Por que é que decidiram falar sobre o Doclisboa 2018?

As luzes já estavam apagadas, por isso a sala fica apenas um pouco mais escura quando a tela se apaga completamente. Depois, há aquele silêncio que dura um ou dois segundos, mas neles parece que o tempo pára. Esse tempo resume todos os minutos de imagens em movimento que as câmaras captaram ao longo da obra. Esses segundos são a transição entre a nossa vida e uma vida que o realizador nos impõe. E ele pode impor-nos tantas vidas quantas pretender, porque estes filmes são coletâneas da realidade, fragmentos do mundo real, histórias. E não há histórias sem pessoas.

De seguida, as luzes acendem, a sala volta a ter um teto e paredes. E voltamos de novo à realidade. Ou melhor, à nossa realidade. Porque o Doclisboa é um festival de documentário, e a ficção, aqui, fica de parte. Mas a realidade a que voltamos, será sempre uma realidade pós-documentário, e a memória não pode apagar o que os olhos viram. Este ano, a 16ª edição do Doclisboa, organizada pela Apordoc (Associação pelo documentário), trouxe 243 filmes documentais à capital portuguesa, de 18 a 28 de outubro. Foram, pelo menos, 243 as vezes em que as luzes se acenderam e apagaram. Quem quiser, pode até multiplicar este número pela quantidade de histórias que o festival dá a conhecer, e estimar por alto quantas vidas couberam nas telas durante os dez dias.

 

Sala do Cinema São Jorge

Sala do Cinema São Jorge

O que é exatamente?

“Um festival internacional, que tem a dualidade de uma programação atenta a Lisboa e às narrativas no mundo. Trazer preocupações para o festival, encontrando filmes que mostrem as situações políticas do momento, é o que queremos, que a programação espelhe o que pode ser o panorama do cinema documental a cada momento. Queremos mostrar as preocupações no sentido estético, formal e de conteúdo”, declara Miguel Ribeiro, um dos programadores do Doclisboa há já bastantes anos.

Miguel é um dos responsáveis por selecionar, de entre muitas candidaturas de filmes ao DocLisboa, quais as que têm um final feliz. Enquanto festival de cinema documental, o programador afirma que o Doclisboa demonstra uma procura pela sua independência e singularidade a cada edição, mantendo a variedade e abrangência plural no que apresenta, a riqueza de histórias e uma seleção rigorosa e cuidada.

Para Miguel Ribeiro, cada secção é uma proposta complementar e todas dialogam entre si. “São como várias ilhas com muitas pontes entre elas”, afirma, deixando transparecer a ideia de que cada uma tem uma proposta muito clara, mas deixa, no entanto, espaço suficiente ao espetador para que possa encontrar caminhos e relações evidentes que, ao mesmo tempo, complexifiquem.

“O cinema de urgência, por exemplo, é uma secção muito diferente, porque é toda construída por vídeoativistas que denunciam situações de abuso policial ou de poder. Permitem interpretar as imagens como uma experiência de cinema coletiva. Já os Verdes Anos, outro exemplo, é uma secção que tem vindo a assumir novos desafios e a desenvolver-se. E é muito importante, porque é onde encontramos as sementes do que está para vir no cinema português, os novos olhares, as novas linguagens. As primeiras experiências estão nesta secção, e isso é bonito de se acompanhar. Está ali o que devemos ter em atenção nos próximos anos”, declara.

Entrada da Culturgest

O que é que vale mesmo a pena?

Quando alguém tenta explicar o que é o Doclisboa, há muitas vezes um movimento de mãos e um silêncio contra o qual se luta, num esforço que deixa entrever a sensação de que, com palavras, a descrição nunca será muito justa, pois ficará sempre aquém do que as imagens (que, no fundo, são o Doclisboa) nos trazem.

António Lourenço responde a esta questão sem que seja, contudo, preciso fazer-lhe sequer a pergunta: “O Doc é isto, é trazer ao cimo as questões sociais, falar de assuntos que estão a acontecer pelo mundo e chamar a atenção para questões realmente importantes e que nos fornecem conhecimento”.

