bastidores
substantivo masculino plural
3. [Teatro] Espaço à volta do palco que não é visto pelo público.
4. [Figurado] Conjunto de coisas íntimas, ocultas ou secretas.

"bastidores", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020.

É desta forma que aparece a entrada da palavra “bastidores” no dicionário online Priberam da Língua Portuguesa. Um espaço que não é visto pelo público, mas também uma palavra que entra no nosso léxico com carga de intimidade e secretismo. Não admira que por tantas vezes os espectadores contemplem nas teias da sua imaginação o que por lá se passará. Quem serão as pessoas por detrás das personagens? Do que falam lá atrás? O que fazem? Como se reveste esse espaço? Que sentimentos nele se imprime?

Outro dos espaços que faz parte do imaginário de qualquer um é o camarim. Um espaço que tipicamente se concretiza num pequeno quarto com uma bancada iluminada por um espelho de luzes, um assento para descansar e um cabide que suporta os figurinos. O espaço de repouso do ator, assim como o das suas brincadeiras. Então, um camarim não é o mesmo que os bastidores. Porém, dependendo da envergadura de cada teatro esta diferença pode, na verdade, constituir uma fusão em que os dois espaços convivem. Mas foquemos a nossa atenção nos bastidores, que só por si estabelecem um campo de surdina.

Os bastidores são muitas vezes o limbo entre a pré-personagem e a sua exposição materializada em completude. Um espaço em que “o artista corre pelos corredores que contornam o palco para encontrar o texto, entrar em cena e dar vida ao seu personagem”, tal como enuncia Níobe Abreu Peixoto, no livro João Cabral e o poema dramático: Auto do Frade (2001:31).

É também um espaço de confronto entre o sonho e o medo. Esta ideia encontra-se espelhada em A Gaivota, de Anton Tchékhov, uma peça revolucionária na conceção do teatro da Rússia do século XIX e que se opõe ao sentimento de apatia.

TREPLEV: (Abarcando com o olhar todo o palco) Ora, aqui temos um teatro! A cortina, dois bastidores, e depois, ao fundo, o espaço livre. Cenários não há. Tem-se uma visão ampla e aberta do lago e do horizonte. A cortina vai subir às oito e meia em ponto, ao nascer da Lua.

A Gaivota, de Anton Tchékhov (1992), tradução de Fiama Hasse Pais Brandão

Então, este será também o espaço último de transformação do ator, permitindo-se inebriar pela personagem que com ele privou intimamente durante meses de trabalho. Um lugar, que para além da adrenalina, acolhe uma alma fortificada.

NINA: (...)Agora sei, Kostya, percebi que no nosso trabalho – e tanto faz estar no palco como escrever – o que é importante não é ter êxito, nem tão-pouco glória, nem nada do que eu sonhava – o que é importante é conseguir aguentar. Saber levar a cruz, e ter fé. Eu tenho fé, e assim não me dói tanto. Quando penso na minha vocação, já não tenho medo da vida.

A Gaivota, de Anton Tchékhov (1992), tradução de Fiama Hasse Pais Brandão

Cientes das diversas formas de viver os bastidores de teatro, assim como dos múltiplos relatos possíveis de histórias que lá se desenrolam, o Gerador incentivou alguns atores portugueses a levantarem o véu daquilo que não está à vista do espectador. Mia Tomé, Carla Chambel, Albano Jerónimo, Isabel Rodrigues Costa, Rui Neto, Ana Brito e Cunha, Luís Puto e Cláudia Lucas Chéu abraçaram este desafio que sugeria perceber a relação que cada ator estabelece com o espaço dos bastidores e a partilha de uma história, vivida nesse ambiente, que os tenha marcado.

Mia Tomé, atriz e autora

Mia Tomé, natural de Coimbra, estuda representação desde os 15 anos. É licenciada em Teatro, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, e frequentou o mestrado em Educação Artística, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, em 2017. No final do mestrado, foi-lhe atribuída a bolsa “Especialização e Valorização em Artes” pela Fundação Calouste Gulbenkian, para frequentar o The Lee Strasberg – Theatre and Film Institute, em Nova Iorque. Enquanto atriz, trabalha com alguns encenadores, nomeadamente João Pedro Mamede, Jorge Silva Melo ou António Simão. Em 2016, foi publicada a sua primeira peça, Pensão Glória no livro Laboratório de escrita para Teatro pelo Teatro Nacional D. Maria II. É um dos membros da companhia de teatro Os Possessos. Participou em filmes como Gelo (2016), Ramiro (2017), ou na curta-metragem Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (2018).

