Praticamente 15 meses depois de termos fechado as nossas vidas aos outros, começa, finalmente, a existir uma esperança de entrarmos numa viagem com um destino feliz. Uma viagem ainda longa, sinuosa e exigente, mas com um fim conhecido e optimista.

Correndo tudo normalmente, teremos uma boa parte da nossa vivência em sociedade retomada durante os meses de verão e, a partir de setembro, uma aproximação realista àquela aparente utopia que é o ano de 2019.

Vamos entrar numa nova fase, portanto. Um período em que não estaremos tão preocupados a salvar casa do incêndio, antes iremos reflectir sobre o porquê da casa ter ardido e, mais estimulante, sobre a nova casa que queremos construir.

Estes grandes momentos de disrupção societária, independentemente das nossas vontades mais conservadoras ou progressistas, são sempre uma ocasião de mudança. Ela é invariavelmente necessária, até por nossa proteção psicológica. Assim aconteceu a seguir a uma grande guerra, a uma crise económica ou à epidemia do século anterior. Mas a amplitude da mudança vai ser decidida por nós, agora.

Nesse sentido, há uma oportunidade. A obrigação de parar exige que saibamos como voltar a andar. Temos de ter noção se vamos dar os passos certos ou os passos errados.

Esta oportunidade vai ser muito óbvia em alguns sectores que foram brutalmente abanados. A ideia do trabalho, por exemplo, terá obrigatoriamente de mudar. Mas iremos no sentido de proteger os trabalhadores ou de favorecer os negócios? Dilemas como este vão preencher esta nova época que agora surge. Na saúde, na educação, na habitação, no acesso à tecnologia, na produção de conhecimento.

E, naturalmente, na cultura.

Para já, há bons e maus sinais. Há o primeiro Estatuto do Profissional da Cultura que, independentemente da insuficiência da versão inicial, é uma mudança significativa em relação ao passado. Mas também há uma lotaria do património, que oficializa o papel secundário da cultura, encontrando formas de financiamento mais próximas do desenrascanço do que estruturais.

Existe, no entanto, uma camada maior que serve de ponto de partida para a discussão da amplitude da mudança no ecossistema cultural. Durante este enorme e obscuro ciclo de 15 meses ficou claro que a cultura nos faz falta. A ausência da cultura deixou evidente a necessidade que dela temos, de uma forma nunca anteriormente exposta, e hoje há uma unanimidade transversal na sociedade sobre a sua inquestionável importância.

Foi com este raciocínio como base que decidimos o tema do festival Oeiras Ignição Gerador deste ano: Há uma nova oportunidade para a cultura agora?

Embora ainda constrangida pelo necessário formato digital, a edição de 2021 traz um conjunto de debates e reflexões importantes. O Gonçalo M. Tavares fala-nos da literatura depois da pandemia, a Pilar del Rio sobre o papel das mulheres na cultura, o John Romão sobre o futuro das artes, a Shahd Wadi sobre a relevância da cultura nos territórios em conflito ou o David Throsby sobre a relação entre a economia e a cultura, só para citar alguns exemplos.

Vamos, também, apresentar a nova edição do Barómetro Gerador Qmetrics, o único estudo anual em Portugal que ausculta a opinião dos portugueses em relação à cultura. Este ano fomos ainda mais longe nas análises que temos feito, graças, sobretudo, a já ser a terceira edição.

Vão ser três dias repletos de actividades e provocações. Uma boa forma de iniciar esta nova jornada.

Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 com vontade de fazer cultura para todos.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo