De norte a sul, passando pelas ilhas, hoje, no primeiro domingo de maio, assinala-se o dia de todas as mães “queridas” em Portugal. Há quem aproveite para lhes comprar um miminho. Há quem aproveite para reunir a família. Há quem aproveite para dar um passeio. E ainda há quem aproveite para regar e cuidar do jardim às mães não presentes, como a artista Cláudia Pascoal, relembra, e bem, na música “O Jardim”. A verdade é que a data parece não ser indiferente para as mães portuguesas. Sim, particularmente, para as mães de nacionalidade portuguesa, uma vez que as datas das comemorações variam por todo o mundo, repartindo-se por vários meses do ano. Ainda assim, se recuarmos no tempo, apercebemo-nos de que também em Portugal isso se verifica. Em tempos passados, chegou mesmo a ser celebrado no dia 8 de dezembro, no dia da Imaculada Conceição.

Apesar das diferentes datas, o conceito manteve-se constante com o passar dos anos, por todo o mundo. Assim sendo, a ideia passa por homenagear todas as mães de forma a reforçar e a demonstrar o amor dos filhos por estas.

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Mas antes de continuarmos a falar de celebrações talvez devêssemos até começar por descodificar o que significa a palavra mãe. De acordo com o dicionário da língua portuguesa falar da palavra mãe é o mesmo que falar sobre uma mulher que deu à luz um ou mais filhos, uma fêmea que deu à luz um ou mais filhos ou uma mulher que dispensa de cuidados maternais.

No típico português seria o mesmo que falar das donas das expressões “veste um casaco que vais ficar doente”, “de certeza que tens tudo?” ou do “liga quando chegares”.

Uma curiosidade é que, coincidência, ou não, a palavra mãe começa por M em quase todas as línguas, a nível mundial. Não há certezas quanto à sua origem, mas consta-se que no seu cerne esteja um dos sons fundamentais da espécie associado à amamentação. Mas como é que começou a tradição de se celebrar este dia?

A comemoração do Dia da Mãe, como o conhecemos, teve origem nos Estados Unidos no início do século XX. Foi uma cidadã comum americana, Anna Jarvis que iniciou a campanha para instituir o Dia da Mãe.

Estávamos no ano de 1905 quando Anna Jarvis viu a sua mãe “partir”. Face a isto, entrou numa enorme depressão, já que não estava a conseguir lidar com a perda. Preocupadas com o estado de Anna, algumas das suas amigas resolveram perpetuar a memória da mãe com uma festa em sua honra. A verdade é que Anna ficou tão sensibilizada com o ato que começou a planear a extensão da festa a todas as mães, vivas ou mortas, através da criação de um dia em que todos os filhos e filhas se lembrassem e homenageassem as suas mães. A ideia passava, assim, por fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.

Tanto assim foi que nos anos posteriores Anna dedicou-se a fazer campanhas para que fosse criado oficialmente o Dia da Mãe. O momento-chave da campanha acabou por ocorrer a 10 de maio de 1907, quando foi celebrado pela primeira vez o Dia da Mãe, na igreja de Grafton, reunindo praticamente família e amigos. Nessa ocasião, Anna Jarvis enviou para a igreja 500 cravos brancos, que deveriam ser usados por todos, e que simbolizavam as virtudes da maternidade.

A primeira celebração oficial deu-se a 26 de abril de 1910, quando o governador de Virgínia Ocidental, William E. Glasscock, incorporou o Dia da Mãe no calendário das datas festivas daquele estado.

A verdade é que em pouco tempo mais de 40 países adotaram o mesmo costume apesar de cada um escolher diferentes datas ao longo do ano para homenagear aquela que nos põe no mundo. Ora, vejamos alguns exemplos de como a data é assinalada.

Pelo Panamá este dia é sinalizado como feriado nacional. A cada 8 de dezembro, naquele dia e na noite anterior, pequenas bandas improvisadas vão de casa em casa para dedicar canções às mães. É também a vez dos homens cozinharem as refeições enquanto as mulheres se preparam para um dia repleto de surpresas. Já pela Etiópia a celebração dura, pelo menos, três dias. Embora não haja uma data fixa, é realizada todos os anos no final da estação chuvosa, geralmente em outubro ou novembro. As famílias reúnem-se logo pela manhã, onde mães e filhas se ungem com manteiga, enquanto os homens lhes dedicam canções.