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

É um lugar onde gosto de estar para me concentrar. É um sítio que adoto como “casa” e faço com que me seja familiar: gosto de levar algumas imagens ou frases de coisas que me inspirem para colar no espelho. Passo por lá muito tempo, sentada a escutar música – é das coisas que mais me acalma antes de entrar em cena.

O relato de uma história de bastidores que a marcou

Num dos espetáculos que fiz, havia uma cena que acontecia nos camarins para se ouvir no palco. Ou seja, eu e o meu colega (Miguel Ponte), tínhamos um diálogo que não se via, só se ouvia. Numa das matinês, a senhora da limpeza, que era muito caraterística, com uns cabelos extremamente longos e cinzentos, decidiu entrar para limpar os bastidores. Quando eu estava a fazer a cena, olhei para a porta e não estava ninguém. Segundos depois, quando volto a olhar, aparece a senhora característica, estática a olhar para nós. Como eu não estava à espera de ver alguém, assustei-me e dei um grande grito... que se ouviu no teatro todo! – Alguém decidiu ir limpar os camarins à hora errada.

Fotografia nos bastidores do espetáculo “Doce Pássaro da Juventude”, de Tennessee Williams, encenado por Jorge Silva Melo, no Teatro Nacional São João (Porto). “O meu papel era muito pequeno, mas precisava de bastante tempo para a caracterização. Aprendi muito naquela digressão, e o tempo nos camarins era passado com conversas saborosas e muita partilha entre todos.”

Carla Chambel, atriz

Natural da Amadora, fez formação de atores na Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo-se estreado em teatro, em 1995, com “A Disputa de Marivaux”, uma encenação de João Perry, no Teatro da Trindade. Vencedora do prémio Sophia de Melhor Atriz Secundária pelo filme “Se Eu Fosse Ladrão Roubava de Paulo Rocha, é também locutora e já participou em várias telenovelas. Desde 2014, é vice-presidente da Academia Portuguesa de Cinema, onde produz anualmente a participação portuguesa no EFA Young Audience Award. Em março de 2019, foi um dos nomes escolhidos para integrar o “passeio da fama” que homenageia nomes do teatro português, na Praça da Alegria, em Lisboa.

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

Os bastidores são principalmente o antes e o depois. A preparação, o aquecimento, o ritual, mas também o arrefecimento e a descontração. O espaço que fica entre o mundo lá fora e o palco. Uma espécie de mundo neutro onde se criam relações de cumplicidade e códigos que só aquela equipa percebe. Muitas vezes, há frases do texto que se tornam motes de toda a carreira de um espetáculo. E são essas pequenas coisas que nos ligam e fortalecem. Criam confiança para sabermos que aconteça o que acontecer em cima do palco, o outro está lá.

Tenho muito respeito pela preparação nos bastidores. O silêncio, ou uma música. A adrenalina começa a subir. Sou metade eu, metade personagem, enquanto me maquilho e o figurino ainda está pendurado. Fotografias e cartões dos colegas da estreia no espelho, uma toalha turca na mesa para colocar cuidadosamente a maquilhagem, o texto na gaveta, ou de lado, sempre presente, com todas as memórias dos ensaios. A adrenalina continua a subir. Uma ida à casa-de-banho, o organismo é sempre soberano. Se houver alguma dor, algum desconforto, febre às vezes até, sei que em cima do palco tudo isso vai passar. Estou pronta para passar do escuro para a luz. Como um nascimento. (Já dizia António Damásio). Nasço em cada espetáculo.