António já viu passar muitos anos e já participou em muitas edições deste festival internacional de cinema. Profissionalmente, foi cantor lírico e, depois de abandonar a carreira, dedicou-se ao trabalho de escrita no Jornal dos Reformados, que hoje já não existe. Felizmente, tem agora tempo para se dedicar à cultura e pode escrever no seu blogue o que em tempos colocou nas páginas do jornal. António só frequenta os eventos culturais gratuitos, o que é, para si, uma grande injustiça. Mas a sua força de vontade, que a idade claramente teima em não conseguir apagar, não tem ainda poder sobre isso.

No final da conversa, sorri, e comenta com agrado que, por obra do destino ou não e por coincidência ou não, acaba sempre por conversar com muita gente nos eventos culturais que frequenta, como agora o faz, ali num canto do Cinema São Jorge, ou até durante outras alturas do festival. Sejam encontros por mero acaso ou não, António explica que fica feliz por poder cruzar-se com muitas pessoas diferentes e partilhar uns minutos de conversa.

Átrio do Cinema São Jorge

Para este admirador de arte, o auge da cultura em Portugal foi por volta da década de 90, sobretudo no São Carlos. Mas desde os seus dez anos que António Lourenço recolhia já dados para poder, mais tarde, elaborar esta tese. Nessa altura, sempre que possível, dirigia-se ao Teatro na zona do Chiado, onde chegou a ficar durante 5 horas em pé, na claque, a ver deliciado o que acontecia em cima do palco. “Lá só se pagava 5 euros”, explica. Agora sentado num sofá castanho escuro colocado a um canto do Cinema São Jorge, lamenta não ter podido ver a Maria Callas quando ela veio a Lisboa, porque era muito caro. No entanto, conta, logo de seguida, que já teve o privilégio de estar na terra do Wagner e que conheceu Jacqueline du Pré e o marido. “Sabe quem foram, certo? Tenho um autógrafo deles!”, exclama, com o rosto visivelmente entusiasmado.

O tempo, ali no átrio do cinema, passa ao mesmo tempo que a conversa se desenrola, e, entretanto, às 21h30, as luzes vão apagar-se na sala para onde António se dirige de seguida, dando lugar à projeção na tela. “Amanhã vemo-nos no Rostropovich”, diz, como se expressasse um facto assumido. Depois de olhar com a cabeça ligeiramente inclinada em todas as direções, volta subitamente à conversa. “Vai ver, não vai?”, pergunta, como se não houvesse margem para mais do que uma resposta, e acrescenta, de seguida, que o violoncelo é o instrumento mais parecido com a voz humana. António Lourenço tem de ir para a sessão das 21h 30, mas detém-se quando se apercebe que o horário do filme sobre o violoncelista que se estreia amanhã colide com o horário da Competição Portuguesa.

O músico já viu muitos filmes portugueses, mas com bastantes anos em si para poder ter já mudado de opinião sobre os assuntos, conta que, com o tempo, acabou por vir a detestar Manoel de Oliveira. “Os filmes portugueses não têm encadeamento, são muito parados”, declara. “Mas olhe que hoje em dia há muitos filmes portugueses que não são reconhecidos aqui dentro e lá fora são um êxito. Sei que ultimamente têm sido premiados uns quantos filmes nacionais na Rússia, em Moscovo”, afirma, com satisfação e desagrado alternadamente. Pelo que este senhor da cultura conta, parece que, para si, o reconhecimento nacional está um pouco desorientado, e que, tal como António agora procura qualidade fora das fronteiras, só a muitos milhares de quilómetros de distância o cinema português tem, de facto, ganhado vida.

Programa do Doclisboa 2018

Há sempre uma história lateral que merece ser contada. Qual é essa história?

Inês Pedrosa e Melo está separada de Lisboa por milhares de milhas neste momento, mas isso não a torna menos portuguesa. Chegou ontem à noite a São Francisco, na Califórnia, onde vive. Regressa de Lisboa, veio ao São Jorge apresentar a sua curta, selecionada para a secção Verdes Anos do Doclisboa 2018. “Foi a primeira vez que apresentei um filme num festival. E foi lá assistir muita gente que não estava à espera que fosse. Fiquei muito contente por poder mostrar um filme naquela sala, em frente ao meu público, no meu país”, conta a jovem cineasta.

