Quando foi decretado o período de emergência como resposta ao coronavirus, espaços culturais mais ou menos formais viram-se obrigados a fechar portas sem previsão de quando abririam. Afinal, se a chave é manter o distanciamento social, como é que espetáculos e eventos, como os conhecíamos, poderiam acontecer? A primeira resposta foi passar para o online; primeiro criações já em arquivo e concertos em direto, depois novas produções pensadas à distância e em total comunhão com o digital. 

De acordo com o Barómetro Gerador Qmetrics, “54% dos portugueses inquiridos mantiveram o seu consumo de cultura durante a pandemia”, sendo que “17% afirmam ter passado a consumir mais” e para “24% passou a ser menor”. Para alguns públicos, a cultura parece ter sido um escape aos dias confinados que corriam aparentemente iguais, enquanto para outros estar no computador mais uma hora, depois de um dia entre reuniões de zoom, era exaustivo e evitável. 

A pandemia acentuou desigualdades sociais e a precariedade enraizada no setor cultural, e serviu para algumas instituições e projetos pensarem em novas formas de fazer, de estar com o outro e de não largar a mão aos compromissos já assumidos. A partir do momento em que foi possível começar a desconfinar, espaços como o gnration, em Braga, a galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, o Teatro Aveirense, em Aveiro, mas também o projeto cultural Comédias do Minho, que agrega cinco municípios minhotos, puderam pôr em prática novas formas de fazer e de estar. O Gerador conversou com os três para auscultar o que têm andado a fazer, como sentem os seus públicos e até que ponto este é, efetivamente, um “novo normal”. 

Tempo para pensar

Para a ZDB, o período de confinamento social serviu para “ ‘arrumar’ a casa, fazer algumas intervenções no edifício, organizar arquivos e materiais”. “Foi um momento de reavaliação do papel da ZDB dentro de uma comunidade artística e respectiva responsabilidade social associada”, contam ao Gerador. Uma vez que “o setor cultural depende dos seus públicos”, foi “difícil perceber e ativar novas estratégias” para continuarem “a desenvolver o trabalho nesse momento em particular [de confinamento].”

A situação não foi muito diferente para o gnration, que optou por não “replicar as soluções de transmissão em streaming”. Segundo Luís Fernandes, diretor artístico do gnration, esta opção aconteceu “por um motivo muito simples”: “não acreditamos que conteúdos que foram pensados para ser apresentados em palco, por exemplo, possam simplesmente ser transpostos para o conceito de streaming sem que sofram algum dano na sua essência”. Neste sentido, optaram por “redobrar o apoio para novas criações” e tentar que estas tivessem em consideração , desde o primeiro momento, a “dimensão do distanciamento físico” e que “fossem pensadas para o domínio digital de raíz”. 

Uma vez que um espaço cultural não vive apenas da programação, foram surgindo conteúdos na Cultura em Casa, uma espécie de rubrica criada como resposta à pandemia, que reunia playlists e pequenas entrevistas. A esta juntou-se a rubrica Quarto Artista, ainda por lançar, que documenta o processo artístico de criação de alguns artistas como Salomé Lamas, os Transforma e outros nomes nacionais, mas também internacionais. 

O gnration reabriu portas no dia 3 de julho, com o ciclo Julho é de Jazz e a exposição de Diogo Tudela / Fotografia cedida por gnration

No Teatro Aveirense, o período de isolamento serviu “para reorganizar trabalho, capacitar e preparar a equipa para este novo contexto”, bem como “planear e preparar um  futuro próximo e a sua abertura assim que fosse possível”. “Preparámos o ano de 2020 com um novo desenho de programação do Teatro adaptado ao actual contexto, finalizámos a preparação e programação dos nossos Festivais (Festival dos Canais, Criatech-criatividade digital e tecnologia e o Festival de Luz PRISMA ), trabalhámos e continuámos a desenvolver o programa comemorativo dos 140 anos do Teatro Aveirense (março de 2021). Simultaneamente desenvolvemos no âmbito da política cultural da Câmara Municipal o Programa Cultura Em Tempo de (In)certeza – um programa  apoio à cultura, com apoio a artistas, técnicos, projectos de programação, medidas de capacitação do sector cultural e criativo local , plano de intervenção em infraestruturas, e o trabalho de desenvolvimento da nossa Candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027”, acrescenta.

