“De acordo com o gabinete estatístico europeu, o desemprego aumentou em Portugal de 6,5 % em 2019 para 6,9 % em 2020, mantendo-se abaixo da média da União Europeia (UE 7,1 %, face aos 6,7 % de 2019).” A agência Lusa noticiou, há apenas três dias, novos dados sobre o desemprego em Portugal. Sabe-se, segundo um estudo da Eurostat, que só no Alentejo e nos Açores é que a percentagem de desemprego não aumentou. Com a chegada da pandemia, a crise económica consequente, os lay-offs e os trabalhos precários, estes números aumentaram.

“Números e percentagens”: é assim que Fernanda Maio, autora do livro A Dor do Desemprego vê a representação do desemprego nos órgãos de comunicação. “E ainda uma série de superficiais ideias feitas acerca do desemprego e dos desempregados”, lança a agora tradutora e professora de pilates. Fernanda publicou, em 2018, o livro A Dor do Desemprego, partindo da sua própria experiência. Decidiu fazê-lo, numa autoedição, porque “a experiência de desemprego, e concretamente a do desemprego de longa duração, é muito particular e dificilmente encontra eco na sociedade”. Hoje, o seu livro serve de guia a quem não encontra esse eco, como Fernanda não encontrou.

Fernanda sublinha, desde logo, que “cada experiência é muito específica”. “Posso perder um emprego com uma boa indemnização (ou um razoável subsídio de desemprego) e ter boas perspetivas de encontrar um emprego ainda melhor (pela idade, pela área profissional, etc.). Nesse caso, posso aproveitar para gozar umas belas férias e até ter já um emprego à minha espera. Também posso ser relativamente jovem e residir ainda na casa dos pais. Nesse caso, até mesmo um part-time a ganhar trezentos euros pode ser bastante apelativo, dependendo das circunstâncias particulares (expectativas minhas, dos outros, etc.)”, contextualiza. Foi também a sua experiência, que caracteriza como “a tempestade perfeita”, que lhe permitiu unir as suas forças interiores e escrever um livro onde outras pessoas se pudessem encontrar.

“Nesse sentido, e porque possuo uma série de ferramentas pessoais que me permitiram equilibrar-me quando necessário e passar pelos momentos mais duros mantendo-me focada e mentalmente sã, achei que deveria passar algumas das minhas reflexões e aprendizagens acerca do caos que se instala na nossa vida quando o desemprego é efetivamente danoso àqueles que não encontram compreensão e reconhecimento do seu sofrimento”, partilha Fernanda. Esse sofrimento e falta de compreensão externa que é comum entre muitas pessoas em situação de desemprego foi o mote para o Gerador ouvir histórias de pessoas que estão ou já estiveram desempregadas, o efeito que sentiram na sua autoestima e na forma como se relacionavam com os outros, e o que gostavam que fosse diferente. Elisa, Maria L., Carla e Pedro são nomes fictícios para histórias reais. As suas vidas não são, nem nunca foram apenas um número, e decidiram falar para mostrar que há muitas histórias dentro de uma percentagem – e há muita vontade de ver a mudança acontecer. Se não for por si, que seja por outros.

“Então, o que fazes da vida?”

O caminho que percorria até às sessões no Centro de Emprego, naquela que havia sido a sua área de residência durante a infância e a adolescência, era o momento mais penoso dos dias de Elisa quando estava desempregada. Quando lá chegava, não era muito melhor: “É aí que te sentes um número”, conta. “Está toda a gente numa sala a olhar para uma apresentação; toda a gente se encontra, de certa forma, na mesma situação, mas olhamos uns para os outros com um bocado de vergonha – ou então isso era a minha projeção... mas era como se soubéssemos que não estávamos num sítio fixe nas nossas vidas. Depois, o que me incomodava também era o tom condescendente das pessoas que estavam a fazer aquelas apresentações. Eu sentia uma certa vergonha de estar ali, apesar de isso significar que, ao contrário de outras pessoas, eu estava desempregada a receber um subsídio de desemprego”, recorda Elisa.

