a peça regressa ao palco no dia 18 de setembro, mantendo-se em cena até ao próximo dia 6 de outubro.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Filipe Ferreira

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