O Teatro do Noroeste – Centro Dramático de Viana recebeu no passado dia 3 de junho a ante-estreia de “Casa ENVC – Instantes e Memórias”, um documentário que assinala os 75 anos do surgimento do Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC). Dezoito testemunhos de homens e mulheres cuja vida foi, em grande parte, dedicada aos ENVC vêm as suas estórias eternizadas em vídeo, pelas mãos de Elisabete Pinto, Flávio Cruz e Luís Lagadouro.

As histórias de José da Veiga, José da Gandarinha, José Rodrigues, Manuel da Silva, Salvador Lima, Manuel Augusto Barros, Baltazar Faria Marques, Armindo Lima, Benjamim Casal Ribeiro, José Abreu, Manuela Valença, Teresa Morais, Clarisse Vieira, Maria de Lurdes Serrano, Justino Freitas, Francisco Freitas, Carolino Barreiros e Virgílio Gomes começaram a ser recolhidas em janeiro, mas o projeto do “Instantes e Memórias” ganhou forma muito antes.

Em setembro de 2018, Elisabete Pinto começou a pesquisa para um novo espetáculo a realizar com os seis ex-trabalhadores dos ENVC que integram a oficina de teatro amador Enquanto Navegávamos e acabou por se deparar com “histórias de vida muito bonitas”, ainda por contar.

Elisabete Pinto conta à Rádio Alto Minho que durante o trabalho de pesquisa foi falar com “duas ou três pessoas” que começaram a partilhar consigo “histórias incríveis e tão fortes” que não podia “deixar que ficassem só ali”. Quando percebeu que além dos familiares dos ex-trabalhadores pouco mais gente saberia dessas histórias, decidiu avançar para o filme. 

O trabalho com 60 minutos, “que reúne rostos e testemunhos de protagonistas da empresa que a partir da segunda metade do século XX se tornou uma referência social de Viana do Castelo e do Alto Minho”, foi exibido no aniversário da fundação da empresa pública, entretanto extinta e subconcessionada, num evento aberto a toda a comunidade, com entrada livre.

Alguns dos intervenientes do documentário trabalharam nos estaleiros desde a sua fundação

 “Histórias de pessoas de Viana do Castelo e da sua vida nos estaleiros. Pessoas que trabalharam na abertura das docas como o senhor José da Veiga, hoje com 94 anos, que com o seu carro de bois ajudou a tirar a terra para abrir as docas. Todos falam do navio Gil Eannes, que ajudaram a construir. Pessoas que trabalhavam descalças, testemunhos duros, num documento muito intenso”, referiu Elisabete Pinto à Lusa.

“A cidade era o estaleiro, o estaleiro era a cidade. Era uma casa. Uma segunda casa. Uma escola. Uma escola de vida, de conhecimento, de valores. Um universo de gerações que irradiava chieira na excelência que colocava em cada reparação”, lê-se na sinopse do documentário.

O resumo acrescenta: “Em cada construção. Em cada navio. Suor recompensado com o sustento de famílias inteiras. Não havia quem lá não tivesse alguém. A independência para uns. A educação para outros. O ganha-pão para todos. E todas”.

Os autores do documentário acrescentam que “o estaleiro foi a fornalha edificadora do caráter de mulheres e homens com mãos de ferro e coração de fogo que durante décadas deram o melhor de si em nome de um emblema, que era uma empresa, que é uma cidade, que é uma região”.

Além do documentário, o material recolhido pela oficina Enquanto Navegávamos deu origem à peça “Instantes e Memórias – A Cena” que vai subir ao palco do teatro municipal Sá de Miranda, nos dias 08 e 09 de junho, um projeto que conta com o apoio da Câmara Municipal de Viana do Castelo.

Os ENVC foram extintos em março de 2018, mas encontravam-se em processo de extinção desde 10 de janeiro de 2014, data da assinatura, entre o anterior Governo PSD/CDS-PP e o grupo privado Martifer, do contrato de subconcessão dos estaleiros navais até 2031, por uma renda anual de 415 mil euros.

Texto de Carolina Franco e Lusa
Fotografia de Charlize Birdsinger disponível via Unsplash

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