Tanto para a ZDB como para o gnration e o Teatro Aveirense, o tempo foi fundamental para maturar ideias e repensar estratégias para o regresso. E é da valorização do tempo que vivem as Comédias do Minho — em tempo de pandemia, mas não só. Já no editorial do programa de 2017, Magda Henriques, diretora artística das Comédias do Minho (CdM), mencionava a importância de ““Escutar. Ver. Sentir” e de ter “tempo para pensar”, “sobre o que foi feito e sobre o que queremos fazer”, “o tempo presente, entre o passado e o futuro”. Em 2020, e com uma pandemia a desafiar a elasticidade do tempo, a reflexão manteve-se, e pô-la em prática foi, naturalmente, mais um desafio.

Hoje é dia de clássico” foi ao encontro dessas necessidades recorrentes das CdM. O programa pensado para as rádios locais para manter a sintonia com a comunidade, também pode ser ouvido na Rádio Comédias – A Imaginação sem Fios, a rádio online que já existe desde 2018. “ ‘Hoje é dia de Clássico’ surge precisamente como resposta a este contexto, no sentido de manter a ligação com o território e com as pessoas. Talvez possa ser importante dizer também que não é por acaso que os dias são de textos clássicos — ‘há mesmo uma intenção de ir buscar instrumentos de análise àqueles que são as referências intemporais da História da Humanidade e que nos podem ajudar a compreender aquilo que é incompreensível. Também é uma espécie de manifesto de desaceleração, no sentido de recuperar textos já existentes e poder olhar para eles a partir de um novo lugar”, explica Magda. 

Novos tempos pedem novas respostas

Na semana que corre, a ZDB tem patente a exposição “Parágrafo”, de Marco Franco, e já se despediu no fim-de-semana passado do Jardim de Verão, uma série de concertos nos jardins da Fundação Gulbenkian, que programou; o gnration tem a exposição Vocal tract / black hole / vent shaft (part I) , de Diogo Tudela, e continua a série de concertos do Julho é de Jazz; o Teatro Aveirense tinha em curso o Festival dos Canais; e as Comédias do Minho seguem com o Museu do Futuro Próximo, uma co-produção com o Teatro do Frio, inaugurado no fim-de-semana passado em Paredes de Coura, e que se estende aos outros quatro municípios que agregam (Monção, Melgaço, Vila Nova de Cerveira e Valença).

Utilizar máscara e desinfetar as mãos, bem como reduzir o número de espectadores ou visitantes, são os conceitos primordiais, mas pensar o regresso vai mais além, sobretudo quando se quer manter relações já existentes. Para a ZDB foi importante, por exemplo, “continuar a atividade do Serviço Educativo, uma vez que esta está vinculada a uma relação de longa duração que a comunidade escolar da Junta de Freguesia da Misericórdia”. Para o gnration, fez sentido manter o compromisso de seguir com a edição deste ano do Julho é de Jazz, mesmo que com o desafio acrescido de ter de cancelar espetáculos de artistas impossibilitados de fazer tours.  

“Fomos obrigados a reprogramar o ciclo na sua totalidade. Isto porque o programa inicial, que estava concluído no início deste ano, incluía alguns artistas que dependiam de tours que não puderam acontecer por causa da situação de pandemia. Olhámos cá para dentro, convidamos artistas apenas a residir em Portugal e encomendámos mais dois espetáculos de raiz. Ao Mário Costa e ao Andy Sheppard, por um lado, e o João Paulo da Silva e o Pedro Melo Alves, por outro — espetáculos que aconteceram pela primeira vez no gnration. Estamos muito satisfeitos com a forma como o ciclo está a correr e tem corrido até agora”, partilha Luís. No Jardim de Verão, da Gulbenkian, o foco também foram artistas nacionais; de B Fachada a Maria Reis, de João Barradas a Joana Gama e, claro, a Orquestra Gulbenkian. 

O Festival dos Canais decorre até 26 de julho / Fotografias de Joana Magalhães

O Festival dos Canais do Teatro Aveirense, tal como o mês de Jazz do gnration, já estava programado e teve de sofrer algumas alterações. Uma vez que já, ao fim de quatro edições, existe “uma forte ligação entre o evento e a comunidade”, José Pina conta que a escolha de avançar com o mesmo “foi muito importante”, tanto para o teatro como “para o território”.

