Calhou assim. Esta crónica vai sair um dia depois do “Dia de Reis”, data reservada na mitologia sagrada ocidental para celebrar a visita dos Magos ao Menino Jesus.

É uma história com vários pontos de interesse para os investigadores de diversas ciências ou pseudociências, em redor da existência da “estrela” ou do “cometa” anunciador do nascimento do salvador.

A origem e o número dos reis magos são igualmente alvo de alguma polémica. Para além dos consagrados nos textos bíblicos, que “vieram do Oriente” – Gaspar (da Índia), Melchior (da Pérsia) e Baltazar (da Arábia) –  há uma tradição portuguesa antiga que refere um mago ameríndio brasileiro.

Está representado no famoso quadro de Grão Vasco pintado para a Sé de Viseu logo em 1501, substituindo Baltazar. Todavia, e ainda mais interessante, esse quarto Mago aparece num presépio (Machado de Castro) da Igreja das Taipas (Porto) em adição aos restantes três, porventura querendo dizer que na data da execução do presépio já o mundo tinha conhecimento de que existiam quatro continentes. E de todos eles vieram “reis” adorar o Menino.

Gastronomicamente, o “novo mundo” de Cabral e de Colombo deu-nos alimentos fundamentais, como a batata, o milho, a mandioca, o feijão, o tomate e o cacau, para apenas citar alguns.

Na grande aventura da miscigenação de culturas provocada pelos Descobrimentos, de cá para lá e de lá para cá, também a gastronomia sofreu influências cruzadas que são estudadas pelos especialistas. Talvez um dos casos mais interessantes e pouco conhecidos seja considerar-se que a “Feijoada” tem como antecedente de raiz o “Cozido de carnes”, no sentido que em ambos os pratos se fazem aproveitamentos de partes menos nobres da matança do porco.

O Brasil tem uma gastronomia tradicional de alto nível. Desde a Baía, que me parece ser o cume gastronómico do grande país, até às necessidades que aguçaram o engenho dos exploradores de Minas Gerais, como o célebre “feijão tropeiro” que a tradição mandava ser comido diretamente do saco de couro, em cima do dorso do cavalo. Passando pelas feijoadas completas, sinfonia gastronómica de muitas regiões que por si só daria para incluir o país no livro de destaque da alimentação.

Peço licença para – de tanta escolha possível – aqui trazer apenas duas bebidas, ambas antigas da época da colonização, como que a ansiar que passe depressa o Inverno e chegue o Verão, trazendo consigo calor e bons ventos que levem a maleita.

Refresco de Lima com Menta:  é uma “limonada” feita a partir das limas e que é depois aromatizada com folhas de hortelã-pimenta. O açúcar vai a gosto do artista. Gelo e água mineral compõem o ramalhete.  A novidade é que não se extrai o sumo das limas. Estas são partidas aos bocados, como se fosse para a “caipirinha”, deitadas para dentro do jarro e batidas com o açúcar e com a hortelã. A água mineral é a última coisa a entrar, com o gelo.

E a incontornável “Caipirinha”, neste caso para dois copos: 3 doses de aguardente de cana, 1 limão, 3 colheres de sopa de caldo coado de limão, 2 colheres de sopa de água,1 colher de sopa não muito cheia de mel ou a mesma quantidade de açúcar, 2 colheres de sopa de gelo picado.
Corta-se o limão em quatro gomos e colocamos dois em cada copo. Divide-se a aguardente, o caldo de limão, o mel ou açúcar e a água, em partes iguais, para dentro de cada copo. Amassamos bem os gomos de limão com o pilão de madeira de um almofariz. Completamos com o gelo e mexemos bem.

-Sobre Manuel Luar-

 de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
Ilustração de André Carrilho 
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