Sobre o único momento em que se cruzou com Andy Warhol, Gus Van Sant disse que este nem sequer olhou para si. Em breve, estreia um espetáculo — o seu primeiro musical — no Teatro Nacional D. Maria II que nos convida a fazer uma viagem no tempo e a percorrer a história da vida de Warhol. Em paralelo, há uma retrospectiva com os seus filmes, também em Lisboa, e até uma conversa na qual estará presente. 

Foi  como assistente de produção do realizador Ken Shapiro que Gus Van Sant começou a dar os primeiros panos no cinema. Quando deu o passo seguinte, fazendo os seus filmes, deixou claro que o seu interesse era olhar para as margens, trazer para a tela as histórias que à partida poderiam não ser consideradas no mainstream. Acabou por se tornar num dos grandes ícones do cinema Queer — motivo mais do que suficiente para este ano, na sua 25ª edição, o Queer Lisboa - Festival de Cinema Queer lhe dedicar uma retrospectiva. 

Dos mais conhecidos, como Milk (2008), filme biográfico inspirado na vida de Harvey Milk, o primeiro político norte-americano a assumir publicamente a sua homossexualidade — e um filme bastante referido nesta reportagem do Gerador —, aos menos convencionais, como Ouverture of Something that Never Ended (2020), uma série que apresentou com o então diretor criativo da Gucci, Alessandro Michele, na qual mostravam a nova coleção da casa italiana. 

Nesta retrospectiva de Gus Van Sant, que se amplia com uma Carta Branca dedicada a Andy Warhol (da qual tiveram de ser retirados alguns filmes por questões relacionadas com os direitos de autor de Warhol), há espaço também para o filme The Chelsea Girls (1966), uma criação experimental de Andy e Paul Morissey que reúne filmagens de Warhol, feitas ao seu grupo de amigos (entre os quais muitas superstars da altura) e as junta como se vivessem em diferentes quartos do Chelsea Hotel. Para quem já leu Just Kids (2010), de Patti Smith, não fica difícil imaginar quanta vida caberia em cada um destes quartos. Há filmes para ver de 20 a 25 de setembro, e uma conversa para ouvir na Cinemateca de Lisboa no dia 20 de setembro, antes da exibição de My Own Private Idaho (1991),  pelas 19h00. 

Com estreia marcada para o dia 23 de setembro, ANDY, o primeiro musical de Gus Van Sant, mostra um outro lado de Warhol, aos olhos do realizador e encenador. A peça parte de um convite feito pela BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas e conta com uma série de referências do protagonista da história, bem como personagens que fizeram parte da sua vida como a atriz Edie Sedgwick, o escritor Truman Capote e o crítico de arte Clement Greenberg. O espetáculo, que já se encontra quase esgotado em todas as datas de apresentação (até ao dia 3 de outubro), conta com um elenco composto por atores e atrizes jovens, como Carolina Amaral, Diogo Fernandes, Francisco Monteiro, Helena Caldeira, João Gouveia, Lucas Dutra, Martim Martins, Miguel Amorim e Valdemar Brito. 

Nesta ponte entre os Estados Unidos da América e Portugal, mais concretamente entre a Nova Iorque dos anos 60 e Lisboa de 2021, existe uma equipa composta por nomes já estabelecidos nas mais diversas áreas. Nessa equipa encontra-se, naturalmente, John Romão, diretor artístico da BoCA (em colaboração artística e dramaturgia), Paulo Furtado / The Legendary Tigerman (na direção musical), João Henriques (na direção vocal), José Capela (na cenografia), Joyce Doret (no guarda-roupa), Rui Monteiro (no desenho de luz), João Neves (no desenho de som), Gi Carvalho (na direção técnica), e Francisca Aires (na produção executiva). 

Esta peça de teatro é uma co-produção entre o Teatro Nacional D. Maria II, deSingel, o Festival Romaeuropa, a Onassis Foundation, Kampnagel, La Comédie de Reims e o Teatro Calderón. Toda a performance será em inglês, com legendas em português. 

Podes saber mais sobre a retrospectiva de Gus Van Sant no Queer Lisboa aqui, e sobre ANDY aqui

Texto de Carolina Franco
Still de
My Own Private Idaho (1991), de Gus Van Sant

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