Elisa regressou a casa dos pais depois de ter sido despedida da empresa em que trabalhava, no país onde vivia há oito anos. O ambiente de trabalho não era o melhor, ao fim de seis meses nessa empresa teve um esgotamento, mas sentiu que despedir-se por vontade própria seria quase como “atestar” a si própria “que tinha falhado”, depois de trabalhar com uma chefe que a fazia questionar o seu próprio valor. Tinha 33 anos quando regressou a casa dos pais, com o esgotamento, e a certa altura dizem-lhe que o contrato não seria renovado. Num mês e meio, arrumou oito anos de vida, e trouxe-os para Portugal. Dada a forma como o despedimento aconteceu, teve direito a subsídio de desemprego, mas lembra-se de andar a “oscilar emocionalmente” entre a confirmação de que sair de um ambiente tóxico tinha sido o melhor que lhe podia ter acontecido, e a sensação de ter regredido. “Era suposto estarmos num lugar aos 33 anos, e temos estas conceções que a sociedade nos impõe de onde devíamos estar em termos de carreira, de família. Eu estava sem emprego, a viver em casa dos pais.”

Antes de se encontrar desempregada, Elisa já tinha sessões de terapia e de coaching. Havia um suporte emocional que não minimizou a situação, mas que lhe foi dando ferramentas para gerir o que lhe ia acontecendo. Em A Dor do Desemprego, Fernanda Maio refere que “o desemprego coloca os indivíduos numa condição inequívoca de exclusão social”, já que, na grande parte dos casos, deixam de poder ter acesso a bens e serviços que outras pessoas empregadas facilmente têm. O impacto que essa situação tem na autoestima de cada pessoa desempregada, segundo a autora, “vai depender muito de cada pessoa, da sua autoestima prévia, do seu amor-próprio e da sua força anímica”.

“Se a pessoa assenta a sua noção de valor e identidade na profissão (o que é muito comum na classe média e média alta, com profissões mais assentes na formação avançada, na vocação, em patamares e percursos de carreira e em alguma visibilidade e reconhecimento sociais), esse impacto será maior. Esse é o lado interior, ou subjetivo, que requer uma descida ao mais profundo do Ser, indagando ‘Quem sou Eu?’ Não realizar essa viagem poderá implicar permanecer ao nível das impressões concretas do mundo, e essas, sim, poderão devolver-nos rejeição, injustiça, abandono, indiferença”, diz Fernanda ao Gerador.

E “ainda que haja dinheiro para um simples café”, a situação de desemprego irá, por norma, influenciar a nossa relação com os outros. “Há o desacerto das conversas sobre as vidas que fazem planos de férias, que falam dos sítios onde foram jantar, ou das atividades de fim de semana e das vidas que paralisam por falta de meios para agora mesmo, e para o que virá depois. A angústia permanente de não ter emprego e não ter meios de subsistência (porque são duas coisas distintas) coloca os indivíduos num estado absolutamente singular face aos demais. É como se a vida estancasse e, ao mesmo tempo, se vivesse em estado permanente de emergência por não podermos fazer face ao amanhã”.

Pedro, que tem 29 anos, despediu-se do jornal em que trabalhava na altura devido ao excesso de trabalho e desgaste do multitasking a que era sujeito, e por, a determinado momento, questionar a validade do seu trabalho. E se no início se sentia bem, com tempo para cuidar da sua saúde mental, e encontrava apoio da família na decisão, com o passar dos meses, a pressão de arranjar um emprego começou a aumentar. Acha que “a situação de se estar desempregado continua a ser olhada com desconfiança e desconforto, quase como uma não-validação social”. “ ‘Então, o que fazes da vida?’, é provavelmente a segunda/terceira pergunta feita nos mais variados círculos sociais, o que acaba por gerar esse estigma em quem não tem emprego, tornando essas pessoas cada vez mais solitárias e com receio de fazer parte de atividades sociais”, diz o jornalista que fazia sempre questão de dizer que estava “desempregado por opção”.