Os bastidores também são aquele espaço omisso para o público em que aguardamos a nossa vez. Vemos dali o espetáculo a acontecer. Estamos no silêncio, estamos no escuro. Concentração absoluta. Sentir o pulsar, a respiração, o tom do espetáculo. Entro, e uma descarga absurda de adrenalina acontece. Transpiro. Acaba. Às vezes morre-se. E depois?... É samba, é loucura, é excitação, é riso, é parvoíce, é falar alto... a catarse do ritual, do sagrado, do regresso a mim através de uma montanha russa. No último espetáculo, despe-se o figurino e atira-se por cima da cabeça para trás das costas. A personagem morreu e eu sobrevivi. Geralmente sou das últimas a fechar a porta do camarim. Demoro a arrefecer antes de voltar ao mundo real.

O relato de uma história de bastidores que a marcou

“BREVIÁRIO PARA UM EXTERMÍNIO SILENCIOSO” de Mike Bartlett na Escola de Mulheres/2015. Encenação de Rui Neto. Interpretação de Carla Chambel/Isabel Medina/Roger Madureira.

Era um espetáculo pesado, muito pesado. Uma tensão constante entre patroa e empregada, pontuada por um assistente silencioso que confirmava o extermínio. Bah! Passávamos o espetáculo inteiro sentadas. Frente a frente! Antes do espetáculo começar havia um silêncio sepulcral, todas as dúvidas, inseguranças surgiam. No final, já no camarim, explodíamos de parvoeira, música aos altos berros. Era preciso, era necessário. Tratava-se da nossa saúde mental sair daquele buraco para onde o espetáculo nos levava. E os três ficávamos mais fortes para voltarmos no dia seguinte e recomeçar.

Selfie nos bastidores do espetáculo “Breviário para um extermínio silencioso, de Mike Bartlett, com encenação de Rui Neto. Nas fotografias aparece acompanhada por Isabel Medina e Roger Madureira.

Albano Jerónimo, ator e encenador

Frequentou o Curso de Teatro em Formação de Atores da Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa. É cofundador da companhia teatronacional21. Em Teatro foi, entre tantos outros, intérprete em "Quarteto" (Heiner Muller), encenado por Carlos Pimenta, "Pocilga" (Pier Paolo Pasolini), dirigido por John Romão e "Sócrates tem de morrer" e a "Vida de John Smith" (Mickael de Oliveira), encenado por Mickael de Oliveira, Coriolano (Shakespeare), encenado por Nuno Cardoso e "O Falecido Mattia Pascal" (Pirandello) com Jorge Andrade na Mala Voadora. Estreou-se como encenador no Teatro Nacional D.MariaII- Lisboa com "Um Libreto para Ficarem em Casa Seus Anormais" a partir de Rodrigo Garcia e rescrito por Mickael de Oliveira, numa Ópera Tropical e de seguida com "Veneno" de Cláudia Lucas Chéu em digressão por vários teatros do país. Tem uma vasta presença no cinema, como é exemplo o filme “A Herdade” (2019) de Tiago Guedes, e em televisão, quer em telenovelas, quer em séries, onde se destaca "Vikings" interpretando Euphemius, com produção da MGM e o History Channel e “Sara” de Marco Martins para a RTP1. Nomeado para vários prémios, destacam-se os prémios de melhor ator em "Anestesia" de Pedro Varela no ShortCutz, vencedor do prémio para melhor ator de cinema no Festival de Cinema Euphoria com "Florbela" de Vicente Alves do Ó, vencedor do prémio Sophia de melhor ator secundário em "Linhas de Wellington" de Valéria Sarmiento, nomeado para um Globo de Ouro de teatro com "Menina Júlia" de August Strindberg, entre outros.

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

Total. É a antecâmara da plataforma de comunicação. É a espécie de rampa que te leva até à palavra. Traduz-me uma adrenalina e uma calma, ao mesmo tempo. Há espaço para tudo: o silêncio, são zonas onde reencontras pessoas, falas com as pessoas e divertes-te também. Mas tudo isto acontece em surdina. É onde paira uma espécie de silêncio conciliador com uma energia vibrante.

O relato de uma história de bastidores que o marcou

Estava em cena no espetáculo “Menina Júlia”, estávamos na sala Garrett. Com meia hora de espetáculo começo a sentir-me mal, porque sou alérgico a uma coisa que comi durante o espetáculo e tinha uma saída de cena que era a 30 minutos do final. Fui ter com o bombeiro e disse-lhe que precisava de ir para o hospital logo quando acabasse o espetáculo e assim foi. Acabou, fui uma vez aos agradecimentos e não consegui ir mais, porque fui direto para uma ambulância que estava à espera na porta de artistas e fui para o hospital. É uma história que guardo sempre com um misto de amor, carinho e também com alguma vontade de não repetir esse menu. Foi também um momento de congregação de várias pessoas com um espírito de entreajuda.

