Muito se fala de uma “nova” pandemia, a do medo. Mas medo de quem, do quê e porquê? Do que estamos a sofrer, sim, mas, e também, por antecipação, do que viremos a sofrer.
Fala-se abertamente de uma grande crise humanitária, da falta de emprego (o que é diferente de trabalho, mas já lá vamos), da fome e de futuro. Sim, o futuro do planeta que deixamos aos filhos.

Recentemente, a discussão científica passa, não pela falta de produção de bens de primeira necessidade, como alimentos, nem mesmo do seu transporte mas sim do que virá a acontecer às pessoas e como vão sobreviver a uma anunciada hecatombe.

Afinal, grande parte da agricultura e pecuária, para citar exemplos, são manobrados por máquinas e o transporte feito por super cargueiros com mínima tripulação ou comboios sem fim que rasgam milhares de km com ajuda de pilotos automáticos. Ou seja, não haverá falta de emprego neste sector porque, afinal, já nem existe.

É, portanto, um medo infundado porque ainda haverá produção e distribuição global.

Mas, no entanto, estamos cheios de medo. De tudo e dos outros. E é aqui que a confiança no próximo começa a fazer parte da equação.

Sabemos que o mundo, ou parte dele, se divide entre os que acreditam que o vírus que nos afastou da vida é mesmo muito perigoso e que é melhor seguir à risca os conselhos e ordens das autoridades, sejam científicas ou governamentais. Mas a fileira dos que acreditam que tudo isto é uma cabala e um atentado aos direitos e liberdades conquistados ao longo dos séculos, vai engrossando. E com isso, o vírus descobre atalhos e auto estradas para prosseguir o seu caminho.

O mundo está cada vez mais dividido e desconfiado. Os erros políticos acumulam-se por toda a parte, a má gestão no fabrico, dispensa e inoculação da vacina(s) tem sido grosseiro, o tempo passa, a saúde mental degrada-se, a paciência esgota-se e preparamo-nos para mais e maiores manifestações contra o estado das coisas.

Um estado que nos leva a criticar o vizinho porque ao fim de semana vai apanhar sol porque, logo a seguir, somos confrontados com o aumento dos números de vítimas. Portanto, a pandemia do medo resulta de uma acumulação de tentativa e erros, mas estes erros são, acima de tudo, políticos. E é esse medo que também começa a ser perceptível. O medo das más decisões.

Até que ponto pode um governo trocar dados sensíveis por vacinas? Bom, só para citar um dos vários que o já fez, Israel deu uma enorme quantidade de data para sair bem na fotografia interna. E quem ficou com essa data? A farmacêutica e os seus aliados. Há razão para ter medo ao tentar adivinhar como vão ser tratados os dados de um indivíduo, de uma sociedade, de equipamento militar.

Este campo é fértil em discussões mas também é terreno livre para que a paranóia cresça também como um vírus. E, sem saber como (ou talvez sabendo), uma pandemia que nos enche de medo provoca outras paralelas que se alimentam e multiplicam.

E ninguém fica indiferente a tudo isto. Como se pode ficar? Parece que estamos já a viver alguns episódios da série Black Mirror, ou a total narrativa do Years and Years, os segredos da Utopia, o combate de Mr. Robot, tudo séries televisivas recentes que nos mostram antecipadamente um possível futuro.

E sim, isto provoca medo, pois sabemos que sozinhos, não podemos combater um conjunto de erros que não são apenas provocados pelo nosso comportamento de querer sair de casa para esticar as pernas e respirar um ar que nos faz falta.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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