Em tempos tão movimentados e agitados, o artista carioca, Domenico Lancellotti, vem propor uma terapia de reconstrução interior, de renascimento e conexão com a natureza, a vida do planeta e as suas energias. Raio, o seu novo álbum, é um retrato de todos esses elementos naturais, “que deixam a luz entrar, e o amor reinar”, nas composições e sonoridades das doze faixas do álbum. Influenciado pela cultura indígena brasileira, o instrumentalista explora a rítmica popular, numa linha contínua que se alimenta nas profundezas da floresta do Brasil e vem crescer em solo português.

O músico carioca, de ascendência italiana, formou-se nos anos 90, e é já um experiente instrumentalista e artista multidisciplinar, reconhecido no universo do pop brasileiro. O seu mais recente trabalho, Raio, editado em março de 2021, vem juntar-se aos anteriores Cine Prive (2011) e Serra dos Órgãos (2017), para preencher de luz o seu percurso profissional. Raio, marca também o início da nova editora portuguesa Arraial, cujo foco é a edição digital.

"Vai A Serpente" foi o single que estreou, com videoclipe de Ilana Paterman Brasil

“Vai A Serpente” foi o primeiro single de avanço do novo trabalho de Domenico Lancellotti, que assina a voz e percussão. A produção musical contou com os músicos Bem Gil, na guitarra, e Bruno Di Lullo, no baixo. Nas faixas “Snake Way” e “Mushroom Room”, participa ainda a cantora e compositora Nina Miranda.

Atualmente a viver em Portugal, na cidade de Lisboa, o músico conversou com o Gerador a propósito do novo álbum Raio, numa breve passagem pelo seu extenso percurso musical, pela plasticidade da música instrumental e dos sons da floresta, que entram em diálogo com a música eletrónica, numa simbiose transformadora e reconfortante.

Gerador (G.) - O que te fez despertar para o mundo da música popular brasileira contemporânea, como instrumentista?
Domenico Lancellotti (D.L.) - Nasci numa casa de música, meu pai é compositor e me levava aos estúdios para assistir suas músicas sendo gravadas pelos principais intérpretes da época. Durante minha infância, a música era o centro de tudo. Testemunhei aquele que foi o colossal reator atómico da música brasileira nos anos 70, e, até hoje, isso reverbera em mim. Entendi que a música organiza o universo.

(G.) -  Anos mais tarde, a música começa a concretizar-se na tua vida, com a formação da banda de rock experimental “Mulheres Q Dizem Sim”, com o Moreno Veloso e o Alexandre Kassin. Fala-nos de como foi integrar esse projeto, na altura, vanguardista.
(D.L.) - Nos anos 90, comecei a trabalhar efetivamente como músico, na qualidade de baterista. Em 1992, já estava fazendo turnê com o Quarteto em Cy, e, paralelamente, com meus amigos da escola recebia influências do rock, do reggae, de músicas que vinham de outras terras e que raramente entravam lá em casa. A partir daí, montámos uma banda chamada “Mulheres Q Dizem Sim”, que, assim como as bandas que surgiam na mesma época no Rio de Janeiro, tratava de misturar tudo sem pudor ou preconceito. 

(G.) - Foi também com eles que formaste o trio +2, no final dos anos 90. Que oportunidades e desafios te trouxe o trio+2?
(D.L.) – O Moreno Veloso, que fazia parte de um grupo grande de músicos que conheci ainda na escola, chamou-me e ao Alexandre Kassin, a ajudá-lo a elaborar uma apresentação para o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Na altura, eu estava pintando, e a ideia dele era que se pudesse “microfonar” uma tela e pintá-la ao vivo, durante os momentos de voz e violão. Assim nasceu a banda +2. Depois resolvemos gravar o repertório inédito de músicas do Moreno, e resolvemos cuidar de tudo de forma artesanal, alugando uma casa no mato, levando instrumentos, gravadores, microfones, sem precisar sofrer nenhuma interferência da indústria que estava bem ativa na época. Fizemos cinco discos, sempre alterando a figura central. Rodámos o mundo em turnês, conhecemos músicos de toda a parte do planeta, esse projeto foi minha universidade.