Por Portugal, apesar de não haver uma tradição “pré-estabelecida”, o dia é assinalado todos os anos, no primeiro domingo de maio. Ainda assim, olhando para o panorama em geral, o celebrar desta data parece ter perdido importância, para as mães portuguesas, ao longo dos anos. Ora, mais do que celebrar a maternidade é recordá-la.

Um destes exemplos é Joana Gama. Atual mãe, humorista e comunicadora, o percurso pela maternidade iniciou-se há “nove meses antes do nascimento da filha”. Ser mãe significa “um dos primeiros espelhos do mundo, de ser humano”.

“A função da mãe, a meu ver, é a mesma que a do pai ou até a de todos os membros da família e amigos. A intensidade da nossa responsabilidade só varia consoante a influência que possamos ter na criança, tendo em conta o tempo e a qualidade de tempo que tenhamos com ela”, esclarece.

Fotografia disponível via Instagram Joana Gama

No que toca ao Dia Da Mãe, considera que esta é uma data “interessante” para recordar a gratidão pelas mães. Ainda assim, admite não sentir qualquer ligação emocional à mesma. Contudo, opiniões à parte confessa que mantém, na mesma, a tradição de almoçar com a família e de comprar uma “prendinha” para a sua mãe.

Face a isto, não deixa igualmente de pronunciar uma mensagem de carinho a todas as mães neste dia.

Um beijinho a todas as futuras mães que estão em processo de fazer muito amor (de que maneira for) para terem os seus bebés. Um beijinho a todas as mães que não deram à luz, mas que amam e tanto os seus filhos, ainda antes de os terem consigo. Um beijinho a todas as mães que criam crianças com outras mães e em que há uma riqueza tão grande e amor. E um beijinho a todos aqueles cuja a mãe já cá não está, mas que está na base de todos os pensamentos, mesmo que não nos apercebamos.

Em igual opinião está a artista de música Selma Uamusse. O percurso pela maternidade começou há 28 anos. Nos dias de hoje, afirma que “ser mãe é ser cuidadora, é ser uma referência no que diz respeito à ética, à moral e à resiliência. Implica um amor que eu acho diferente da amizade”.

No que toca à data, não é do contra, mas também não lhe atribui muita relevância. “Acho que é importante assinalar determinados dias, mas provavelmente dou mais relevância ao Dia da Mulher do que ao Dia Da Mãe”, explica.

Fotografia disponível via Instagram Selma Uamusse

Consciente do “marketing” envolvido nas datas festivas, e apesar de não atribuir muita importância à data, não a deixa de assinalar, com o passar do tempo. “Para mim, o Dia da Mãe é ouvir palavras de apreço, palavras de carinho, fazer qualquer coisa que seja um bocadinho diferente do que receber presentes”, revela.

Independentemente da celebração deste dia, anseia, sim, que a maternidade seja no futuro tratada de uma forma honrada, “para que possamos ser profissionais de uma forma digna e mães também”. Finaliza que é “muito bonito ser mãe, mas é cansativo. É uma vitória. Parabéns a todas as mães”.

Apesar da maior ou menor relevância atribuída pelas mães portuguesas, à data, a verdade é que o dia não é indiferente a ninguém. Queiramos ou não, torna-se impossível não nos lembrarmos de quem nos acolheu e deu vida, já que como diz o ditado popular mãe “só há uma e como tu não há nenhuma.”

 “Bendita seja a Mãe que te gerou.”

Bendito o leite que te fez crescer

Bendito o berço aonde te embalou

A tua ama, pra te adormecer!

Bendita essa canção que acalentou

Da tua vida o doce alvorecer ...

Bendita seja a Lua, que inundou

De luz, a Terra, só para te ver...”

Florbela Espanca, in Livro de Mágoas

Texto de Isabel Marques
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