A sua história e o seu contexto são bastante diferentes dos de Carla, de 49 anos, que foi despedida em janeiro tendo a pandemia como justificação, mas estão de acordo quanto ao estigma que existe em relação ao desemprego. Este é, na verdade, um ponto de concordância entre todas as vozes desta reportagem. “São uns preguiçosos, não querem trabalhar, querem viver à custa do Estado (470 €, uma loucura), querem subsídios, não se sujeitam, querem um emprego das nove da manhã às cinco da tarde”, enumera Carla. Ainda que a pandemia tenha “aligeirado os comentários”, uma vez que o desemprego é sempre uma condição aparentemente mais inevitável nos momentos de crise económica, em que os negócios se veem obrigados a fechar, isso não significa que deixe de existir quase uma expectativa de que arranje rapidamente emprego – qualquer que seja.

Quando foi despedida, Carla sentiu-se “descartável”. A maior parte das pessoas no seu círculo não sabe que está desempregada, “só a família e dois ou três amigos mais chegados”. Para as pessoas à sua volta, “continua a mesma”. Diz que trabalhar em atendimento ao público a treinou. “Continuo simpática, prestável e sorridente, a aflição guardo-a para mim.” “Os vizinhos pensam que estou em lay-off e, como trabalhava por turnos, as pessoas não estranham. Perguntam, mas nunca digo que estou desempregada. Com a família é mais complicado, para a minha mãe, de 73 anos, é uma preocupação: como vou viver, sou velha, ninguém me vai dar trabalho, isto está mau…”

Carla partilha que não quer acreditar, mas que é a realidade. “Isto está mau.” “Isto está mau, e o mercado, pelo menos na minha área, não gosta de senhoras. Basta espreitar os hotéis e ver quem está na receção. Mas sou uma excelente profissional, faço parte dos melhores e acredito que vou conseguir arranjar emprego na área e até com outra função que aproveite os meus conhecimentos e experiência”, diz com confiança. Segundo os seus antigos chefes, era “a melhor funcionária”, tendo recebido prémios, bónus e outras distinções por diversas vezes. Está segura de que “reclamar os [meus] direitos, pedir aumentos, protestar pelas faltas de respeito, não me dar bem com o [meu] chefe, e ter 49 anos” não ajudou. Sabe também que foi o melhor para a sua saúde mental, após muitos anos a trabalhar por turnos. Mas estar segura do seu valor e convicta de que fez tudo certo não torna a experiência de desemprego mais agradável, por completo. “Podia lutar e ia acontecer como a senhora da cortiça [Cristina Tavares]. Fica, vai, fica, vai.... No fundo, foi melhor para a minha saúde mental.”

“Os desempregados são subsidiodependentes” ?

No dia em que decidiu escrever ao Gerador, Maria L. tinha recebido o seu primeiro subsídio. Escreveu-nos porque o anonimato era garantido, à partida, e fez questão de o dizer no seu testemunho. Este desemprego veio como uma “nódoa negra” na sua vida, na sua “carreira profissional”. Como Elisa diria dias depois, “o desemprego é sempre visto como uma regressão na vida, como se estivéssemos a dar passos para trás”. Como se não se correspondesse a uma certa expectativa interior, mas também à expectativa que as outras pessoas possam ter.

“Existe a pressão que impomos a nós mesmos, existe um comentário da mãe, existe um silêncio do pai, existe uma tentativa de ajuda dos amigos, existem perguntas dos familiares, existe toda uma vergonha associada a isso. Mas existe também todo um ‘acredito em ti’ do outro lado que não consigo aceitar. Parece que toda a gente acredita em mim, menos eu própria. Deixei de confiar em mim, de me valorizar. Amo-me menos um bocadinho”, partilha Maria L.

Para receber o subsídio, conta Maria L., é exigido que se “envie, pelo menos, três candidaturas a emprego”. “Enviei mais do que três, mesmo sendo o número três considerado o da perfeição, o do equilíbrio. O desespero por estar bem, é o desespero por um trabalho”, sublinha. “Esse desespero levou-me a fazer uma candidatura para um trabalho que sei que não é o que me faz feliz, mas é o que me dá estabilidade financeira, estabilidade emocional até certo ponto. Se conseguir este trabalho, porque não consegui todos os demais que queria na minha área, também terei vergonha de dizer o que faço, de encontrar alguém nesse local de trabalho que me conheça. Também irei sofrer.”

