Estamos todos cansados. Da pandemia, do confinamento, das restrições, das máscaras, dos recordes diários de mortes, da falta de perspetivas ou das perspetivas futuras, enfim, de tudo um pouco. É natural, é legítimo, mas na verdade deveríamos estar cansados, diria mesmo exaustos com a falta de soluções para o verdadeiro problema: o mundo das alterações climáticas que nos espera.

O futuro é muito mais assustador do que o resultado esperado desta pandemia. As consequências da contínua destruição do ambiente natural, da eliminação dos habitats dos animais selvagens, da contaminação da água e do ar e da resultante quebra do delicado equilíbrio da Natureza, a muito breve prazo tornarão a nossa vida na Terra radicalmente diferente e consideravelmente mais difícil.

Abandonemos por momentos o antropocentrismo, ou o egoísmo de espécie que nos é inerente. Mesmo que a nossa espécie seja capaz de inventar mundos totalmente artificiais onde possa continuar a crescer e a multiplicar-se, esse sonho de alguns não seria o pesadelo de todos perante uma Terra inteiramente “tecnologizada” e sem vida para além da nossa – ou da que queiramos permitir e consigamos preservar? É quase impensável a magnitude de uma perda assim, dos pontos de vista ontológico, imagético, afetivo, ético – os que realmente importam. 

A comunidade científica diz que temos até 2030 para impedir o ponto de não retorno. A partir daí o processo de destruição ambiental do planeta será irreversível. Estranhamente, ou talvez não, a meta dos governos mais ambiciosos é 2050, 20 anos depois do ponto de irreversibilidade.

Os governos planeiam a 4 anos, que é a duração dos mandatos políticos e agem segundo o ‘princípio’ da difusão da responsabilidade na esfera pública, tão característica de algumas democracias ocidentais.

Infelizmente não existe nenhuma ilha para onde se possa fugir e escapar incólume. O choque da destruição da Natureza será global e implacável. A necessidade de agir é premente, urgente, mandatória.

O cidadão comum não pode mudar o mundo por si só. Pode dar uma imensa contribuição pelas suas escolhas, pelo seu comportamento e pelo seu ativismo. Para além das suas opções de consumo, o grande impacto da vontade do cidadão comum obtém-se nas urnas. 

É aos governos que compete mudar o mundo. Por uma questão de escala. É para isso que os governos são eleitos. Para gerir o mundo conforme os imperativos de quem os elegeu. 

A desilusão com o atual sistema político e social provoca o extremar de posições e leva ao aparecimento de radicalismos por vezes folclóricos, num vasto deserto de desânimo e de soluções. São per se perigosos, sejam eles etiquetados como de esquerda ou de direita.

A nós compete-nos não perder o foco: a melhoria da qualidade de vida de todos, objetivo que depende da satisfação de necessidades basilares que só o equilíbrio natural do planeta pode garantir.

Acesso à alimentação saudável e à água potável para todos. Acesso à habitação condigna e à educação. Acesso à saúde e à cultura. Retribuição condigna e de acordo com a prestação de cada um. Liberdade e respeito mútuos. Igualdade de oportunidades independente das características individuais de cada um. A altura ou o peso, a cor dos olhos ou da pele, o género ou a orientação sexual, a opinião ou a crença não podem ser fator de discriminação, nem desculpa para isentar de responsabilidades. 

Temos de nos libertar do preconceito e pensar no que importa realmente. A gentileza deve deixar de ser vista como uma fraqueza e passar a norma de conduta de nós para com os outros, e dos outros para connosco. Porque vamos precisar de nos unir e de nos entreajudar.

Constantes fenómenos climáticos extremos, subida do nível da água do mar, falta de água potável, degelo das calotes polares, inundações e secas, subida das temperaturas, irregularidade das chuvas, tudo isto vai provocar – está já a provocar – inevitáveis movimentos de populações para locais onde passará a haver escassez. Os conflitos militares pelo acesso aos recursos já estão a ocorrer hoje em dia e multiplicar-se-ão.

Há que denunciar e abolir definitivamente o princípio do perpétuo crescimento da economia. É ambientalmente impraticável e só alimenta a enorme riqueza de alguns. É tempo de defender a valorização económica das comunidades locais e a sua sustentabilidade, defendendo a pequena escala e o património, seja ele biológico, geológico ou cultural.

O sector da cultura tem aqui um papel fundamental na divulgação do imenso património existente nas comunidades locais, dos ofícios tradicionais às práticas agrícolas ancestrais, resultado de séculos de interação sustentável com o ambiente em seu redor. Importa defender um mundo rural em equilíbrio com a natureza que se está a perder rapidamente para um mundo em que a uniformização despersonaliza a cultura, a paisagem e o Homem.

O tempo de apenas agir preventivamente já se esgotou. Agora temos de correr atrás do prejuízo, enquanto indivíduos, comunidades, governos, porque em conjunto ainda é possível inverter o rumo.

-Sobre Francisco Ferreira-

Francisco Ferreira é Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-NOVA) e investigador do CENSE (Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade). É licenciado em Engenharia do Ambiente pela FCT-NOVA, mestre por Virginia Tech nos EUA e doutorado pela Universidade Nova de Lisboa. Tem um significativo conjunto de publicações nas áreas da qualidade do ar, alterações climáticas e desenvolvimento sustentável. Foi Presidente da Quercus de 1996 a 2001 e Vice-Presidente entre 2007 e 2011. Foi membro do Conselho Nacional da Água e do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Atualmente é o Presidente da “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”, uma organização não-governamental de ambiente com atividade nacional.

Texto de Francisco Ferreira e Ana Serrão | Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável
Fotografia da cortesia de Francisco Ferreira
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