Fotografia nos bastidores do espetáculo “A morte de Danton”, de Georg Büchner, no Teatro Nacional São João (Porto). Fotografia de João Tuna.

Isabel Rodrigues Costa, atriz, autora e curadora

Trabalha em teatro, cinema, na área de produção de exposições e curadoria. É diplomada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo completado a sua formação na Universidade de Warwick (Inglaterra) e na UNIRIO (Brasil). É membro do grupo de teatro Os Possessos desde 2014. Na área de produção de exposições passou pelo Paço Imperial no Rio de Janeiro (Brasil), pela Galeria Luis Serpa Projectos (Lisboa) e pela galeria Primner. Em 2016 terminou o mestrado Eramus Mundus Crossways in Cultural Narratives, tendo passado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Perpignan (França) e pela Universidade de Guelph (Canadá). Dedicou-se ao tema do arquivo na performance arte. Em 2017, iniciou a criação de projetos a solo. Apresenta a criação “Estufa-Fria-A Caminho de uma Nova Esfera de Relações” na Bienal de Jovens Criadores, e a primeira edição do Projeto Manifesta, um projeto produzido por Os Possessos. Em 2019, apresenta as criações “Maratona de Manifestos” e “Salão Para o Século XXI.”

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

É sempre um espaço onde gosto de me concentrar. Se os colegas forem divertidos é obviamente um espaço de convívio também. É muito importante também ser um espaço de descanso.

O relato de uma história de bastidores que o marcou

Nos bastidores da “Marcha Invencível” eu e a Mia Tomé estávamos atrás de uma parede de cena, durante quase todo o espetáculo. No final do espetáculo a parede caía, éramos nós que a empurrávamos. O difícil era mantermo-nos atrás da parede, num espaço muito apertado sem a deixarmos cair, porque apesar de parecer robusta para quem a via de frente, era muito fina e frágil e caía facilmente.

Fotografia tirada nos camarins do Teatro Joaquim Benite, em Almada, antes da estreia do espetáculo “Marcha Invencível” dos Possessos. Fotografia de Mia Tomé.

Rui Neto, ator e encenador

Ator e encenador, é natural de Lisboa e começou por estudar Informática e Gestão de Empresas, onde conheceu o bichinho do teatro. É mestre em Ciências da Comunicação – Comunicação e Artes pela Universidade Nova de Lisboa e licenciado em Teatro pela ESTC. É também licenciado em Publicidade e Marketing pelo IADE. Estreou-se em teatro, em 1999, em “O Achamento”. Em cinema, estreou-se na curta-metragem de Inês Oliveira, “O Nome e o NIM”, seguindo-se uma série doutros trabalhos. Trabalha regularmente em projetos de televisão, dos quais são exemplo as telenovelas “Espelho d’Água” e “Sol de Inverno”, ou as séries “3 Mulheres” e “Ministério do Tempo”. Desde 2011 que desenvolve projetos de escrita e criação para teatro. Fundou a LoboMau Produções, que tem produzido os seus espetáculos desde de 2016. Autor editado, com os títulos Luto/Worms (2015), Catch My Soul/Mechanical Monsters (2017) e 3GODS (2019) pela editora Caleidoscópio. Foi responsável pela direção de atores de “A TEIA” (Plural/TVI). Atualmente é professor de Interpretação no curso de Teatro/Atores da Escola Superior de Teatro e Cinema. 

