Bom, depois de dois textos sobre o assunto racismo, depois de assistir às redes sociais a inflamarem-se sobre o tema, cheguei a um ponto de reflexão pessoal. Não quero ser visto como um homem que odeia Portugal, antes pelo contrário. Apesar de todos estes assuntos abordados anteriormente, Portugal é a minha terra, onde me sinto bem, onde quero ter o meu monte e fazer o meu vinho que, by the way, já tem nome definido: “Monte do Preto”. Onde acima de tudo quero que a minha família viva. Adoro a cidade de Lisboa e a sua multiculturalidade e diversidade. Não obstante tudo o que de mal há, existem muitas, mas mesmo muitas coisas boas. Adoro estar numa relação interracial, comer cachupa ao sábado e cozido à Portuguesa no domingo, ouvir Jim Morrison com a minha companheira enquanto bebemos vinho, ou ouvir funaná puro com o meu pai enquanto bebemos grogo.

Desta vez quero apenas focar-me em histórias que fui vivendo pelo nosso país, que considero engraçadas até, pelo facto de eu ser preto. Começo por contar uma que aconteceu no Alentejo, terra da minha companheira. Como podem imaginar, apesar de haver pretos em algumas zonas do Alentejo, existem algumas em que não há nem um! E duvido que, depois de mim, tenha ido lá algum. Um dia, em pleno Verão, por altura das festas do Assumar (umas festas que acontecem uma vez por ano, numa pequena vila do Alentejo e por vários dias), notei que, sempre que chegava ao recinto da festa a música mudava automaticamente… podia estar a dar Quim Barreiros com toda as pessoas a dançar, mas assim que eu chegava, mudava logo para Kizomba, o Dj fixava os olhos em mim, com um ar de quem estava a pensar: “mostra o que vales”. Muito engraçado, logo eu, o Varela da Hip Hop Sou Eu , um ignorante em relação a música pois só ouve e consome RAP… claro que não foi por mal, até achei engraçado mas pelo facto de ser PRETO, o raciocínio foi imediato: deve gostar de ouvir e dançar Kizomba, mas na verdade, não.

Outra situação aconteceu em pleno Porto, junto à Sé: num restaurante típico, aqueles com tripas à moda do Porto, francesinhas, etc., depois de serem servidos os pratos, o dono do restaurante veio até à nossa mesa . Pousou um frasco cheio de picante caseiro e voltou para trás do balcão. Nisto, virou-se e fez um gesto, com o polegar levantado (fixe!). Apesar de não ter pedido nada, disse obrigado. O dito senhor, mal ouviu o meu obrigado, veio a correr, juntou-se à mesa e tivemos a seguinte conversa.

Senhor: Já lá estive…

Varela: Já lá esteve? Onde?

Senhor: Em África, você é de onde? Angola? Guiné?

Varela: hum… os meus pais são de Cabo Verde.

Senhor: ah ok, prove o picante então, vai gostar, é como os feitos em África!

Muito engraçado… por acaso gosto de picante, mas conheço muitos africanos que não gostam. É que, nem todos os pretos, nem todos os africanos, gostam de picante.

Lembro-me de um outro episódio que aconteceu, penso eu, em Bragança. Ou em Viana do Castelo, com o meu amigo Malabá. Sinceramente, acho que conseguimos perceber com

facilidade se um atendimento vai ser bem feito ou mal feito, quando o empregado do restaurante é bastante desagradável para nós e super prestável para a mesa do lado. Algo se passa… ok, pode apenas não ter ido com a nossa cara, ou não ter gostado da cor dos meus ténis, acontece. Eu e o Malabá andávamos a notar isso em vários restaurantes que frequentávamos, isto quando andávamos de norte a sul do país, na altura das campanhas escolares. Nesses dias saíamos de casa pelas 05h00 da manhã para ir, por exemplo, a Bragança, atuar por pouco mais que 10 minutos, e voltar de seguida para Lisboa. Mas, pelo caminho, há sempre uma paragem para o almoço. Num desses almoços, que por acaso foi logo depois de Portugal ter ganhado o Euro, notámos que muita coisa mudou, principalmente a atenção e a forma como éramos servidos. Depois de almoçarmos, o Malaba disse uma frase que fez toda a diferença e que foi a seguinte: “mano, o Éder não sabe, mas com aquele golo contra a França, ele meteu os niggas todos a viver bem pelo país todo!” E, de facto, aquilo fez todo o sentido! Éder fez Portugal ganhar um troféu muito importante para a seleção, um preto de tranças! Quantas pessoas, por este Portugal fora, devem ter acordado no dia seguinte com um feeling diferente em relação aos pretos? De facto, se houvesse mais oportunidades, provavelmente estaríamos a ser vistos de outra forma por todo o país. Não peço, com isto, que se criem oportunidades exclusivas para os pretos, mas que se pare de não dar as mesmas oportunidades porque são pretos.

E assim espero encerrar este assunto. Conto falar, para a próxima, sobre presuntos e vinho tinto.

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas.Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
Fotografia de Lucas Coelho
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