Hoje, dei comigo a pensar na forma como impomos às crianças a nossa aceleração. De manhã, ao acordar, a minha filha cantava alegremente. E eu, indiferente ou irritado, apressava-a para a higiene diária, o pequeno almoço, a indumentária, o carro. Ela resistia, parava, abrandava, pegava num brinquedo, punha um gancho no cabelo e o efeito aumentava a minha exasperação pelo acumular do atraso. No automóvel, atravessarei velozmente a cidade, sem lhe dar tempo para a saborear. De ilha em ilha (a casa, o jardim de infância, o parque infantil…) a minha filha, se, entretanto, eu não lhe permitir experimentar outros espaços-tempo, viverá na cidade arquipélago, mosaico fragmentário de ninhos pretensamente seguros onde se impõe um desconhecimento do espaço urbano, dos seus lugares-outros, interstícios e liminaridades.

Raramente pensamos nas geografias e culturas da infância. As nossas sociedades emergem como exteriores às crianças, amplamente prescritivas e normalizadoras. Poucos exemplos existem de planeamento participado com as crianças e de programações culturais que as envolvam num papel mais ativo do que o de meros destinatários. Ainda assim, as crianças têm um modo próprio de se relacionarem com o mundo, de usarem e fazerem cidade e de serem públicos e criadores de cultura. É certo que não devemos homogeneizar em demasia a infância, esquecendo as clivagens internas (de classe, de género, de etnia), mas importa reconhecer uma tipicidade singular na organização infantil do espaço-tempo com a humildade de que, amiúde, não possuímos as chaves para entrar nesse universo. Aliás, quando se esquecem dos adultos e do seu controle, as crianças não hesitam: brincam, transgridem, experimentam, exploram, descobrem, decidem, fabricam, usam.

Mayumi Souza Lima, japonesa radicada no Brasil, no seu livro A cidade e a criança, mostra como espaços escolares, assim como parques e zonas infantis, são produzidos de maneira a perpetuar e reforçar a dominação e o poder do adulto sobre a criança. Cada vez mais projetamos em tais espaços os nossos medos e fobias: do outro-como-diferente; da insegurança (muito mais subjetiva do que objetiva); do contágio, da impregnação…As crianças bolha, crescentemente confinadas, crescerão numa distopia de heteronomia, não lhes sendo permitido errar, assustar-se, provar, retificar. Não desenvolverão, como deviam, o labor da alteridade, de ser no outro, como o outro, com o outro (de ser o outro!), impregnadas do seu olhar, cheiro, corpo e experiência. Não exercitarão a autonomia, porque desconfiarão dos lugares e das pessoas que as confrontem.

Urge mobilizar ferramentas de auscultação e de observação das crianças que não sejam violentas ou desnecessariamente intrusivas, que respeitem a exploração e a indagação que lhes são próprias. Que as façam falar, no seu ritmo, tempo e modo (pode ser uma canção ou um desenho…). Tais ferramentas, estou certo, seriam a base de um labor que revolucionaria as cidades e as programações culturais. Se elas puderem ser instituições, programações e espaços das crianças (e não meramente para elas ou com elas), teremos dado um passo de gigante na redescoberta do encanto do mundo.

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes