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Doclisboa: o mundo do cinema documental regressa em outubro

Exibições dos filmes programados vão decorrer nas salas habituais do festival: Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema e Cinema Ideal.

Texto de Redação

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“Em Outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa.” É assim que a organização do Doclisboa’23 apresenta a 21ª edição do festival que decorre entre 19 e 29 de Outubro na capital. Ao todo, são 250 filmes de 42 países, entre eles 35 estreias mundiais e 39 filmes portugueses, “que revelam o pulsar do mundo e daqueles que o habitam”, segundo os promotores.

As sessões decorrem nas salas habituais do festival: Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema e Cinema Ideal.

Os destaques da programação incluem uma viagem ao “interior do cérebro humano pela lente de Werner Herzog (Theater of Thought) e pelas questões prementes do trabalho em The Liberated Broom, Listen to the Story I Was Told, de Coline Grando”. O festival vai ainda mergulhar nas memórias de guerras passadas e na guerra actual na Ucrânia (Vyrai, Magdalena Mistygacz, Jakub Stoszek; Waking Up in Silence, Mila Zhluktenko, Daniel Asadi Faezi), nos arquivos do cinema (The Cemetery of Cinema, Thierno Souleymane Diallo), na música (Lovano Supreme, Franco Maresco; Peter Doherty: Stranger in My Own Skin, Katia deVidas) e na dança (Seven Jereles, Pedro G. Romero, Gonzalo García Pelayo).

Durante a conferência de imprensa, que decorreu dia 27 de setembro na Culturgest, foram apresentados filmes da programação que espelham o diálogo permanente entre passado e futuro que caracteriza o cinema: um inédito de Orson Welles em Portugal, Portrait of Gina, e o documentário de Stephen Kijak, Rock Hudson: All That Heaven Allowed, à volta do actor e galã dos anos 1950, celebram a idade de ouro de Hollywood, enquanto que a retrospectiva dedicada ao cinema do período do New Deal norte-americano, programada em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, retrata um país em ebulição.

Hunger 1932, Workers Film and Photo League

Com os olhos postos no porvir que já está aí, Human, not Human, de Natan Castay, acompanha um homem que passa horas a desfocar rostos no Google Street View por um cêntimo cada, afundando-se num mundo robotizado que levanta a questão de humanidade. E Markku Lehmuskallio mostra as pressões exercidas pelo homem e pela tecnologia no mundo natural em Sounds of the Northern Forest, um dos filmes da retrospectiva conjunta com Anastasia Lapsui que o Doclisboa apresenta.

“A Competição Internacional viaja este ano por 16 países, incluindo Portugal, e conta com 6 estreias mundiais. Dos 39 filmes portugueses presentes na edição deste ano, 9 integram a Competição Portuguesa e, destes, 7 são estreias mundiais”, diz a organização.

Da Terra à Lua traz uma paleta de 23 possibilidades de cinema, da escuridão dos julgamentos das juntas militares da última ditadura argentina revelada por Ulises de La Orden em The Trial; à luz que emana da comunidade algarvia da ilha da Culatra nos anos 1970, filmada por Amilcar Lyra em Areia, Lodo e Mar, e do território da aldeia natal do cineasta guarani Alberto Álvares, que em conjunto com José Cury lembra em Yvy Pyte – Coração da Terra que toda a fronteira é uma invenção.

“As paisagens com laivos de ficção científica de Strata Incognita, assinada pelos colectivos Grandeza Studio e Locument, são tão pungentes quanto as violentas tradições das forças militares bielorrussas que conhecemos em Motherland, de Alexander Mihalkovich e Hanna Badziaka, ou as histórias de violência captadas pela lente de Danielle Arbid numa rememoração da guerra civil do Líbano (A Killer; Alone with War)”, conforme descrito. Da Terra à Lua mostra ainda filmes de Nafis Fathollahzadeh, Maxime Martinot, Uma Celma, Julien Elie, Veljko Vidak, Coline Grando e Nicolas Peduzzi.

Os 21 filmes das secção Heart Beat revelam - além dos já anunciados filmes dedicados a Luis Ospina, Joan Baez e Luis Miguel Cintra – Let the Canary Sing, retrato íntimo de Cyndi Lauper assinado por Alison Ellwood; Big Bang Henda, de Fernanda Polacow, viagem pelas criações e reflexões do artista angolano Kiluanji Kia Henda; as raízes do flamenco espanhol em Seven Jereles, de Pedro G. Romero e Gonzalo García Pelayo; ou a história de um grupo de atletas queer que decide honrar os excluídos e mostra como fazê-lo em Life Is Not a Competition, But I’m Winning, de Julia Fuhr Mann.

Portrait of Gina, Orson Welles

Heart Beat mergulha também na vida e obra da extraordinária Agnès Varda (Viva Varda!, Pierre-Henri Gibert) e mostra ainda filmes de Jan Moss, Wincy Oyarce, Pedro Florêncio, Patricia Allio e Justine Harbonnier.

Na secção Riscos, às já anunciadas obras dos cineastas convidados Mika Taanila e Paula Gaitán junta-se o verdadeiro acontecimento que é Frente a Guernica, novo filme de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi (já falecida), projecto idealizado em conjunto, como tantos outros da dupla, e que, nas palavras de Gianikian, é um “trabalho político, artístico e histórico sobre a violência do século XX”. Na produção nacional, Edgar Pêra revisita a obra e os heterónimos de Fernando Pessoa, num surpreendente thriller psicológico-literário: Não Sou Nada – The Nothingness Club.

Destaque ainda para Revolution+1, onde o rebelde do cinema subversivo Masao Adachi faz a reconstrução ficcional do assassinato do antigo primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, e para os trabalhos de Luciana Fina, Peter Schreiner ou do colectivo Terrorismo de Autor, peças de uma secção sempre atenta à irreverência e à experimentação.

Incluída na secção Riscos, Shadowboxing é uma novidade desta edição, com curadoria de Cíntia Gil e de Jean-Pierre Rehm, e desenha uma possibilidade de mundo – uma mundividência movida por um interesse determinante e preciso no cinema, imaginada por dois programadores que dialogam em imagens e movimentos – de Crashing Waves (Lucy Kerr) a The Connection (Shirley Clarke), a Notes for a Film (Ignacio Agüero).

Fogo no Lodo,Catarina Laranjeiro e Daniel Barroca

Dos Verdes Anos, lugar por excelência dos jovens realizadores contemporâneos, destacam-se 19 estreias provenientes de 15 países e ainda a colaboração com a Universidade de Artes de Helsínquia, janela privilegiada para espreitar o cinema finlandês de hoje.

O programa educativo abcDoc aposta na força do documentário como ferramenta pedagógica e ponto de partida para conexões com outros mundos. Nebulae, programa dedicado à indústria e ao networking no festival, decorre de 19 a 24 de Outubro e promove actividades e encontros que fomentam o desenvolvimento, criação, produção e divulgação de diferentes Constelações de cinema independente.

Todos os detalhes da programação, júris, secções competitivas e prémios (entre elas o novo Prémio Direitos e Liberdades) estão já disponíveis em doclisboa.org. As bilheteiras físicas da Culturgest, Cinema Ideal e Cinemateca, e online em Blueticket e Ticketline, estão também abertas.

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