Cada artista tem o seu traço.

Cada artista tem a sua maneira de comunicar.

Cada artista tem o seu processo criativo.

Lembro-me como se fosse ontem da primeira aula que tive no IADE. O meu professor virou-se para a sala cheia e disse esta frase: “A partir de hoje, vocês vão começar a observar. Lá fora estão as pessoas que vêem.” O desafio que ele nos lançava parecia simples. No entanto, não o era. Percebemos isso quando nos pediu para desenharmos o garfo com que comíamos ou o símbolo do McDonald's. Tudo coisas do quotidiano que aparentemente conhecíamos e sabíamos como eram. Na verdade, não sabíamos nada. Faltava o detalhe, faltava perceber o pormenor. Foi quando comecei a observar para desenhar e deixei de simplesmente ver que compreendi o que é ser artista e, claro, comecei a perceber como se desenvolve o meu processo criativo.

No outro dia, dei por mim a discutir o processo criativo com alguns amigos. Disse, na brincadeira, que o processo criativo não existe. Ri-me depois quando olharam para mim com algum choque.

O que eu queria dizer é que não existe um único processo criativo. Existem milhares de maneiras de nos inspirarmos para depois podermos desenvolver algo novo. O processo criativo às vezes ocorre em meros minutos, outras vezes demora semanas ou meses. Às vezes o processo criativo é uma linha reta, outras vezes parece carregada de nós e falhas.

O processo criativo para mim começa de forma simples. É, ainda hoje, inspirado naquilo que o meu professor no IADE me disse. Começo sempre por ouvir, observar e absorver. Estou constantemente ligada, de olhos bem abertos e alma pronta a receber. Procuro a minha inspiração em filmes, revistas e publicidades, naquilo que os outros criam e no que partilham. Este é o meu primeiro passo quando quero criar algo novo, quando quero dar vida a um novo projeto ou simplesmente começar um novo desenho. É um primeiro passo assente em pesquisa e observação, no ato de escutar e no de sentir.

Tudo muda quando começo a criar. No momento em que pego no meio que vou utilizar, preciso de estar em isolamento, longe das vozes dos outros, das opiniões alheias.

Sei que há quem se sente em bancos de cidade, com o burburinho da vida que corre no ritmo do dia, tudo numa alegre sinfonia que traduz criatividade. Sei que há quem procure os cafés e os restaurantes para dar vida às suas ideias no meio de conversas cruzadas e gargalhadas alheias a si. Seria incapaz de criar no meio da confusão, no meio da bagunça.

Gosto de criar com a casa vazia, apenas acompanhada pela minha família de quatro patas. Quando tatuo, um ato que na sua definição obriga a que haja duas pessoas, também procuro o silêncio. Mesmo com a pessoa que será tela sentada à minha frente, é na aura de paz que começo a dar vida ao desenho e que o meu traço ganha forma.

Quando me despeço, já depois de ter tatuado, procuro outra vez a calma. Afasto-me e retraio-me em mim, num isolamento que pode não ter mais de 10 minutos, mas que precisa de existir. Este momento comigo não tem sabor a solidão e permite-me limpar a alma e a minha criatividade.

Sou artista desde sempre e por isso tenho um processo criativo desde sempre, mas não tive sempre consciência da sua existência. Descobrimos a nossa maneira de criar com o tempo e a experiência. Agora, ao fim de anos a trazer arte para o palco principal da minha vida, percebo, com agrado, o quanto o meu processo criativo está diferente. Foi aprimorando-se com cada peça que crio, com cada desenho que faço. Hoje sei que chego ao objetivo de forma mais rápida e mais direta do que o que acontecia quando comecei.

Quero deixar bem presente que cada processo é um processo e que cada um tem o seu. No meio de tudo, acho que o mais interessante é que uma pessoa pode ter vários processos diferentes dependendo daquilo que vai ser o resultado final.

Quando estou a criar tatuagens, desenvolvo a ideia de uma maneira muito particular: a inspiração vem do cliente e a linha que dá forma ao desenho parece quase guiada pela mente de quem receberá a arte.

Quando estou a criar um projeto, inspiro-me no que vejo e no que não vejo, naquilo de que sinto falta no meu mundo. É a essa ausência que dou resposta e é nesse espaço livre que dou forma a algo novo.

A minha marca She Is Art nasceu assim: da ausência, e, como ela, outros projetos meus foram criados daquele vazio que se sente quando há espaço para algo que seja feito de arte, mas que ainda não ganhou a forma de tal.

Tanto falei em processo criativo que fica a faltar apenas uma salvaguarda importante. Podes ter o teu processo criativo estudado, aprimorado ao mais ínfimo pormenor e, ainda assim, vai haver dias em que não vai resultar. Vai haver dias em que a vontade de criar não vai encontrar a tua criatividade. Nestes casos, não adianta lutar contra este fenómeno. É algo normal e o melhor é aceitar.

Amanhã volta-se a tentar.

-Sobre Sofia Dinis-

Sofia Dinis é tatuadora, fotógrafa, designer, ilustradora, criadora de conteúdos e muito mais. Sofia Dinis é artista.
Nasceu e cresceu em Albufeira, mas foi em Lisboa que floresceu. Mudou-se para a capital para tirar a licenciatura em design de comunicação, no IADE, e foi nesta cidade que construiu todos os seus projetos. Teve um espaço de estética e deu formação na área, trabalhou como fotógrafa e designer e abraçou a tatuagem como hobby.
Em 2017, viu-se obrigada a repensar o seu percurso profissional quando fechou o seu espaço de estética e design e regressou a Albufeira. No meio do caos, decidiu que queria ser tatuadora a tempo inteiro e a 15 de fevereiro de 2018 regressou a Lisboa. Dava assim o primeiro passo para se tornar a tatuadora que toda a gente conhece.
O projeto SHE IS ART nasceu em pleno coração de Lisboa, numa casa de Air BnB de uma amiga. Durante duas semanas, Sofia tatuou 2 amigos e fotografou os trabalhos de forma a parecer que tinha um extenso portfólio. Desenhou o seu Instagram, desenvolveu a marca e, duas semanas depois, começou a receber vários pedidos para tatuar, não tendo parado desde então. Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 8 meses.
A marca SHE IS ART não parou de crescer ao longo destes 3 anos. Neste momento, é muito mais do que um projeto de tatuagens, é um projeto artístico. O ano passado, Sofia lançou o seu primeiro produto, o Diário 2021. Este ano, tem já planeados novos projetos para apresentar ao público. Afinal, criar faz parte da sua essência.

Texto de Sofia Dinis
Fotografia cortesia de Sofia Dinis

A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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