Vivem-se anos que parecem reduzidos a semanas, e o tempo passa sem ter o tempo necessário para fazer o que mais se gosta.
É esmagador o compromisso que se assume com o trabalho e como este é colocado, em muitas situações, numa posição superior, hierarquicamente, ao próprio bem estar de cada um. O bem estar, actualmente, está muito ligado a uma estabilidade financeira que parece depender de um compromisso laboral, a tempo inteiro. Esse compromisso laboral que deveria proporcionar a possibilidade de nos alimentarmos cultural, salutar, social e emocionalmente, na maioria das situações apenas permite que o nosso corpo se alimente de bens alimentares, descuidando-nos dos restantes “alimentos” que tanto nos energizam. E tudo parece levar-nos a um caminho que percorremos dia a dia e que não tem princípio nem fim. Acções que se colam e que não permitem reflexão e tempo de paragem, uma verdadeira roda viva.


No meio dessa roda viva, gostava de ter a capacidade de apostar num outro estilo de vida. Gostava de ter a capacidade de não ceder no meu tempo.
Sonho ser produtora da minha vida e geri-la dia a dia sem ter a percepção de que estou sempre atrasada. Bem sei, que poderá ser uma questão muito pessoal e que posso não ter desenvolvido competências de gestão de tempo, mas parece-me que não é apenas isso. Sim, realmente quero sempre fazer muitas coisas, sabendo à partida que o dia não permite tudo, mas também tenho a percepção de que está tudo a acontecer de uma forma super rápida e que nem sempre é a mais desejada. Deixo-me levar pela massificação de informação e de influências que me chegam em diferentes formatos e, muitas vezes, sem tempo de analisar e perceber quais as consequências deste estilo de vida que me prende, e lá estou eu, mais uma vez, nesta corrida que não tem meta.


Assumo tantos compromissos, pessoais e profissionais, que se tivesse mais tempo para decidir não sei se os aceitaria todos, ou se iria negociá-los de outra forma. Não aponto o dedo a algo ou alguém por isto, tento até colocar o ónus deste problema em mim e acabo por ficar, na maioria das vezes, presa a uma expressão: tenho ou não o direito de desligar?


Quando reflicto sobre esta expressão penso que sim, é possível, tem de ser possível. Falo com amigos, que de alguma forma, alteraram a sua forma de estar e agora têm um ritmo de vida menos acelerado, mas acabo por voltar à minha realidade, neste caso à minha cabeça — sinto-me atrasada. Sinto-me muitas vezes atrasada e até atrasada para tomar a decisão de ter de parar.
Não sei se este meu sentimento se deve à máxima “em Portugal, por norma, o prazo é para ontem”. Mas, na realidade, esta expressão diz muito sobre como nos são impostos os prazos no trabalho e como os conjugamos com as decisões na vida pessoal. E eu sinto-me privilegiada no que diz respeito à minha relação com a entidade empregadora, mas mesmo assim o tempo passa sem me dar tempo.
E se em meados de janeiro deste ano foi aprovada, pelo Parlamento Europeu, uma proposta que recomenda a esta Comissão legislar sobre o “direito de desligar”, posso afirmar que andamos, mesmo, todos, e não apenas eu, a não conseguir definir a fronteira entre o trabalho e a vida privada/pessoal. E neste último ano em que nos vimos ainda mais ligados à tecnologia e ao trabalho online reforçou-se este sentido de estar sempre em acção. E é incrível dar comigo a pensar: uau! Como sou boa a gerir o meu tempo, ainda hoje, enquanto enviava um email, atendi um telefonema e consegui em simultâneo preparar legumes para adiantar uma sopa. Rentabilizei ou desregulei o meu tempo? Não podia ter feito cada uma das tarefas a seu tempo? Acho que, como ando, me iria voltar a sentir atrasada.
Só ainda não percebi muito bem para ou porque me sinto realmente atrasada.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva


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