Há uma série de critérios a que se tem de corresponder para que se possa ser elegível ao subsídio de desemprego. É necessário que se resida em território nacional, que se esteja numa situação de desemprego involuntária, que se tenha “capacidade e disponibilidade para o trabalho”, estar inscrito para procura de emprego no Centro de Emprego da área de residência, e ter o “prazo de garantia exigido”: “360 dias de trabalho por conta de outrem com registo de remunerações nos 24 meses anteriores à data do desemprego”.

Sendo um subsídio prestado pelo Estado, que pode suscitar alguns comentários como os que Carla havia mencionado, Elisa acredita que importa lembrar que “um dos grandes problemas é que o subsídio de desemprego não é visto como um direito”. “O que eu sinto, e que tentei dizer-me a mim própria, por várias vezes, ao longo do processo, é que as pessoas olham para o subsídio de desemprego como um favor que o Estado lhes faz, e ninguém o posiciona como algo a que tem direito porque trabalhou e descontou, pagou impostos ao Estado e à Segurança Social”, comenta Elisa. E no caso de Carla, foram 34 anos de descontos.

Quando lhes perguntamos o que achavam que devia ser mudado no sistema de apoio ao desemprego, tanto Carla como Elisa mencionam algumas medidas de incentivo que gostavam de ver aplicadas. Carla acredita que devia existir uma diferença na remuneração tendo em conta os anos em que prestou serviços, mesmo que isso significasse ter o subsídio durante menos tempo; já Elisa acredita que prolongar o subsídio de desemprego durante os primeiros meses de trabalho seria uma forma de ter uma transição equilibrada, até porque “pode correr mal”. Carla acredita também que “devia existir um serviço de psicologia no IEFP, no Centros de Saúde ou nas Juntas, para quem fica desempregado”, um acompanhamento mais próximo da situação de cada pessoa, e “um departamento para procurar emprego”. E se, por um lado, acredita que “o Governo devia incentivar a contratação de pessoas mais velhas, com experiência”, por outro, sabe que “até para os jovens está mal”.

Há outro tipo de mudanças estruturais que Carla acredita que ajudariam a incentivar as pessoas em situação de desempregado a ficarem motivadas com a procura de emprego, e não se sentirem num caminho sem saída. O valor do subsídio é uma delas, já que não o considera digno para viver. Para quem possui subsídios baixos, acredita que já seria um passo em frente pensar em “transportes gratuitos para ir a entrevistas de emprego (apresentando prova)”, descontos nas contas da “luz e na água” ou mesmo estas serem asseguradas pelas câmaras municipais, assim como a internet e o telefone terem um valor mais baixo.

Fernanda Maio sente que não tem existido boa vontade para “conhecer objetivamente a complexidade e diversidade das situações de desemprego”. “Se existisse boa vontade já teriam sido feitos esses estudos e já teriam sido implementadas algumas medidas – porque não creio que seja possível controlar em absoluto processos como os de desaparecimento de profissões, surgimento de novas profissões, questões de oferta e procura”, lembra a tradutora. Mas garante que “há questões muito objetivas onde se poderia intervir”. Explica, dando exemplos:

“Há uma desajustada ideia paternalista de que o problema dos desempregados é a falta de formação. Poderá ser a solução para uma parte, mas não para todos. E não vamos lá com formações desajustadas da realidade e da oferta de emprego. Outro exemplo: há uma regra que penaliza e dificulta a vida de todos os profissionais liberais, sobretudo os verdadeiros recibos verdes – os que não trabalham sempre para a mesma entidade nem recebem sempre o mesmo valor mensalmente. É a regra de que a atividade tem de estar encerrada (nas finanças) para se solicitar subsídio de desemprego. Ou seja, por essa lógica o profissional em causa não pode tentar arranjar trabalho. Mas imaginemos que cessa de facto atividade para poder receber subsídio de desemprego e arranja algum trabalho por pequeno que seja (e pontual). Naturalmente parece-nos normal e louvável que o aceite, o que implicará abrir atividade quando tiver de emitir o recibo verde. Contudo, ao fazê-lo interfere de imediato com o processo de pagamento do subsídio, o qual será suspenso posteriormente com efeitos retroativos (devolução das quantias já pagas), e retomado, geralmente com atraso, face à data em que a atividade é novamente encerrada. As devoluções e os atrasos nos pagamentos podem ser de tal forma caóticos que tornam preferível a não interrupção do subsídio. Esta situação é extremamente injusta porque os profissionais que possam trabalhar por pequenos períodos de tempo auferindo valores fixos, podem manter essa situação juntamente com o subsídio de desemprego, o qual sofre uma redução percentual.”