(G.) – Depois da “universidade” acabaste a colaborar, enquanto músico, com Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Gal Costa, entre outros. O que adquiriste da partilha de experiências com estes nomes da música brasileira?
(D.L.) - Justamente por causa da sonoridade de nossos discos, chamámos a atenção de outros músicos, inclusive de outras gerações. A Adriana Calcanhotto, quando escutou o nosso primeiro disco, Máquina de Escrever Música, nos procurou para propor diversas colaborações com seu trabalho. Fizemos uma amizade que até hoje perdura! Pude colaborar e conviver também com outros artistas, Caetano, pai do Moreno, que sempre esteve muito presente e também nos chamou para gravar um disco e fazer shows. Depois, toquei em discos e turnês com Gal Costa, Chrissie Hynd, Gilberto Gil, entre outros. Nós do +2, junto a outros 19 músicos cariocas, fundámos uma orquestra de gafieira chamada “Orquestra Imperial”, que também teve muita importância na minha formação como artista. 

(G) – Falavas, no trio +2, da música aliada às artes plásticas. Em 2018, a fotógrafa Lucia Koch lança-te um novo desafio. Que projeto foi este, e que novas visões te trouxe, enquanto artista, e para o novo álbum?
(D.L.) - Em 2018, a artista Lucia Koch me convidou para fazermos juntos uma instalação de arte para a bienal de Kansas City. Criei para esse projeto seis faixas, que foram mixadas em 5.1 e enterradas no chão de um grande terreno baldio. Dessas seis faixas, usei quatro delas para este meu último disco Raio, que fiz entre 2018 e 2012, nesse meio tempo em que me mudei do Rio de Janeiro para Lisboa. Ainda terminei o álbum em plena crise global da covid, de modo que, algumas colaborações e toda finalização do disco, teve de ser feita à distância.

Sempre tive meu lado de artista plástico ativo, quando penso em música penso também em imagem. Aqui em Portugal, pude finalmente criar um projeto híbrido de som e imagem, junto ao artista plástico português Tomás Cunha Ferreira. Esse duo se chama Com(1), e parte da visualidade para gerar som. Temos ainda um programa de rádio chamado “Colapso”, que vai ao ar toda sexta-feira às 23h na rádio Estação do Porto, ligada ao Museu da cidade do Porto.

(G.) - A sonoridade popular brasileira e a rítmica eletrónica são características do teu novo álbum, Raio. Qual foi o ponto de partida para a composição deste disco? 
(D.L.) - Esse disco, Raio, traz muita influência da cultura indígena brasileira, sobretudo da música e da cosmovisão do povo Huni Kuin, que vive na floresta Amazónica no estado do Acre. Raio fala da vida nesse planeta, das milhares de formas e cores com que ela se apresenta, da inter-relação entre elas, os cruzamentos de energias, da natureza não estática da vida, onde tudo está sempre em movimento, onde as coisas não terminam, se transformam e se renovam. Fala de como precisamos, nesse momento de crise, dar ouvidos às coisas sagradas do solo, de dentro do peito.

Temos ainda, em alguns lugares do planeta, algumas culturas que conseguiram atravessar o tempo e preservar uma conexão simbiótica com a natureza. Está na hora de voltarmos nossa atenção ao que eles têm para nos ensinar, pois estamos soterrados por muitas camadas de civilização e nossa prepotência nos levou à beira do colapso. 

(G) – Este álbum é também a estreia da nova editora portuguesa Arraial. Como caracterizas a tua ligação com a cultura portuguesa que, inclusive, te fez vir viver para Portugal?
(D.L.) - Gosto muito de viver em Portugal, viemos para cá em família. Reconhecemos aqui muitos aspetos culturais que estão presentes no Brasil. Temos a mesma língua, e isso, junto a pastelaria tradicional, os pratos de bacalhau, a luz que há, o vinho, o Alentejo, a poesia, a preocupação com o bem-estar social…é muita coisa!

Texto de Ana Mendes
Fotografias da cortesia da Arraial

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