Diana Botelho Vieira apresenta-se como pianista e professora de piano: são as duas áreas a que se dedica neste momento e que “dão muito trabalho e prazer”. Tudo começou na ilha de São Miguel, nas noites de música em casa dos avós, mas foi na Academia de Música da Ribeira Grande que a artista adquiriu as bases sólidas para o conhecimento do instrumento. Em 2003, Diana completou o curso complementar de piano no Conservatório Regional de Ponta Delgada.

Depois de meses de preparação, Diana Botelho Vieira viaja agora pelo país, por várias salas, devido ao espetáculo Folclores Imaginários. “Havia tantas obras para piano solo que queria tocar que nem sabia bem por onde começar”, revela. Pelo caminho, desde setembro de 2019, receberam o recital cidades como Lisboa, Porto, Braga e Caldas da Rainha. Paris também está nos planos.

Gerador (G.) – Dedica-se ao piano. Porquê este instrumento?

Diana Botelho Vieira (D. B. V.) – Acho que nunca cheguei a mencionar isto em nenhuma entrevista, até porque há tanto para dizer. Umas vezes, lembramo-nos de certas coisas, outras vezes, de outras. Mas gostava de referir que, no início dos anos 90, tinha eu 5 ou 6 anos de idade, o ensino de órgão eletrónico em turmas estava muito popularizado em São Miguel, nos Açores, e foi por aí que comecei, já influenciada pelos serões musicais em casa dos meus avós maternos, para onde eu e os meus irmãos íamos passar as férias de verão. Muito pouco tempo depois, esses avós ofereceram-nos um piano vertical Yamaha, porque a minha irmã mais velha já frequentava a Academia de Música da Ribeira Grande, onde nasci, e quis aprender piano.

Pelos relatos dos meus pais, entre os 6 e os 8 anos de idade, ainda sem ter aulas de piano, sentava-me ao piano por iniciativa própria e tocava não só as peças que aprendia nas aulas de órgão eletrónico, como fazia também leituras de melodias populares e de outras pecinhas simples de uns livros que os meus pais tinham lá por casa.

Nessa época, a Academia de Música da Ribeira Grande funcionava com muita seriedade e rigor, fosse nas aulas de instrumento, e era este o foco principal, como nas aulas de conjunto de coro, flautas, formação musical, etc. Obtive bases muito sólidas nessa escola, bases que possibilitariam mais tarde a entrada no Conservatório Regional de Ponta Delgada, onde completei em 2003 o curso complementar de piano com a professora Irina Semenova.

Diria que o piano surge na minha vida antes de mais porque o instrumento já estava presente lá em casa, e depois porque era frequente sentar-me a observar a minha irmã a estudar piano. Aquilo fascinava-me, o estar sentada ao instrumento a estudar, a descodificação das notas, a repetição dos gestos, e o próprio som do instrumento. De tal forma me fascinava que pedi aos meus pais que me inscrevessem nas aulas de piano. Diz-me a minha mãe que, aos 8 anos de idade, eu já dizia que queria ser pianista, ainda sem noção absolutamente nenhuma do que isso significava.

G. – A Diana já andou por vários países em recitais de piano. Sente que existe outra adesão ou apreciação ao piano por parte do público dos diferentes países?

D. B. V. – Claro que sim, mas não creio que tal seja devido unicamente a essa razão, o serem países diferentes. Dentro de um mesmo país, neste caso Portugal, a adesão do público e as suas reações diferem também de sala para sala, e de localidade para localidade, tal como nós, intérpretes, nunca somos – ou sentimos – o mesmo quando repetimos um mesmo programa em várias salas. Portanto, sinto essa questão de uma forma muito global e variável, também. Felizmente, o retorno tem sido bastante positivo!

G. – Estudou piano em Ponta Delgada e agora ensina o mesmo instrumento em Lisboa. Como é que caracteriza o ensino da música em Portugal?