Aos 13 anos, Inês mudou-se para Lisboa, a cidade que dá nome ao festival. “Tenho uma relação especial com o Doclisboa. A minha mãe sempre me levou ao Doc, e é, sem dúvida, um sítio onde se vê filmes que não se consegue ver noutros locais. Às vezes, ela fazia-me ver filmes que não queria”, relembra, com bom humor. De seguida, confessa que a mudança para os EUA a levou a entender que, no nosso país, não há acesso a muitos obras da sétima arte que são feitas pelo mundo fora e mesmo às que são produzidas pelos próprios portugueses e estão fora das salas de cinema.

Foi a partir da sua licenciatura que Inês começou a procurar o cinema português. “É o meu país, estarei sempre ligada a este meio”, afirma. “O cinema português tem mudado nos últimos anos, com a Leonor Teles e o João Salaviza, por exemplo”, diz a jovem, para quem muitos filmes portugueses não chegam ao público porque não há interesse das distribuidoras e porque o problema do cinema português reside no facto de estar muito fechado sobre si mesmo, muitas vezes por uma questão de acesso. Contudo, Inês olha para o futuro com otimismo. “Eu acho que cada vez mais o cinema português se está a abrir para o mundo e a encontrar contextos para novos temas. E esta nova geração de realizadores tem potencial para abrir os discursos”, declara.

Inês Pedrosa e Melo, à direita, na apresentação da sua curta na sessão dos Verdes Anos

Atualmente a concluir o mestrado na Universidade de Stanford, para o qual conseguiu uma bolsa de estudo, Inês admite que gostava de ficar fora do país durante mais um ano e tenciona começar a trabalhar. “Não podemos viver só dos filmes que fazemos. Talvez tente ir para Nova Iorque no próximo ano, mas depois quero voltar a Portugal. Já tenho uma ideia e quero voltar a Portugal”, diz a jovem estudante de cinema.

No Doclisboa 2018, Inês Pedrosa e Melo apresenta “Notes on Living”, uma curta onde explora a vida e a morte a preto e branco. Na sua obra, fala-se sobre Colma, uma localidade na Califórnia que acolhe mil habitantes e onde se encontram dois milhões de campas. “Alguns dos cemitérios são lindos. Tentei retratar uma maneira diferente de estar na vida perante a morte. Fascina-me que com tantos tabus e desconforto, estas pessoas lidam com a morte no dia a dia, são pessoas que vêm todos os dias a morte”, conta.

Inês fez o primeiro documentário da sua vida sobre uma república estudantil em Coimbra, onde nasceu. Cinéfila desde pequena, admite que gostava de ficar em casa a ler e a ver filmes, que na altura eram, para si, um escape. “O cinema para mim é tudo, e estou sempre a pensar se isto dava um filme ou um documentário engraçado. Quando era miúda, queria inventar histórias, achava que a vida real não era tão boa como a ficção. Mas mais tarde percebi que a vida real consegue ser muito mais incrível do que a ficção. A realidade às vezes é boa ou má demais para as pessoas acreditarem nela, mas há uma riqueza de histórias fascinante na vida real, e quero criar uma plataforma para as pessoas poderem contar as suas histórias”, afirma.

Depois de uma pausa no discurso, Inês expressa o que os seus vinte e quatro anos já conseguem dizer, imprimindo a mesma certeza na fala do que, por exemplo, António Lourenço, que anos já os tem em número muito maior: “Quero ajudar as pessoas a perceberem qual a sua posição no mundo e a sentir que ganharam algo de novo, um conhecimento novo sobre o mundo e sobre si próprias”.

Bancada no Cinema São Jorge

Se eu quiser saber mais sobre este tema onde posso ir?

No site do Doclisboa pode-se aceder a vários conteúdos e informações, assim como nas contas de Facebook, Instagram e Twitter. O Doclisboa decorre todos os anos na capital portuguesa, promovendo o cinema documental e trazendo ao público a proximidade a diversos assuntos e histórias a um preço acessível, assim como a possibilidade de contactar com figuras do cinema português e internacional. Abrindo o debate e a discussão pública, e organizando diversos eventos por toda a Lisboa, o festival tem vindo a marcar cada vez mais o panorama mundial desta arte da realidade.

Texto e fotografias de Carolina Gaspar
O Gerador é parceiro da Apordoc

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