Há uns anos, estava eu no Brasil, decorria a candidatura do Bolsonaro à presidência. Recordo-me que, na altura, aconteceu uma fricção social que nunca tinha visto antes.
Pessoas que discutiam fervorosamente umas contra e outras a favor do então candidato Bolsonaro.

Não entendia - na altura - como era possível haver tanta exaltação e comoção social por causa de um candidato. Amigos que se deixaram de falar por opiniões divergentes.

A única comparação que tinha mais próxima daquela era o futebol. Nunca na política tinha visto pessoas tão exaltadas.

Talvez, porque nunca tinha estado num outro país em altura de campanha e não conhecia essa forma de estar. Ou, então, era mesmo uma situação nova que ninguém tinha passado antes.

Fiz várias perguntas a várias pessoas de ambos os lados.
Para mim, era fácil uma vez que, não sendo brasileiro, conseguia colocar-me de fora e a fazer a minha avaliação do assunto com isenção.

Acontece que, num ano tão macabro como o de 2020, em que tudo é possível e que, depois da entrada de dois novos partidos no plenário português, ambos partidos extremados, essa mesma comoção social vem a registar-se também em Portugal.

O aspeto positivo da entrada desses novos partidos é o facto das pessoas agora estarem mais abertas a entender política ou, pelo menos, a falar dela abertamente.

O aspeto negativo, parece-me que é: se alguém for contra algum desses partidos mais extremados automaticamente é rotulado de direita ou esquerda. Coisa em que antes não se ouvia falar.

Os jovens, ou uma parte deles, que antes não teciam comentários políticos hoje fazem-no abertamente.

É neste momento que, até eu, que não tinha de facto nenhuma posição política dou conta de que, mesmo não tendo uma facção, discordo da forma agressiva como os tais partidos extremados pretendem semear discórdia.

Mal comparado, faz-me lembrar uma história bíblica que todos conhecemos da Torre de Babel. A Torre de Babel seria um edifício alto construído por todos de modo a chegar ao céu, e dessa forma as pessoas teriam a possibilidade de estar mais próximo de Deus.

Mas, por causa da discórdia entre os povos que o construíam, Deus mandou sobre os mesmos um castigo.

Castigo esse que foi a divisão de línguas, e, a partir desse momento, todos nós ficamos com o peso desse castigo e hoje falamos línguas diferentes entre nós.

Não diria que estes partidos são um Deus, mas, posso dizer que são deuses menores.

O tempo de antena e o discurso que conseguem fazer passar para as pessoas abriu uma caixa de Pandora há muito adormecida.

Em tempos que já lá vão, uns abstinham-se de comentar política, outros riam-se à distância.

Hoje,  é quase impossível não ver um cidadão português firmado na sua ideia política quase numa obrigação e demonstração de que, se não estás comigo estás contra mim.

Parece que, de repente, Bacchus desceu das nuvens e embriagou-nos a todos.

Por um lado, parece-me ser uma postura atual em todos os cantos da terra, principalmente nestes países com maior afirmação, seja América do Norte ou América do Sul.

E em nós, portugueses, que apesar de pequenos não gostamos de ficar atrás de ninguém, lá no fundo do nosso ser, nasce a veia quinhentista marítima trazendo para nós a mesma vontade de afirmação.

As uvas estão a ser apanhadas, as brancas e pretas colocadas nos seus lugares para em breve dar lugar ao líquido que tanto apreciamos.

Contrariamente à política, por norma, bebe-se em boa companhia, apreciando a vida com queijos e requeijão, a época é de bastante observação, o futuro é agitado, e a Torre de Babel deu lugar ao muro das lamentações, e não há consenso no futuro do país.

Posições firmadas - extremadas até - são agora o dia a dia, de boca em boca.

Uma coisa é necessário assumir, um dos protagonistas - um deus menor com mais altivez - tem-se destacado dos restantes deuses no preâmbulo. Mérito seja dado à sua sagaz forma vernácula de fazer política e de puxar das pessoas o que lhes vai no âmago.

Discordando ou não, em 45 anos de liberdade, nunca tal se tinha visto. Será sempre positivo se todos conseguirmos tirar lições das coisas. Principalmente os restantes deuses que ao longo dos anos tomaram para si como garantidas verdades absolutas e votos garantidos.

A discussão está aberta, o santo vai no adro. Resta-nos fazer aquilo que os americanos apelidaram de WOKE. Acordar para este novo mundo fraturante onde não vamos mais poder ir à praia no dia das eleições nem deixar que outros decidam por nós.

Enquanto esta for a forma de se fazer democracia - enquanto não acontecer nenhum retrocesso no processo que conceba uma nova ditadura - é obrigatório que, depois do vinho bebido nos levantemos da mesa para encher a garrafa, e não ficar à espera que ela apareça cheia na mesa, porque pode não aparecer!

Outros poderão dizer - estás errado, os deuses devem estar loucos, e vão atirar do céu uma lata de Coca-Cola! Eu não quero esperar que caia do céu!

Assim que terminar esta, eu mesmo tratarei de trazer uma garrafa nova -tinto de preferência - o ranco fresco bebe-se no verão, e o verão, pelas minhas contas, terminou.

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
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