D. B. V. – Falando da área que conheço melhor, o ensino do piano, creio que hoje em dia estamos melhores do que nunca, principalmente no que toca ao nível técnico. Há sempre uma evolução natural das coisas. Portugal tem, a meu ver, uma característica muito peculiar, que é o facto de nunca ter tido uma escola de ensino própria, no que à música diz respeito, em particular no piano. E, ao contrário do que se possa pensar, é até um ponto bastante positivo porque nos permite uma liberdade que a preocupação com uma eventual tradição tornaria menos evidente. Tendo em conta que temos tido nas últimas décadas uma presença muito forte de professores russos, e que atualmente os jovens prosseguem os seus estudos no estrangeiro, onde contactam com formas muito diversas de aprender e de ensinar, acabamos por, aqui em Portugal, ter uma base de ensino muito ampla.

Tive professores russos tanto no Conservatório Regional de Ponta Delgada (Irina Semenova) como na Metropolitana, em Lisboa (licenciatura com Alexei Eremine) e ainda uma professora eslovena em Chicago, durante o meu mestrado em Piano Performance (Ludmila Lazar), que havia estudado com Rudolph Ganz, e que trazia consigo uma grande tradição alemã no ensino do piano. No entanto, não tenho uma escola russa ou alemã na minha forma de tocar ou de ensinar, mas sim uma mistura de tudo o que me ensinaram, e de tudo o que ouvi e vi. Tenho, também, os meus genes e estou sempre recetiva a formas diferentes de tocar e de ensinar desde que para mim, e para o que faço, tenham sentido. A minha geração tem esta característica, somos fruto de uma mistura de formas de pensar e de fazer música, e é assim que vejo, atualmente, o ensino em Portugal.

Depois, existindo a obrigatoriedade atual da profissionalização para se poder ensinar, através do mestrado em Ensino de Música, tal acaba por nos possibilitar a aquisição e desenvolvimento de técnicas de investigação e de uma maior compreensão dos processos de aprendizagem e de ensino do piano. Nesse aspeto, estamos a desviar-nos de uma forma de ensino quase toda intuitiva que muitas vezes se baseava apenas no “deves fazer assim porque sempre se fez assim”, em direção a uma forma de ensinar muito mais informada, que deve ser aliada à experiência e ao sentido crítico que vamos amadurecendo ao longo do tempo.

G. – Considera que o ensino da música está acessível a todos os jovens ou ainda existem lacunas neste aspeto?

D. B. V. – Considero-me uma pessoa ainda jovem e, por isso, tenho de recorrer a relatos de pessoas mais velhas que me contam como era o ensino da música em Portugal há 30 ou 40 anos para poder comparar. O ensino da música era uma área extremamente restrita e centralizada, à exceção das bandas filarmónicas, que eram até há pouco tempo o único sítio onde se podia dar os primeiros passos na música, no que respeita às geografias mais afastadas dos grandes centros urbanos.

Hoje em dia, com a profusão de academias, conservatórios regionais e outras escolas de música, e de forma muito mais descentralizada, e também através de apoios como os contratos-patrocínio, ou do ensino integrado, o aprender música tornou-se muito mais acessível. Assim, um aluno que não tenha posses financeiras para frequentar uma escola de música, dificilmente ficará excluído porque, à partida, a sua frequência poderá ser parcialmente financiada. Não creio que existam já grandes lacunas nesse aspeto. O que sucede, no entanto, é que começam a desaparecer os ideais de esforço e dedicação que são absolutamente necessários para quem pretende estudar música a sério.

Diana Botelho Vieira a interpretar Folclores Imaginários. © Acácio Amaral

G. – Agora também viaja pelo país com o recital Folclores Imaginários. Em que é que se baseia este espetáculo?

D. B. V. – Este é um projeto que nasce como consequência de uma vontade que já tinha há vários anos: preparar recitais de piano com um certo tipo de programa e rodá-lo em várias salas, para perceber qual era a sensação de tocar e amadurecer esse programa ao longo de uma temporada inteira.

Pela natureza da nossa formação académica, demoramos meses a preparar um programa de recital que é apresentado somente uma vez, no final do ano letivo, seja num exame ou num recital final de ano letivo. No ano seguinte, repetimos o processo com um programa diferente. Não criamos o hábito de repetir o programa noutros contextos, ou de manter o programa nos dedos. E esse divórcio é sempre penoso, pois estão encerradas muitas horas de trabalho árduo num conjunto de peças que só tocamos uma vez, e por essa razão, tenho sentido – falo por mim – uma certa insatisfação com os recitais, por que costumava largar as peças prematuramente. Já tive oportunidade de repetir alguns programas de música de câmara, mas nunca tinha feito mais do que duas ou três repetições, o que é pouco para sentir o tal amadurecer de que falo.