A última situação descrita por Fernanda Maio é a de muitos profissionais da cultura que perderam os seus empregos ao longo do último ano, mas também de outros que já antes tinham passado por esta situação. As condições laborais precárias impedem, por vezes, alguns trabalhadores de ser elegíveis para o subsídio de desemprego, que muitas das vezes não têm contratos de trabalho e uma forma de provar que prestaram serviços a uma empresa. E se os motivos que levam à não-elegibilidade do subsídio são variados, os motivos que conduzem ao desemprego também o são. Numa entrevista dada em março para a reportagem “Rua Gisberta Salce Júnior: dar à história o que não se deu à vida”, Taís Castilho, mulher trans brasileira imigrante no Porto há três anos, formada em Serviço Social contava, na primeira pessoa, o preconceito que sente cada vez que vai a uma entrevista de emprego na sua área. 

“São várias questões: eu sou imigrante, eu sou negra e sou transexual. Muitas das vezes, esses estigmas fazem com que a tua profissão, o teu currículo, a tua experiência profissional vá abaixo. Você não é vista como uma profissional, você é vista como uma transexual. E você é rejeitada por ser transexual, você é rejeitada por ser negra, você é rejeitada por ser imigrante. Portanto, a pior coisa que eu sinto é sempre poder dizer que eu sou boa; que eu tenho bom currículo, que eu tenho capacidade, que a questão da transexualidade só é uma questão minha”, partilhava na altura. Como Taís, outras mulheres brasileiras contam há já vários meses a discriminação que têm sentido na hora de arranjar um trabalho por serem imigrantes brasileiras no projeto Brasileiras Não Se Calam.

Procurar histórias além de números é um trabalho exaustivo e complexo, como diz Fernanda Maio. De acordo com os dados disponibilizados no portal da Segurança Social, há, neste momento, 241 263 mil pessoas a beneficiar de prestações de desemprego. Todas as suas histórias serão diferentes, os motivos que as levaram e que as mantêm no desemprego podem ser mais ou menos diferentes, também. Mapear a situação de cada uma destas pessoas é complicado. Mais complicado ainda é chegar a todas as pessoas em situação de desemprego que não integram este quadro por não terem elegibilidade para subsídio.

Dados disponíveis no portal da Segurança Social

“Existe aqui uma tentativa de fuga minha, fugir a esta vergonha, colocar base nesta nódoa. Existe o desespero que me dá vontade de me pôr de joelhos, frente aos recursos humanos das empresas, dizer-lhes quão boa sou, e quão gosto do que faço, dizer-lhes, com lágrimas nos olhos, que não tenho vergonha de trabalhar, mas sim de estar desempregada.” Foi com estas palavras que Maria L. terminou o testemunho que enviou para o Gerador. Estar desempregada não é uma situação em que queira permanecer. Mas enquanto tiver de ser, sabe que não quer permanecer nesta sensação permanente de ter de estar à prova enquanto, ao mesmo tempo, lhe surgem dúvidas sobre si mesma.

Para Carlos, procurar histórias que se parecessem com a sua, “de pessoas que se afastaram do mercado de trabalho por se sentirem exaustos, sem motivação e sem prazer para continuar aquela tarefa” foi uma forma de ganhar autoestima. Talvez se mais histórias se conhecessem, estar numa sala do Centro de Emprego não trouxesse uma sensação tão estranha como a que Elisa descreve. Afinal, não é preciso ter vergonha. Estar no desemprego não significa andar anos para trás, nem tão pouco estagnar. E o trabalho a ser feito para que esse tabu se quebre é de todos.

Texto de Carolina Franco
Fotografia de Keagan Henman via Unsplash

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