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

Os bastidores, para mim, é um espaço de concentração. De acalmar alguns nervos, focar a atenção, a energia. Sobretudo, é um espaço de onde eu vejo a cena. É um espaço para eu ajustar o meu trabalho, para me preparar para entrar e para ver o que está a acontecer, porque o mais importante é perceber como vamos entrar naquele espetáculo. É sempre diferente. As energias são diferentes, os públicos são diferentes. Os bastidores é um espaço de acerto, de preparação. Claro que não deixa de ser também um espaço de bastantes nervos. É um bocadinho diferente da ideia de camarim. Se bem que há teatros que nem têm camarins. Há outros teatros que não têm bastidores. Noutros, os bastidores são os camarins, porque não têm espaço. Isso, na verdade, varia um bocadinho. No caso da Comuna, os bastidores são os camarins. No Teatro Nacional D. Maria II os camarins parecem um boudoir e crias uma cumplicidade diferente. Como, cada vez mais, tenho um trabalho como encenador e criador, o espaço de bastidores e camarim, deixou de ser um espaço em que permaneço. O meu ponto de vista é de plateia. Os meus bastidores, enquanto encenador, passam a ser a plateia, porque é dali que vejo e conduzo o espetáculo que estou a construir e, de facto, os bastidores e camarins acabam por ser uma área reservada aos atores.

O relato de uma história de bastidores que o marcou

Das primeiras vezes que pisei um palco, foi na Companhia de Teatro de Almada, num espetáculo que se chamava “O Poder” e eu fazia o Filipe d’Orléans. Era uma peça de época e relativamente clássica, em que estávamos vestidos com aqueles trajes riquíssimos de penas e lacinhos. A minha primeira cena era talvez a terceira cena do espetáculo e antes disso o que acontecia em cena era uma caçada do rei Luís XIV e do seu conselheiro. Essa caçada era feita em cena com a presença de dois falcões que eram largados da teia por um falcoeiro. Durantes os ensaios, tínhamos sempre lá os falcões, tínhamos muito cuidado.

Eu nunca tinha, praticamente, tido contacto com os falcões porque eles estavam na cena anterior à minha. Era uma cena de caçada e, a dado momento, o falcoeiro ao sinal do ator largava um falcão, o ator agarrava o falcão, saía de cena e só quando o primeiro falcão saísse de cena é que ele poderia soltar o segundo falcão que iria parar à mão do segundo ator. Os dois falcões não poderiam ser largados ao mesmo tempo, porque o espaço aéreo da teia do teatro era muito pequeno e eles iriam lutar, ou algo assim. Os ensaios correram sempre bem. Só sei que no dia da estreia, quando o falcoeiro larga o primeiro falcão, ele faz uma rasante na mão do ator, mas não pousa e segue para a teia e fica lá solto. Portanto, o falcoeiro não pode largar o segundo falcão e o primeiro não respondia ao chamamento do falcoeiro e dos atores.

Estava a acabar a segunda cena, ia entrar a seguir, e quando paro percebi que havia alguma confusão e vejo o falcoeiro a vir na minha direção para me contar isto e que provavelmente só no intervalo é que ele ia conseguir ir buscar o falcão. A única preocupação dele era que os nossos figurinos não tivessem nenhum tipo de penas, porque isso iria atrair a atenção deles e eles poderiam atacar. O que é certo é que a minha personagem tinha um leque com penas, um chapéu com penas, lacinhos com penas, tudo com penas. Isto era a estreia. Já não bastava os nervos de estar numa estreia, foram extremamente adensados com eu a arrancar as penas todas do meu figurino e entrar rapidamente em cena e num stresse a pensar que o falcão me ia matar, ou ia levar com uma cagadela dum falcão, que seria uma situação horrível. Felizmente, não aconteceu nada. Chegou o intervalo e capturaram o falcão.

Fotografia do espetáculo “O Poder”, com Rui Neto e Joana Fartaria. Foto da Companhia de Teatro de Almada.

Ana Brito e Cunha, atriz

Em 1991 e 1992 aparece no espetáculo “Um Dia no Alentejo”, em cena no Teatro Tivoli. Em 1993, entrou na telenovela “Na Paz dos Anjos” e, em 1994, na “Trapos e Companhia”. Desde então, a sua presença nos palcos, televisão e cinema tem sido ampla. Ainda nos anos 90, produz e escreve peças de teatro, tais como “Amigos do Palco I”, “Tabata” e “Amigos do Palco II e III”. Foi apresentadora do programa infantil “Jardim da Celeste” e apareceu no programa de stand up “Sempre em pé aquando da sua estreia. Encenou “O Natal na Floresta”, de Rita Fernandes, no Pavilhão Atlântico, em 2004; “Salon”, de Rita Fernandes; “Não Te Esqueças de Puxar o Autoclismo, de Rita Fernandes; e “Super-Mulher. A sua estreia em teatro de revista deu-se com o espetáculo “HIP HOP'arque!, no Teatro Maria Vitória. Mais recentemente, fez parte dos elencos de “40 e então?, “Nome Próprio e “Os vizinhos de cima.

