A relação entre o teatro – enquanto espetáculo, performance efémera ou exercício vocal e gestual diante de uma plateia de espetadores –, e o texto que lhe serve, na generalidade das ocasiões, de base, tem sofrido evoluções ao longo das diferentes épocas.

A influência de diferentes movimentos e autores tem-se traduzido em períodos de maior ou menor importância do elemento textual na criação de peças. No entanto, ainda que exista hoje em dia, de acordo com diversos autores, um questionamento e uma relativização do papel do texto dramático – que existe pela condição de ser não só lido mas também visto – na própria criação teatral, este mantém a sua presença e a sua vitalidade.

De acordo com a investigadora e professora da Universidade de Évora, Christine Zurbach, «na abordagem “dramatúrgica e cultural” do teatro contemporâneo, o texto dramático surge simultaneamente como um fator de continuidade e de mudança, nomeadamente na prática generalizada da “reescrita” dos “textos”». Por outro lado e, para lá dessa prática de reescrita, as traduções de textos dramáticos são hoje cada vez mais correntes e assinadas “por tradutores, eles próprios autores ou ensaístas de nomeada”, acabando muitas das vezes por serem publicadas.

Neste contexto, quer o texto dramático se mantenha ou não como “objeto sagrado inicial” ou que apenas figure como mais um elemento daquilo que acarreta a criação contemporânea, o seu estudo propõe várias questões, desde logo sobre um possível “divórcio real entre o palco e a dramaturgia dos autores”. Em sentido inverso, é notório um incremento de ateliês e oficinas de escrita, onde o texto dramático parece ganhar novos admiradores.

Tendo em conta esta relação de presença-ausência entre o texto e o próprio teatro e, em virtude do momento que vivemos, que impossibilita ao teatro os seus momentos de apresentação pública, desafiamos dois encenadores a destacarem textos que lhes foram, de alguma forma, marcantes. Assim, neste Dia Mundial do Teatro, marcado pela conjuntura atual, em que a grande maioria das salas de espetáculo se encontram encerradas, convocamos novamente o texto e a importância do mesmo para o teatro, um dos meios artísticos que mais do que nunca enfrenta novos desafios.

John Romão
Escolho o texto “Hipólito - monólogo masculino sobre a perplexidade” de Mickael de Oliveira. Este texto, que o Mickael escreveu para mim e que interpretei e encenei, foi apresentado no Negócio/ZDB há 11 anos e marcou o início da nossa colaboração artística (fundámos a estrutura Colectivo 84) e com a própria ZDB (onde encenei vários espetáculos de teatro).

O texto centra-se na relação entre dois corpos, Hipólito e Fedra, e na sua dimensão conflituosa que os une. Reclama um olhar crítico sobre a ambiguidade do toque, sobre a história da intimidade. O toque convive entre dois registos, um pueril e outro perverso, numa convivência entre opostos, sem dar resposta ao conflito.

Podes ler este texto aqui.

João Garcia Miguel
Assinalo dois textos que me parecem importantes como exemplo de dramaturgia portuguesa e que gostava de serem recordados no Dia Mundial do Teatro:

“O Judeu”, de Bernardo Santareno
É uma peça a partir da qual irei trabalhar no ultimo trimestre deste ano. Tenho colocado uns pequenos excertos no Facebook sobre a peça e ainda estou a dar voltas de como é possível pegar neste imenso texto. É uma obra de teatro histórico que renega em acontecimentos reais e outros faccionais para falar da segregação e do isolamento social.

Este é o ano do centenário do nascimento do Bernardo Santareno e por isso também acho relevante procurar entre o nosso património literário e dramatúrgico um levantamento de assuntos e de memórias que nos toquem pela sua proximidade.

“Três Parábolas da Possessão”, de Francisco Luís Parreira
Encenei este texto em 2015 e foi apresentado na Sala Estúdio do Teatro D. Maria II, na única vez que com muita honra lá trabalhei, em março desse ano. É um texto muito poético, que trata da história de um menino bomba que é usado pela resistência palestiniana para atacar alvos civis e militares israelitas.

Esta história cruza-se com a narrativa da Natividade de Jesus Cristo e daí resulta uma teia de relações e correspondências. Pelo que sei ainda ninguém mais levou o texto à cena. O Francisco Luís Parreira é um dos dramaturgos portugueses com quem tenho regularmente trabalhado. A sua obra pauta-se por um trabalho de pesquisa de temas e de registos poéticos que o tornam num caso singular no panorama nacional. Julgo que a releitura desta sua obra pode dar um bom momento de reflexão sobre o ódio e o amor — sobre o destino de cada um no que destino colectivo se implica.

Podes assistir a esta peça aqui.

Neste Dia Mundial da Teatro, o Gerador publica, além deste artigo, mais dois em torno da criação teatral. Descobre mais aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Filipe Ferreira da peça Três Parábolas da Possessão, com encenação de João Garcia Miguel

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.