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Do leopardo ao Il Gattopardo

Nas segundas Gargantas Soltas de hoje, Manuel Luar leva-nos até à Sicília e abre-nos o apetite com uma receita de sardinhas recheadas."Depois unem-se as duas metades com palitos e ficam com um aspeto de pardais bem gordos (daí o nome Becaffico, que é uma ave local da família das felosas, sempre bem gorda por se alimentar de figos maduros na época deles)."

Ilustração de André Carrilho

Uma das mais belas criaturas do mundo é celebrada neste dia 4 de agosto, tendo por objetivo a proteção da espécie. Trata-se do leopardo nebuloso (Neofelis nebulosa), espécie que habita os sopés do Himalaia, o Nepal e a Índia, até ao sul do grande rio Yangtzé, já na China.

O leopardo não só é um animal de enorme beleza plástica como por coincidência é também o nome de um dos meus filmes preferidos “Il Gattopardo” de Visconti.

Foi Thomaso di Lampedusa – no seu livro onde o filme se baseou - que pôs na boca de Tancredi Falconeri  (no filme era Alain Delon a começar a carreira) a conhecida frase:

"- Por vezes é preciso que as coisas mudem para que tudo fique na mesma..."

Na Itália que se queria moderna de Verdi, Garibaldi e de Victor Emanuel retratada no "Il Gattopardo”, a mudança em prática era sobretudo para "os olhos do povo", perpetuando-se de facto e por detrás da cortina de fumo mediática, o "anterior regime" com as suas querelas, vícios e desmandas.

Este lampejo de glória cinematográfica passada na Sicília em redor de 1860 leva-nos logo a salivar pela admirável cozinha local, muitas vezes apropriada pelos “gringos” através do nome, sem mais conotações gastronómicas e etnográficas de origem.

Para quem gosta de romances policiais recordo Andrea Camilleri, um autor siciliano, que criou a personagem Salvo Montalbano, comissário de polícia na imaginária cidade de Vigàta, nome que esconde a terra natal do escritor, Porto Empedocle, província de Agrigento, Sicília.

O nome do "colega" Montalbano é uma homenagem a Manuel Vasquèz Montalbán, de quem Camilleri era admirador e amigo.

Montalbano, para fazer jus ao homenageado, é também gastrónomo, com uma particular predilecção por pratos de peixe típicos da Sicília. E da leitura das aventuras de Montalbano, muita coisa se aprende sobre a gastronomia siciliana. E não, não se come só pasta e pizza! Pelo contrário.

Para rematar em beleza e homenagem à Sicília gastronómica aqui deixo a minha interpretação de um prato original do local: “Sarde a Becaffico”.

São sardinhas na melhor época delas, que são abertas ao meio, despinhadas e recheadas com pão ralado, miolo de pinhões, anchovas e passas de uva.

Depois unem-se as duas metades com palitos e ficam com um aspeto de pardais bem gordos (daí o nome Becaffico, que é uma ave local da família das felosas, sempre bem gorda por se alimentar de figos maduros na época deles).

O acabamento depende das regiões. Em Palermo são assadas no forno, noutros locais podem ser panadas e fritas na frigideira.

De lamber os dedos.

E para acompanhar? Sai um “GADÌ BIANCO DI PANTELLERIA DOC SALVATORE MURANA 2016”.

Recomendado pela minha vizinha Romina (que tem um belo “Ristorante” no Estoril, La Massa). Custará cerca de 17 euros e pode ser comprado por correspondência.

Pantelleria DOC é uma das designações mais meridionais da Itália, pois corresponde ao território de Pantelleria, uma ilha a meio caminho entre a Sicília e a Tunísia. Apesar de ser composto por vários tipos de castas brancas, tem um importante denominador comum: as uvas Zibibbo que entram sempre no lote.

-Sobre Manuel Luar-

Manuel Luar é o pseudónimo de alguém que nasceu em Lisboa, a 31 de agosto de 1955, tendo concluído a Licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE, em 1976. Foi Professor Auxiliar Convidado do ISCTE em Métodos Quantitativos de Gestão, entre 1977 e 2006. Colaborou em Mestrados, Pós-Graduações e Programas de Doutoramento no ISCTE e no IST. É diretor de Edições (livros) e de Emissões (selos) dos CTT, desde 1991, administrador executivo da Fundação Portuguesa das Comunicações em representação do Instituidor CTT e foi Chairman da Associação Mundial para o Desenvolvimento da Filatelia (ONU) desde 2006 e até 2012. A gastronomia e cozinha tradicional portuguesa são um dos seus interesses. Editou centenas de selos postais sobre a Gastronomia de Portugal e ainda 11 livros bilingues escritos pelos maiores especialistas nesses assuntos. São mais de 2000 páginas e de 57 000 volumes vendidos, onde se divulgou por todo o mundo a arte da Gastronomia Portuguesa. Publica crónicas de crítica gastronómica e comentários relativos a estes temas no Gerador. Fez parte do corpo de júri da AHRESP – Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal – para selecionar os Prémios do Ano e colabora ativamente com a Federação das Confrarias Gastronómicas de Portugal para a organização do Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa, desde a sua criação. É Comendador da Ordem de Mérito da República Italiana.

Texto de Manuel Luar
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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