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

Adoro bastidores, sinto-me muito confortável e protegida. (É um lugar de) muita calma e serenidade, mas ao mesmo tempo uma determinada excitação que não se explica. É muito vibrante saber que estamos ali prontos e dispostos a presentear o público com o nosso espetáculo. Adoro a partilha com os colegas, o jogo teatral e a sensação de que estamos unidos por um propósito. Sinto que o teatro tem uma profunda partilha da intimidade de cada um.

O relato de uma história de bastidores que a marcou

Lembro uma de um espetáculo em que fomos fazer a “Génese” com o Raul Solnado, Rosa do Canto, Carlos Zel, Mafalda Arnaut e a Manuela Maria , pela Casa do Artista, que era dois dias. Estava muuuito nervosa no primeiro. Assim que passou, relaxei de mais e, no segundo dia, assim que começamos eu já estava demasiado tranquila e comentei com o Raul. Ele sorriu e disse:“cuidado... olha que o segundo é mais perigoso.” Não percebi e, assim que entrei em cena com toda a confiança, tropecei e atravessei o palco de cabeça. Aprendi uma grande lição.

Fotografia no camarim do espetáculo “Os Vizinhos de Cima”, no Teatro Villaret (Lisboa).

Luís Puto, ator e produtor executivo

Nascido em Guimarães, colaborou profissionalmente com o grupo Teatro Ensaio (TEATREIA Associação Teatral - Porto), participando em projetos dirigidos por António Durães e Pedro Estorninho. No mesmo ano, ingressou na Escola Superior de Música, Arte e Espetáculo do Porto, na licenciatura de Teatro, variante Interpretação, que terminou em 2013. No ano de 2013 fez parte do elenco de "Rosencrantz & Guildenstern estão Mortos", espetáculo de Marco Martins, Arena Ensemble. Ainda em 2013, ingressou na companhia ISO Theatre, um projeto da UTE Acadamie pelo Teatro Nacional de S. João. Em setembro de 2013, começou a colaborar com o Teatro Bruto até janeiro de 2015, onde desempenhou funções como ator, assistente de encenação e produtor executivo. Em março de 2015, é criador e autor da instalação-video "não me obrigues a despir-te". No final de agosto de 2016, começa a colaborar com os Artistas Unidos, nos departamentos de assessoria de imprensa e tesouraria até fevereiro de 2017. Desde março de 2017, colabora com a companhia Teatro Nacional 21 como produtor executivo e ator.

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

Bom, enquanto ator os bastidores são o sítio de reflexão. São o lugar onde, antes de entrar em cena, me concentro, onde "entro" no espetáculo, onde alinho as minhas energias para poder estar no espetáculo a cem por cento. Claro que tenho momentos de diversão. Obviamente, os aquecimentos antes do espetáculo são sempre bastante divertidos com as equipas, mas também sobretudo são momentos de concentração, de ligação com o trabalho que tens para fazer, e é sobre nós. Ser ator é isso mesmo também, trabalharmos "sobre" o nosso corpo, a nossa voz, sobre o nosso pensamento. Portanto, se é um sítio que me transmite calma? Sim é, ou seja, os bastidores são onde controlo a ansiedade e onde fomento a calma.