Para o Museu do Futuro Próximo, as equipas das Comédias do Minho e do Teatro do Frio estiveram a “fazer alterações permanentes”, a “trabalhar à distância durante meses, com uma equipa no Porto e outra no Minho”. “Os ajustamentos foram permanentes e de pormenor. Até a palavra inauguração foi retirada, para não criar equívocos que pudessem levar à criação de ajuntamentos. Necessariamente a nossa programação alterou-se, e está ainda em processo de mudança e a ser permanentemente pensada.” 

Mas afinal em que consiste o Museu do Futuro Próximo? Magda explica: “É um museu sem paredes, mas é um museu, e à semelhança dos museus comuns cada visitante deve começar por se dirigir ao átrio do museu. Existem cinco átrios, um em cada município. Nesse átrio, o visitante levanta um mapa e um envelope onde estão sete postais, e deve levar o seu telemóvel carregado e headphones, de preferência com qualidade. Depois, sozinho ou num pequeno grupo que lhe seja familiar, deve percorrer o território, fazendo paragens nos lugares apontados no mapa. Neste museu, as obras de arte são compostas por a paisagem, o suporte sonoro e a imagem do postal.”

O Museu do Futuro Próximo poderá ser visto nos cinco municípios parceiros das Comédias do Minho / Fotografia cedida por Comédias do Minho

Numa fase marcada pelas dificuldades sentidas por criadores, Luís Fernandes sublinha que “é inevitável que todos os espaços culturais e estruturas culturais sejam forçadas a repensar a sua forma de atuar aos diferentes níveis, quer não só ao nível das suas práticas laborais mas também no seu objeto e na sua missão”. “Os teatros e os centros culturais têm que cumprir sua missão de divulgar cultura, de encomendar obras novas, de formar pessoas para a educação cultural, formar novos públicos. E isso tem que continuar de uma forma ou de outra; se não puder ser presencialmente, temos que pensar em alternativas que recorram aos meios digitais ou online para repensar a nossa própria missão. Portanto acho que é inevitável uma adaptação, seja ela qual for, a uma nova realidade”, acrescenta. 

Porque é uma fase de mudança e enorme dificuldade, Magda relembra que “é  preciso salvaguardar as condições de todos os seres humanos”. “É preciso impedir e diminuir estas desigualdades que são ofensivas e inaceitáveis. Os artistas, grande parte deles, estão entre alguns dos mais frágeis no nosso país, pela precariedade e pelas condições de trabalho que têm.”

Honrar compromissos “é também uma questão de escolha”

Para que seja possível abrir portas e avançar com novas propostas, fazendo novas leituras do tempo que vivemos, é preciso garantir o financiamento. As Comédias do Minho receberam um apoio de quatro anos da DGArtes, de que ainda estão a usufruir, mas Magda Henriques reforça a importância dos municípios que constituem as Comédias do Minho (Melgaço, Monção, Valença, Vila Nova de Cerveira e Paredes de Coura), a sua permanente presença, e também a importância da Ventominho, mecenas do projeto, que apoia com 100 mil euros anuais. 

“Penso que é importante sublinhar — e não há aqui qualquer atitude de subserviência, mas sim de valorização da atitude responsável desta empresa. Habitualmente assinamos o protocolo anual sensivelmente por volta do mês de fevereiro/ março, e este mecenas manteve o compromisso connosco”, diz a diretora artística das Comédias do Minho. Por isso, considera “fundamental valorizar este apoio, e muito particularmente esta atitude resoponsável”.

“É uma questão de escolha, e estes municípios e a Ventominho escolhem não desistir de apoiar num momento que é particularmente difícil, porque reconhecem a importância da cultura para a construção de uma sociedade mais democrática e mais justa. É sobretudo uma questão de escolha.”

Os desafios de abrir portas vão muito além de garantir o conforto e segurança dos públicos, e exigem uma reprogramação dos métodos antigos — que voltarão não se sabe, ainda, quando. Seja qual for a decisão, o tempo e a maturação de ideias parece ser a chave para que tudo dê certo. 

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Comédias do Minho

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.