Duzentos e oitenta e cinco euros. Este era o valor que Raimundo Cosme e Cecília Henriques, diretores artísticos, tinham - juntamente com um conjunto de pessoas que completava a equipa nuclear da Plataforma285 - para dar vida ao seu primeiro espetáculo, junto da estrutura Cão Solteiro. Estavam por entre os pingos do ano de 2011 quando este pensamento ganhou vida. Era um espetáculo sobre amor. Amor este que, dez anos depois, volta a subir a palco em outros dias, com mais do que um ator e uma atriz, cenografia de outras vidas e um conjunto de referências que dá ao público parte de cada um deles. Esta é Esa Cosa Llamada Amor, dez anos mais tarde.

Pensar um espetáculo sobre amor não é trazer à tona a questão 'como encontrar o amor para sempre?' Quem o diz é Raimundo, Cecília, Bia e Raquel, a equipa para "toda a vida" do coletivo multidisciplinar de criação. Os artistas repensaram e recriaram o espetáculo que, por sugestão da Cecília, desde a sua primeira vez em palco, tinha ideia de o fazer em 2021. "E é exatamente isso que estamos a fazer. Dez anos depois, recriamos este espetáculo com mais pessoas e ele apresenta em si uma linha dupla. Isto é, se por um lado recria e repensa a nossa lógica sobre o amor, por outro lado revê os dez anos da estrutura", começa por explicar Raimundo.

Com diversos cruzamentos em cena repetem-se os espetáculos. Parte de cada um deles sobe a palco, "desde a forma como estão vestidas, onde parecem que saem de diferentes universos. Podemos intuir que se criam diferentes espetáculos ou não, de outros espetáculos que ainda estão por vir ou de outros lugares, mas que estão em urgência de articular um conjunto de peças sobre amor", continua.

Com diversos cruzamentos em cena repetem-se os espetáculos.

Por entre textos, adereços, legendas de outros filmes, cenas específicas que fazem lembrar também outras referências, tudo isto está conectado com o amor. É recorrendo à importância dos objetos mainstream do cinema, da publicidade, das telenovelas, dos videoclipes, dos reality shows na criação de universo simbólico comum, ou na educação para uma forma estrita e rígida de ver e viver o amor romântico, nos modelos disponíveis para a vida amorosa (sem possibilidades e com poucos modelos de representatividade) que os corpos personificam as ideias de sensualidade e desejo em visões bastante limitadas e muitas vezes limitadas. É partindo desta realidade e ideia que os artistas caminham para um espetáculo que questiona ainda o amor individual e o que ele 'exige' de nós.

Não há tempo. O amor e a afetividade são, de facto, um dos mercados com maior desenvolvimento nos últimos anos. Na folha de sala, a equipa lá nos recorda que “para quem tem medo de amar sem ser correspondido, há algumas mesinhas. Porque isto do amor não tem que ser um pau de dois bicos”.

Já na sala de ensaios do Centro Cultural de Belém, os cenários não nos faltam, assim como o momento de partilha e de reflexão daquele espetáculo que acontecerá dia 3, 4 e 5 de dezembro. Numa pequena sala eles cantam, trocam de lugares, cruzam-se, mexem-se, sofrem e amam. Apaixonam-se por si. Já diziam: Poesias!

Amar para sempre. É uma frase que surge em jeito de pergunta constante. O amor não pode estar mais na moda, mas coabitam perspetivas paradoxais, concordam os artistas em palco.

Não tão distante, pensar o amor é pensar em dez anos do coletivo e de muito que a vida lhe deu. Cecília Henriques, também diretora artística do coletivo e atriz recorda que podem passar "dez, vinte ou trinta anos que será sempre uma evolução constante". Têm esta coisa de querer resolver a cada espetáculo coisas que não conseguiram resolver no anterior. "E, muitas vezes, estamos sempre a trabalhar sobre as mesmas coisas. Portanto, nestes dez anos, de espetáculo para espetáculo, acho que fomos evoluindo, sim, em muitas frentes. Na verdade, fizemos 17 espetáculos, coisa pouca." Riem. Rimos todos.

Raimundo partilha ainda que os artistas começaram o processo a rever o primeiro espetáculo. "Rever o que ficou". Desde a estrutura do espetáculo, guião, os adereços, de muitas coisas que lhes despertaram, uma de várias fez-se sentir: "havia uma data de coisas que já lá estavam em potência e algumas até foram rebuscadas para este trabalho, outras foram rebuscadas por outros, mas aquilo já lá estava. O sentido de humor, o universo, uma data de problemas", completa.

Ainda que numa área naïf e meio que a medo, porque celebravam cerca de 21 anos quando começaram, a ideia que tinham do amor era uma coisa "um bocadinho mais pueril". Foi o primeiro de raiz. O amor, talvez não, mas o espetáculo sim. Eram uns códigos que lá se mostravam. Não sabiam o que podia parar, mas era algo do imaginário, concordavam.

Afirmando-se a terceira formação da equipa nuclear da plataforma - a formação que querem para a vida - durante a sua evolução e crescimento no trabalho, as equipas também acabaram por interferir. Ir e vir. O que fez sentido para os artistas. "Agora estabilizamos e, assim como parte de uma estrutura agora montada, ao fim de dez anos, vivemos de e para universos diversos", finaliza Raimundo.