Tive sempre este bichinho atrás da orelha em relação à possibilidade da repetição de um programa a solo em muitas salas diferentes. Contudo, escolher as peças para os Folclores Imaginários demorou-me algum tempo, dado que me havia habituado, durante os muitos anos em que me apresentei em público maioritariamente como executante de música de câmara ou em acompanhamentos, a tocar repertório não escolhido por mim.

Havia tantas obras para piano solo que queria tocar que nem sabia bem por onde começar. Queria juntar obras que se coordenassem bem entre si, e que tivessem algum toque português. Surgem assim os Folclores Imaginários, cujo título deriva de uma expressão de origem francesa dos anos 1930 usada para descrever música que utiliza elementos de música popular sem, no entanto, citar diretamente nenhuma melodia específica, isto é, música inspirada na música popular sem desta retirar material, como se fosse um folclore inventado, daí o termo “imaginário”. Quem me falou dessa expressão pela primeira vez foi o meu marido, o compositor Sérgio Azevedo, que estudou com Fernando Lopes-Graça, não por acaso um dos grandes expoentes dessa forma de escrever música em Portugal.

A escolha das peças deveu-se ainda a determinadas circunstâncias: tinha ouvido o António Rosado tocar em recital a 1.ª Suíte In Memoriam Béla Bartók, de Lopes-Graça e fiquei com muita vontade de conhecer melhor a obra; depois a música de Janácek, que já constava do meu dia a dia: ouvia-a em CD durante as viagens de carro, tinha as partituras em cima do piano, e por isso eu e essa música estávamos em fase de sedução; por fim, a música do Sérgio surge de forma muito natural, uma vez que ia ouvindo algumas das peças que ele me mostrava, enquanto outras ele foi-as escrevendo para mim, sendo que a primeira que ouvi, das Peças Rústicas, foi a Dança de Roda, curiosamente a primeira peça para piano que ele escreveu profissionalmente, e que achei fabulosa. Aos poucos, as coisas foram-se encaixando. Não foi fácil, no entanto,preparar este programa porque eu estava ainda muito agarrada à ideia de que um “bom pianista” é aquele que toca antes de mais as obras do repertório canónico. Felizmente, tenho conseguido livrar-me aos poucos dessa ideia castradora, permitindo-me tocar o que me apetece, e tentando fazê-lo da forma mais briosa e honesta possível.

G. – Segundo o site, “Folclores Imaginários é uma expressão a meio caminho entre o rigor musicológico e a liberdade poética”. É possível fazer-se poesia através do piano?

D. B. V. – A poesia é, no meu entender, um veículo que procura transmitir tudo o que é inerente à existência do ser humano e do que o rodeia. Foi também, e desde os tempos mais remotos, uma forma de transmissão oral de histórias entre gerações e povos. Portanto, a poesia está, em certa medida, muito ligada às expressões populares, e assenta neste recital como uma luva. Considero este um recital poético, até certo ponto. E, por isso, sim, é possível fazer-se poesia através do piano, tanto do ponto de vista composicional como do ponto de vista interpretativo. Do ponto de vista da composição da música, terá que ver com a forma como o compositor conjuga notas, ritmos, harmonias, formas, etc.; já do ponto de vista do intérprete será o materializar desses elementos em gesto e depois em som.

As peças deste recital são, como o título do mesmo indica, todas inspiradas na ambiência do folclore português, no caso de Lopes-Graça e Sérgio Azevedo, que é um folclore muito ligado aos meios rurais. Já Janácek era um compositor que tinha por hábito ir apontando sons que ia ouvindo na rua, desde registos de operários, de camponeses, inclusive de sons da natureza (ondas, vento…) e de animais (esquilos, raposas…). Portanto, Janácek estava, de certa forma, a tentar recriar na partitura todas essas expressões do seu país e do seu povo, o que é, no fundo, uma ação poética.

