É perfeitamente razoável que, depois de mais de um ano e meio de tareia pandémica, a ciência possa ocupar um lugar no topo das páginas dos jornais que antes seria inacessível.

Este bicho que ainda nos persegue obrigou a opinião pública a ter o discernimento que ciência faz parte da nossa vida diária, que tem consequência nas nossas opções mundanas, e não é reservada apenas para resolver equações matemáticas escritas nas janelas de universidades ou para explicar buracos negros a distâncias incompreensíveis.

Como qualquer assunto que faça parte dos nossos hábitos, a ciência passou a ser amplamente discutida e debatida nos cafés das ruas e nos cafés digitais, as redes sociais. E assim convencionou-se que se poderia conversar sobre ciência como se faz com o futebol, a política ou a ficção televisiva.

Se bem que é de saudar a chegada da ciência a todos, por outro lado, o seu enquadramento como mais um tema de café pode trazer alguns dissabores futuros, nomeadamente sobre a sua credibilidade. Portugal é o primeiro país do mundo na vacinação contra a covid 19 porque se aceita a ciência. Mas pode não ser sempre assim, se deixarmos que a ciência se vulgarize.

Uma sociedade livre é feita de opiniões. Podermos expressar-nos da forma que quisermos é um dos maiores feitos da democracia. Por vezes, talvez exactamente por estarmos numa sociedade livre, temos dificuldade em gerir dimensões certas, que não reservam espaço para discussão. São as certezas científicas que nos permitem construir pontes sobre um rio, alimentar com segurança, usar roupa que se adapta ao nosso corpo e voar para outros continentes.

A ciência não é democrática nas suas conclusões. É absolutista. E assim deve continuar a ser. A ciência deve ter o direito a ser absoluta numa sociedade que promove a multiplicidade de opiniões.

São várias as razões que concorrem para se julgar a ciência como disputável. Uma delas, a meu ver, foi a péssima decisão de se chamar ciências sociais a disciplinas não exatas. Ao contrário das ciências matemáticas ou das ciências da natureza, as ciências sociais são feitas das riquezas das interpretações. Não foi uma excelente escolha de branding.

Mas o principal problema é mesmo uma insuficiente comunicação estruturada sobre a ciência, algo que deve começar nos primeiros anos escolares, quando ainda procuramos os porquês, e que se deveria prolongar para a nossa maturidade, quando duvidamos dos comos.

Se a ciência é tão determinante nas nossas vidas, então devemos procurar dar a conhecer a todos o que é o modelo científico, como se processa, de que forma se anulam as dúvidas, como se verificam as hipóteses e, no final, se chega a uma conclusão inquestionável.

Uma das circunstâncias relevantes para dar a conhecer melhor o trabalho científico é fazer jornalismo sobre ciência. Apesar de, cada vez mais, a ciência estar presente nas capas dos jornais de forma esporádica, reactiva à actualidade, não me parece que existam decisões editoriais de lhe dar uma atenção regular.

Por isso mesmo, sentimos, no Gerador, que era importante prestar esse serviço adicional. Nas próximas semanas vamos anunciar como vamos passar a falar de ciência, trazendo novos parceiros credíveis e abrindo a porta para que mais pessoas, principalmente os jovens, participem.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Tiago Sigorelho-

Tiago Sigorelho é um inventor de ideias. Formado em comunicação empresarial, esteve muito ligado à gestão de marcas, tanto na Vodafone, onde começou a trabalhar aos 22 anos, como na PT, onde chegou a Diretor de Estratégia de Marca, com responsabilidades nas marcas nacionais e internacionais e nos estudos de mercado do grupo. Despediu-se em 2013 para criar o Gerador.

É fundador do Gerador e presidente da direção desde a sua criação. Nos últimos anos tem dedicado uma parte importante do seu tempo ao estreitamento das ligações entre cultura e educação, bem como ao desenvolvimento de sistemas de recolha de informação sistemática sobre cultura que permitam apoiar os artistas, agentes culturais e decisores políticos e empresariais.

Fotografia de David Cachopo
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