O relato de uma história de bastidores que o marcou

É difícil escolher apenas uma história, pois elas são tantas, e de tantos espetáculos, colegas e companhias diferentes, de tantas digressões e em tantos Teatros. Lembro-me da história de quando estávamos a fazer a Ópera "Um Libreto para Ficarem em Casa Seus Anormais" da Teatro Nacional 21, e uma das atrizes tocava guitarra, e uns 10 minutos antes do espetáculo começar, essa mesma guitarra deixou de funcionar e simplesmente por mero acaso, ou coincidência, ou destino, aquilo em que cada um acreditar mais, um dos técnicos do Teatro tinha  uma guitarra com ele e, assim em dez minutos, entre pânico e desespero de última hora, a solução surgiu e apresentamos o espetáculo. Lembro-me ainda de outra história de um espetáculo que fiz há pouco tempo, em que uma das atrizes levou o figurino para casa, no fim de um espetáculo, e a pouco tempo antes do espetáculo do dia seguinte começar, quando ia vestir o seu figurino, apercebeu-se que o tinha deixado em casa. Um dos técnicos pegou na sua mota, e rapidamente foi a casa da atriz buscar o figurino, e chegou ao Teatro mesmo 5 minutos antes do espetáculo começar. O vestido vestiu-se e o público entrou na sala.
Estes são apenas dois exemplos, mas é bom recordar estas histórias, sobretudo nesta altura. Histórias de quando estávamos todos juntos e conseguíamos vivenciar este tipo de experiências com os nossos colegas.

Luís Puto em bastidores. Fotografia de José Caldeira

Cláudia Lucas Chéu, poeta, romancista, dramaturga e argumentista

Frequentou o curso de Línguas e Literaturas Modernas (FCSH) e concluiu o curso de Formação de Actores (ESTC). Tem publicados os textos para cena Poltrona - monólogo para uma mulher; Glória ou como Penélope Morreu de Tédio; Europa, Ich Liebe Dich; Violência - fetiche do homem bom; Círculo Onanista; Bank, Bank, You ́re Dead, pelas edições Bicho-do-Mato/Teatro Nacional D. Maria II; A Cabeça Muda, pela Cama de Gato Edições; Veneno (Coleção Curtas da Nova Dramaturgia - Memória), Edições Guilhotina, 2015. Em prosa poética, publicou o livro Nojo (2014), (não) edições. E em poesia, o livro Trespasse, Edições Guilhotina, 2014; Pornographia (poesia), Editora Labirinto, 2016. Em 2017, foi publicado o seu livro Ratazanas (poesia), pela Selo Demónio Negro, em S. Paulo (Brasil). Publicou, em 2018, o seu primeiro romance Aqueles Que Vão Morrer, Editora Labirinto; e Beber Pela Garrafa (poesia), pela Companhia das Ilhas, 2018. Leciona Escrita e Dramaturgia na Escola Superior de Educação de Lisboa. Frequenta atualmente o mestrado em Filosofia (Estética), na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Que relação tens com o espaço dos bastidores?

Local de calma e cumplicidade entre os que estão em bastidores, os que já sabem, o que vai acontecer. Local coletivo.

O relato de uma história de bastidores que a marcou

Uma vez, um colega, que entretanto já faleceu, no Teatro Aberto, segundos antes de entrar comigo em cena, vira-se e diz-me: tenho de ir vomitar. Entra tu e vai dizendo o meu texto. Assim fiz. Ele tinha estado num copo d’água à tarde e estava muito indisposto. Voltou para cena depois de vomitar e continuamos o espetáculo como se nada fosse.

Cláudia Lucas Chéu nos bastidores com Albano Jerónimo, Luís Puto e Francisco Leone

De muitas histórias são feitos os bastidores, mais ainda as almas dos atores por a tantos sentires e vivências se entregarem nos palcos. A hora do início do espetáculo é anunciada pelas pancadas de Molière. A vertigem entre real e ficção acentua-se. O ator dá um passo em frente ficando iluminado pela luz cénica. Hoje é o Dia Mundial do Teatro e, embora celebrado em isolamento social, muitas são as iniciativas preparadas para nos brindar com a companhia das palavras sábias que atores enunciam. Os teatros nacionais D. Maria II e S. João assinalaram este dia com a transmissão de peças de teatro online para adultos e crianças, assim como a leitura de poesia. O Teatro Nacional 21 apresentou uma série de 21 leituras e, às 21h, apresentará, em direto, a interpretação de Veneno, um texto de Cláudia Lucas Chéu, por Albano Jerónimo. São apenas alguns exemplos das iniciativas geradas em comemoração desta efeméride. Que se viva o Teatro, hoje e sempre!

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de capa de José Caldeira
gerador-dia-do-teatro