É lamentável, mas continua a perpetuar-se. Num mundo onde cada vez mais temos a oportunidade de comunicar, de debater, de nos informarmos acerca das lutas e sofrimentos de outros, continuamos a insistir em assobiar para o lado. Fingimos que não vemos ou que as coisas não merecem atenção, perpetuando o preconceito através da passividade.

Pela nossa inação, as fronteiras ténues entre a paródia e a discriminação continuam a ser ultrapassadas de uma forma que se torna já cansativa e desgastante. Há vários exemplos recentes que mostram isso mesmo, mas bastam três para explicar o que se pretende.

Primeiro exemplo: homofobia

Há pouco mais de uma semana, Adolfo Mesquita Nunes, que, junto com Pedro Farromba, encabeça uma lista candidata à Câmara Municipal da Covilhã (Assembleia Municipal e presidência do executivo, respetivamente), foi alvo de uma paródia no mínimo escusada. O grafismo das imagens de campanha na qual se apresenta a fotografia dos dois candidatos surge adulterado. O slogan, “Juntos Fazemos Melhor”, foi modificado para - perdoem-me a expressão - “Juntos Fodemos Melhor", sendo ainda adicionada a pergunta: “Qual deles é a gaja?”

Esta não é a primeira vez que Adolfo Mesquita Nunes é atacado publicamente pela sua assumida homossexualidade. Há quatro anos, também durante uma época de campanha, um cartaz do candidato centrista foi vandalizado com palavras que faziam referência à sua orientação sexual. Corajosamente, diga-se, Mesquita Nunes nunca tentou esconder estes ataques, preferindo trazê-los à vista de todos.

Há, no entanto, que frisar que desta vez a “piadinha” teve um grau de esforço superior. “Há 4 anos, corajosos anónimos grafitaram um cartaz da minha campanha. Hoje, ainda anónimos, mas mais sofisticados, gastam dinheiro a imprimir e distribuir panfletos com as piadinhas que podem ver”, afirmou o próprio Mesquita Nunes na sua página oficial do Facebook.

Infelizmente continuamos a encarar este tipo de situações com pouca seriedade. Encolhemos os ombros e assobiamos para o lado, porque, afinal de contas, cuspir insultos com base na orientação sexual não é propriamente algo de inédito.

Segundo exemplo: racismo

Uma frase breve permite chegar ao assunto que pretendo: Romualda Fernandes e uma notícia da Agência Lusa. Durante esta semana, assistimos à disseminação de uma notícia redigida por um jornalista acreditado da Agência Lusa, na qual, à frente do nome da deputada estava escrito entre parênteses, a palavra “preta”.

Embora sem conhecimento de causa, arriscaria dizer que o termo não era suposto estar incluído na versão final da notícia, mas faria parte de um texto de rascunho da dita peça. Seja como for, não foi preciso muito tempo para que as caixas de comentários das redes sociais se enchessem de teses iluminadas que insinuavam que a distinção é normal, já que Romualda Fernandes tem, de facto, a pele escura. Há, no entanto, uma coisa que muitos destes críticos de teclado continuam sem perceber: ao contrário de todos os outros deputados referidos na notícia, Romualda Fernandes é a única que é distinguida por uma característica física. Se todos os outros são descritos pelo seu nome próprio, por que razão a deputada tem esta palavra à frente do seu nome?

A definição de discriminação é precisamente esta: um tratamento que é desigual relativamente a outros. Uma ação que, aliás, se continua a perpetuar por falta de autocrítica, a meu ver. Quantos de nós questionam as próprias convicções, hábitos e comportamentos para poder alterá-los no futuro? Quantos de nós se dizem contra a discriminação, mas que depois se deixam arrastar por aquilo que dizem ser “o hábito”, de falar de certa forma?

Terceiro exemplo: género

Sim, género. No século XXI, continuamos a lutar para contrariar a discriminação de género. Este caso é, talvez, o mais típico exemplo do conformismo ideológico e social a que continuamos a assistir (falo em conformismo, porque é mais fácil perpetuar o preconceito do que combatê-lo ativamente).

Para ilustrar este facto, dou o exemplo do recente movimento #MeToo português, em que inúmeras personalidades de vários quadrantes têm vindo a público denunciar situações de assédio sexual pelas quais passaram.

A discussão deste assunto leva-me a assistir a muitas reações de indiferença, que olham com aborrecimento para os testemunhos que têm sido divulgados. Muitas dessas reações são de homens, mas a verdade é que também há mulheres que desvalorizam a situação. E fazem-no, precisamente, porque é “normal” uma mulher ser abordada na rua, é “normal” ouvir comentários machistas, e é “normal” ter de lidar continuamente com abordagens que fazem de nós objetos sexuais.

Está na altura de levantar a voz contra esta normalidade, mesmo que seja à custa do incómodo dos outros. Sei, por experiência própria, que muitas vezes é difícil ser a voz dissonante, mas está na hora de perceber que não fomos feitas para agradar.

Para conseguirmos viver numa sociedade mais justa, urge levantar a voz e insistir em ser irritantes. Contrariar a discriminação, seja ela qual for, começa sobretudo na atitude com que cada um de nós a encara. Se escolhemos calar-nos perante a injustiça estamos apenas a ser complacentes com o insulto, o preconceito e o abuso.

Pode ser clichê dizer que a mudança começa em cada um de nós, mas esta é a verdade. Enquanto não questionarmos as nossas próprias atitudes, vocabulários e silêncios estamos a contribuir para a estagnação. Por isso...

Elevem a voz, digam não ao silêncio, pois quem cala consente!

-Sobre Sofia Craveiro-

Espírito esquizofrénico e indeciso que já deu a volta ao mundo sem sair do quarto. Estudou Ciências da Comunicação nesse lugar longínquo é a Beira Interior, e fez o mestrado em Branding e Design Moda, no IADE/UBI, entre Lisboa e a Covilhã. Viveu tempos convicta a trabalhar na área da Moda até perceber que não tinha jeito nenhum. Apaixonou-se pelo jornalismo ao integrar um jornal local teimoso e insistente que a fez perceber o quanto a informação fidedigna é importante para a vida democrática. Desde essa altura descobriu também que aprecia ser In.so.len.te e que gosta de fazer perguntas para as quais não tem resposta. Encontrou o seu caminho nesta casa chamada Gerador, onde se compromete a suar a alma em cada linha escrita.

Texto de Sofia Craveiro
Fotografia da cortesia de Sofia Craveiro