Pode ser uma imagem de 4 pessoas, pessoas a tocar instrumentos musicais, pessoas em pé, interiores e natureza
"À medida que vão entrando outras pessoas e também tem a que ver com a forma como Plataforma, como nós estamos todos à mesa, de repente qualquer pessoa sugere uma coisa e qualquer coisa entra no espetáculo, portanto, e, isso, sim a reformulação da equipa contribui para o objeto final", diz o diretor Artístico.

Quando a Raquel Bravo e a Beatriz Vasconcelos entraram, novas coisas surgiram. "Há imensas coisas na estrutura do espetáculo que são delas, na verdade. A cena que estrutura o espetáculo todo são as dedicatórias, é assim que nós lhe chamamos e, isso, é uma criação da Raquel", elucidam os diretores artísticos.

Não trabalhando em personagens distantes do eu de cada um, a identidade de cada um deles está sempre muito presente, porque são os seus universos. É disto que vive o trabalho de criação. É assim que vive a Plataforma285.

Inventado o espetáculo em quatro meses, os primeiros três contaram com a participação de Bruno, José Silva e o Nuno Oliveira e esta equipa de criação. E, nas últimas cinco semanas, chegaram os intérpretes. Sentam-se à mesa e se determinada cena pedir um texto, então escrevem-no. Depois ameniza-se as duas entidades de textos, de três ou quatro. Ameniza-se tudo isso para ficar um texto único. Entram os intérpretes e longe ou perto dos astros, tudo se cruza.

Estrutura-se um espetáculo quando todos os elementos surgem e é importante destacar ainda que se trata de todo este processo ao fim de dezassete espetáculos, cerca de dez anos de vida a "a criar texto e a criar músicas que é uma coisa muito importante. Não são dez anos a criar músicas, na verdade, mas começamos a inserir música ao vivo no "Leilão". Foi a primeira vez que trabalhamos assim. Isso é uma camada muito estruturante dos espetáculos todos e dos dez anos", acrescenta Cecília.

Não se imaginavam nestes caminhos. Quem o reflete Raimundo. Ou melhor, imaginavam-no, mas não sabiam que rumos tomaria. "Quando isto começou estávamos eu (Raimundo) e a Cecília e decidimos que íamos fazer este espetáculo. Quando sentamos estas pessoas à mesa em 2021 tínhamos mais, que não conhecíamos em 2011. Então isso mudou tudo. Depois, também, já não estamos na casa dos 20 e, portanto, por um lado, a nossa opinião sobre amor mudou completamente. Por outro lado, a nossa vitalidade dos 20 anos também já mudou. Estamos muito mais calmos e somos outras pessoas (risos)".

Estão mais calmos, mas também com mais dúvidas. "E isso faz com que tu te questiones, avances e trabalhes, porque aos 21 anos eu tinha imensas certezas sobre essas coisas também. O universo que eu tinha era tão pouco, que eu conhecia-o e desse eu tinha certeza absoluta. Agora, vais conhecendo milhares de coisas e vais falhando, o que é também muito importante. E já falhámos imenso... Também gostámos de falhar. Aliás, fizemos um espetáculo exatamente sobre isso, falhar", afirma ainda Cecília.

" O universo que eu tinha era tão pouco, que eu conhecia-o e desse eu tinha certeza absoluta." - Cecília Henriques

Bate à porta a pergunta de honra: de que forma pensam, hoje, o amor?

Raquel Bravo: Não temos tempo.

Raimundo: É sobre o facto de termos cada vez mais menos certezas sobre as coisas. Esta coisa que a Raquel também está a dizer sobre o tempo é muito importante. Nós temos falado muito sobre isto, porque estamos todos com muitas coisas e há uma vida, para além das coisas todas há uma vida. E como é que uma pessoa consegue criar relações e dar tempo para as relações florescerem nesta época? É muito difícil. Tu estás tão automatizado, és tão produtivo e tens sempre que ser tão produtivo e chegar a tantos sítios, como é que é possível? É muito difícil. A Cláudia dizia uma coisa no outro dia que eu achei fascinante que é: a verdadeira prova para o amor é o amor conseguir sobreviver ao quotidiano. E ela tem toda razão. Mesmo assim, quando os seus problemas começam a ser o conseguires tratar de tudo, conseguires trabalhar em tudo, conseguires chegar a casa e ainda ter disponibilidade para o amor... é mesmo difícil. É uma luta diária.

Cecília: Para mim, o que importa muito nesta reflexão que eu fiz do amor e que acho que muitas coisas podem estar ou não no espetáculo é esta dualidade entre os tempos em que vivemos, que pedem muita eficácia e pedem coisas fáceis, porque o tempo não pára e então não podemos de repente apaixonarmos por alguém, morrer de amores, ficar quatro meses de cama... Só que eu que sinto falta disso, dessa possibilidade, desse direito de te demorares nas coisas. De sofreres, de esqueceres das coisas, de teres falta de apetite, de não comeres, de te apaixonares mesmo. De ficares doente de amores. Só que não dá, porque nós não temos tempo. Por um lado, isso também era super tóxico. Por outro lado, esta parte mais eficaz e sustentável é melhor. Só que é esta dualidade do "tenho um bocado de saudade daquilo", mas também acho que esta forma eficaz rápida e super protocolar, de parceria e de uma coprodução entre nós os dois, também é um bocado chato.

Bia: É um Deus me livre, mas quem me dera.

Raimundo: E é mesmo isso que estás a dizer, o amor. É não controlares isso.

De construção em construção, o espetáculo parte destes pontos de vista. Fica-se por aqui, por enquanto. Dias 3, 4 e 5 é o Centro Cultural de Belém que os/nos espera.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia da cortesia da Plataforma285
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