Se as pessoas tirassem dois minutos para reflectir sobre o que implicam as dores menstruais e sobre o que significa a sua normalização, talvez deixassem de o fazer de todo.

Crescemos a ouvir dizer que é normal sentir dor durante o período: a família, os amigos, os anúncios a anti-inflamatórios “para aquela altura do mês” e até os médicos partilham da mesma opinião. Por isso, quando sentimos dores, das duas uma: ou temos azar e a nossa sina é calar e aceitar dores que nos põem de cama, ou somos demasiado fracas para lidar com algo com que todas as outras aparentemente sabem lidar.

Quem normaliza esta dor alguma vez se questionou sobre o que é que esta dor realmente é? O que é que a pessoa que está a passar por ela, de facto, sente?

Pedi às pessoas que acompanham o meu trabalho nas redes sociais para partilharem comigo descrições das suas dores menstruais e as respostas têm de ser uma wake up call para quem continua a achar que é suposto sentirmos isto periodicamente. Deixo algumas das descrições que procuram ilustrar o que é passar por isto: “Como se me estivessem a esventrar com facas”; “como se me queimassem o útero por dentro”; “como se alguém estivesse a esticar e a torcer tudo por dentro”; “como se um bicho me roesse as entranhas”.

Muitas autoras destas respostas têm endometriose ou outras patologias diagnosticadas, outras começam a suspeitar que alguma coisa não está bem. Outras, ainda, estão cansadas de levar com a mesma resposta da parte de diferentes médicos e vêem-se obrigadas a conformar-se com o fardo das dores menstruais. As dores menstruais não são normais. Os médicos, ou não estão actualizados, ou desacreditam a priori queixas de dor apenas porque vêm de uma mulher (sim, estamos condenadas ao sofrimento eterno apenas porque não temos um pénis entre as pernas), ou… um misto destas duas opções.

Desafio quem me lê a tentar imaginar passar pelo suplício de sentir uma picadora de gelo a desfazer os seus órgãos internos todos os meses, ou a levar facadas sem parar, ou a ter um bicho a roer os seus órgãos pélvicos e a reflectir se será, de facto, normal sentir isto e se será digno aceitar que alguém o sinta. Se, por outro lado, se identificam com estas descrições violentas, na minha página de instagram (@omeuutero) têm acesso gratuito a uma lista de médicos recomendados por investigarem a origem das dores menstruais (e, pois claro, por ajudarem a tratá-las).

Dores menstruais não são normais. Vamos acabar com este mito de uma vez por todas.

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
Fotografia de Pedro Lopes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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