Este domingo foi o dia de São Valentim. No outro dia, uma pessoa próxima perguntou-me: ‘não conheces ninguém que me possas apresentar? Assim, alguém tipo eu, que eu possa gostar?’

Esta pergunta fez-me pensar em algo que me ocupa há algum tempo.

É certo que estamos na era da tecnologia, das redes sociais, que os perfis com várias informações sobre onde andas, do que gostas, parece que mostram um pouco do que a outra pessoa é. Sabemos que o Tinder já emparelhou muita gente, mas e se não gostas dessas coisas? E se o Tinder te assusta mais do que te seduz? Se tens receio de que vá ser mais uma experiência em que várias pessoas vão meter conversa contigo, daí a menos tempo do que o que gostarias, estão a falar de sexo e quando finalmente se encontram, é aquela coisa… Meh! A história repete-se mais umas quantas vezes até decidires que definitivamente que não é para ti.

Em altura de distanciamento social, estas questões ainda se agravam mais. Não podemos sair, combinar um café, uma cerveja ao fim do dia. Não podemos sair à noite, marcar um jantar ou decidir que não temos assim tanta disponibilidade e, por isso, encontrar-nos entre a saída do trabalho e o próximo transporte para casa.

Diz-se que, 10% da população é LGBTI, há de haver alguma, onde vais, no que fizeres’. E se não houver? E se ocupares o teu tempo para além do trabalho e mesmo assim não encontrares alguém?

Mesmo existindo locais que promovam festas gay ou LGBT (mesmo que agora online), como podemos ter a certeza de que, a pessoa com quem eu tenho estado a falar (agora por Messenger, Whatsapp, Zoom ou Skype), é alguém que eu vá gostar, que não vai assumir o meu género, que não vai ter um discurso sexista, misógino, transfóbico, ou desrespeitador em algum sentido. São muitos nãos para uma pessoa só.

O importante talvez seja deixarmos de pensar que temos de ter alguém, que temos de encontrar alguém estilo história da Disney ou outro qualquer conto de fadas. Estamos sempre à espera de qualquer coisa encantada que nos cative, que nos arrebate. Esta espera, desvia-nos, de fazer outras coisas, de encontrar prazer na solitude, de aplicar energia em estarmos com quem nos está próximo, porque pensamos sempre que nos falta aquela proximidade de que se fala nos livros.

Mas e se quisermos um conto de fadas. Uma história encantada? E porque é que não a merecemos. Com toda a teoria radical de que são essas coisas que nos castram, a verdade é também, que merecemos a simbologia de um compromisso e a promessa de amor eterno.

Não temos de encontrar ‘o amor’. Amar está em todas as coisas, em conhecer-nos, em estar com pessoas de quem gostamos, ajudar quem precisa, na realização de algo maior que nós, que não se centre na economia relacional de casal, ou comunidade familiar baseada num sistema patriarcal e capitalista. Mas também é verdade que merecemos ‘o amor’. Não temos de sentir culpa por querermos uma relação só nossa, de estar com só aquela pessoa para a vida. No outro dia diziam-me: ‘Já é tão difícil lembrar-me de tudo o que ela gosta, de todas as suas peculiaridades e marcas deixadas pela vida no seu corpo, todos os dias ela me surpreende e aprendo algo de novo com ela, porque é que havia de precisar de mais alguém?’

Acredito no amor estendido a uma variedade grande de pessoas que estão no mundo de formas diferentes. Que a culpa não é compatível com o amor e que este pode ser vivido de várias formas sendo que a normativa é também legítima e ninguém é menos queer por isso. Ao usarmos armas de desconstrução controladoras e policiadoras não estamos a permitir-nos a felicidade e isso sim, não é queer. Não é amor.

Quem me dera ter a solução e dizer que para encontrar o amor é só fazer assim, jogar uns pós de perlimpimpim e voi-lá. Mas sei tanto de amor, de amar como outra pessoa qualquer. Sei que dá trabalho, que quanto mais nos permitirmos conhecer outras pessoas mais hipóteses temos de conhecer alguém que nos cative, que dá medo, muito medo. No entanto, ao entrarmos no mundo da outra pessoa, mais poderemos ser surpreendidas pela magia da paixão e, quem sabe, do entendimento e de um futuro compromisso. No que eu penso do amor, este passa também por uma aceitação de nós, não de uma forma condescendente, estilo, “és assim, pronto, o que é que se pode fazer” ou, “eu sempre fui assim”, mas de forma a que, nos permitimos ser amadas por tudo o que somos, mesmo as nossas culpas, as nossas coisas menos boas, os nossos medos e vulnerabilidades.

Se podemos amar não é a questão, a questão é o que acontece quando não amamos?

Uma boa leitura sobre amor é o Vivendo de amor/All about love de bell hooks.

Da série sobre amor de mulheres negras queer: 195 Lewis

-Sobre Alexa Santos-

Alexa Santos é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa, em Portugal, e Mestre em Género, Sexualidade e Teoria Queer pela Universidade de Leeds no Reino Unido. Trabalha em Serviço Social há mais de dez anos e é ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIA+ e feminista anti-racista fazendo parte da direção do Instituto da Mulher Negra em Portugal e da associação pelos direitos das lésbicas, Clube Safo. Mais recentemente, integrou o projeto de investigação no Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Diversity and Childhood: transformar atitudes face à diversidade de género na infância no contexto europeu coordenado por Ana Cristina Santos e Mafalda Esteves.

Texto de Alexa Santos
Fotografia de Lisboeta Italiano
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