G. – Não se ficou pelos espetáculos e decidiu também gravar discos musicais. Queria deixar a sua marca no mundo da música?

D. B. V. – Nunca esteve nos meus planos gravar CD, senão daqui a muitos anos. Considero este um registo de enorme responsabilidade, tendo em conta as gravações que já temos, no que toca ao repertório para piano solo. No entanto, gravar música de piano para crianças, embora algo que também não estava nos meus planos, surgiu porque existia uma lacuna.

A Toque de Caixa foi o meu primeiro CD, e é inteiramente preenchido com música de piano para crianças de Sérgio Azevedo, lançado sob a chancela do MPMP – movimento patrimonial para a música portuguesa. Todos os projetos que tenho feito com o Sérgio têm surgido de forma muito natural e espontânea, e este CD foi assim. Como dedico uma parte significativa da minha semana a dar aulas de piano, o repertório para crianças surge à baila nas nossas conversas, porque procuro oferecer aos meus alunos repertório bastante variado, e muito raramente repito peças. O Sérgio entende muito bem o universo infantil e foi escrevendo ao longo do tempo dezenas, senão centenas, de pequenas peças, muitas das quais em minha intenção.

Recebíamos repetidamente várias mensagens de professores de piano que queriam comprar peças dele, mas que não sabiam como escolher, porque não as conheciam, até que resolvemos fazer uma seleção das melhores peças dos vários ciclos e gravá-las em CD. Lançámos também, em partitura, editada pela AVA Musical Editions, uma antologia com todas as peças incluídas no disco.

A seguir a este disco gravei com o Saul Picado a integral da obra para piano a 4 mãos para crianças também do Sérgio, e com o mesmo propósito pedagógico. Porque não hão de ter, as crianças, a possibilidade de ouvir as peças que estão a aprender em CD? Embora eu seja uma pianista profissional, habituada a preparar repertório de concerto, não tenho preconceitos em relação a este tipo de projetos, e faço-os com muito gosto.

G. – Alguns dos pianistas mais famosos são Schubert, Mozart ou Beethoven. Ainda existe a ideia de que os melhores pianistas foram os dos outros tempos? Faz falta conhecer nomes da época atual?

D. B. V. – Os três nomes que menciona são mais conhecidos como compositores do que como pianistas. Não os consideraria pianistas na medida em que tocavam quase sempre só a sua própria música. Prokofiev e Rachmaninov, por exemplo, já se situam numa situação um bocadinho diferente porque tocavam mais música de outros compositores sendo que, ainda assim, são considerados “compositores” e não “pianistas”. Um pianista, por definição, dedica-se exclusivamente à interpretação ou, mesmo que também componha, toca muita música de outros compositores e não a dele em particular. A separação entre “pianista” e “compositor” é recente, sendo que, hoje em dia, são raros os compositores que dão recitais de piano, e estou a lembrar-me agora de Thomas Adés, por exemplo, mas não consigo deixar de o considerar, em primeiro lugar, um compositor.

Sinto que começa a surgir esta discussão sobre se os grandes pianistas do passado – Paderewski, Rubinstein, Horowitz, etc – são os derradeiros pianistas de todo o sempre, ou se as coisas estão, de facto, a mudar e daqui a uns tempos teremos um novo grupo de derradeiros pianistas. Claro que é necessário, imprescindível até, estarmos em contacto com o passado, com as grandes tradições, e saber olhar com reverência para esse legado. Contudo, vivemos tempos muitíssimo diferentes hoje em dia, tempos nos quais é impossível recriar essa tradição. Diria até que não deverá existir essa necessidade, pois assim estaríamos sempre em negação em relação ao tempo presente. Os ritmos de vida são outros, os pianos são outros, a forma de ouvir e de estar na música é diferente também. Temos, na minha opinião, nomes atuais muito interessantes, desde os veteranos Grigory Sokolov e Martha Argerich até ao recém-chegado Lucas Debargue…

G. – Lembra-se qual foi a primeira música que tocou no piano?

D. B. V. – Não me recordo, de todo, mas terá sido muito provavelmente algo retirado de algum livro russo de iniciação ao piano que, entretanto, já perdi… ou então uma simples melodia do folclore açoriano…

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Jérôme Arnouf

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