Os diretores dos três teatros nacionais e da Companhia Nacional de Bailado foram desafiados pelo primeiro-ministro a criar uma programação artística online para celebrar a revolução do 25 de abril, disse à Lusa o encenador Tiago Rodrigues.

"Pela primeira vez na história da democracia do país, os portugueses não poderão, infelizmente, festejar juntos, nas ruas, o dia da revolução, devido à pandemia covid-19", comentou o diretor do Teatro Nacional D. Maria II.

Por essa razão, o primeiro-ministro, António Costa, desafiou os diretores dos teatros nacionais - D. Maria e São Carlos, em Lisboa, e o São João, no Porto - e da Companhia Nacional de Bailado, a "imaginarem, em conjunto, uma proposta de celebração em que os portugueses festejem online", indicou Tiago Rodrigues.

Devido às restrições exigidas pelo combate à pandemia da covid-19, não será possível a realização habitual dos festejos, nomeadamente de manifestações e desfiles, já que o estado de emergência do país deverá ser estendido até maio.

"A proposta que vamos criar em conjunto será também um desafio aos artistas para pensarem o que significa celebrar o 25 de abril em que não podemos estar juntos", apontou.

Tiago Rodrigues disse que será estranho para os portugueses não irem para as ruas numa data histórica em que a esmagadora maioria celebra em público, mas disse esperar que a programação online que será criada "para verem em casa, esteja à altura destes tempos desafiantes para todos".

"É nisso que estamos a trabalhar muito intensamente, para criar essa resposta artística", que será anunciada em breve, segundo o diretor e encenador.

A resposta à questão "como festejar o 25 de abril sem estar juntos" é "extremamente importante porque não podemos deixar de celebrar este momento tão importante da história do país", disse.

"Entristece-me não poder sair para a rua para festejar, porque é isso que eu costumo fazer, e muitos portugueses, mas estes tempos excepcionais exigem respostas excepcionais", comentou o diretor do Teatro Nacional D. Maria II à Lusa.

Tiago Rodrigues salientou que, neste momento, os seus pensamentos de compaixão e de solidariedade vão primeiro para as vítimas e seus familiares, para os profissionais de saúde, mas também para os milhares de artistas que perderam a sua atividade.

"Todos fomos atingidos e temos de enfrentar este momento complexo e cheio de incerteza", disse o encenador, um dia depois de saber do cancelamento da estreia da sua peça "Blindness and Seegin" ("Cegueira e visão"), baseada nas obras do Nobel da Literatura José Saramago, "Ensaio sobre a Cegueira", e "Ensaio sobre a Lucidez".

A peça estava prevista para estrear em agosto pela Royal Shakespeare Company, no Swan Theatre, em Stratford-upon-Avon, cidade natal do autor inglês William Shakespeare

"Era um projeto que eu vinha trabalhando há quase dois anos a convite da companhia e é com muita tristeza que o vejo ser cancelado, mas, ao mesmo tempo, com muita compreensão pela necessidade de proteger o público", comentou.

O "Ensaio sobre a Cegueira", publicado em 1995, narra a história de uma doença que se espalha por uma cidade interrompendo a vida normal das pessoas e abalando as estruturas sociais.

"A ironia é que uma peça sobre uma epidemia ficcional acaba por ser cancelada por uma epidemia real", comentou o dramaturgo.

Texto de Lusa
Fotografia de Manos Gigkas via Unsplash

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