Quando procuramos em orgãos de comunicação informação sobre actividades culturais constatamos que em quase qualquer meio - jornais, revistas, televisão ou online - são cada vez mais pequenos os espaços disponíveis para este tipo de conteúdo informativo. Além do espaço ser reduzido existe uma espécie de disputa territorial entre a crítica e a notícia. Muitas vezes a crítica leva a melhor, roubando espaço à notícia. É muito difícil encontrar em tempo oportuno, ou seja quando determinado espectáculo, exposição ou lançamento de disco ou livro ocorre, informação descritiva sobre o que se pode encontrar, ver, ouvir ou ler. Por vezes, poucas, há breves notas de agenda. E em vez de informação, com sorte, lá vem uma olhar crítico, sempre forçosamente subjectivo e muitas vezes completamente deslocado no tempo. O velho hábito de publicar a crítica sobre, por exemplo, a estreia de um espectáculo teatral, demora dias a sair, senão semanas, criando redobrada dificuldade na formação e captação de novos públicos. E, não poucas vezes, a crítica surge sem antes ter sido publicada notícia. 

Em Portugal existem poucas sínteses informativas de actividades culturais,  nomeadamente que elenquem as edições semanais de livros ou discos, a abertura de exposições ou estreias de espectáculos, informação que é prática usual em jornais como o Guardian ou o New York Times, para citar alguns exemplos. O argumento da falta de espaço não pode ser a justificação quando existem edições online onde o problema não se põe. O tema é o critério editorial, a falta de foco em prestar o máximo de informação possível. Salvo raras e honrosas excepções o noticiário cultural é praticamente ignorado pelas televisões, apesar da longuíssima duração dos telejornais portugueses, quando comparados com os seus congéneres europeus.

Em áreas como as artes plásticas, por exemplo, cujas informações praticamente só surgem na imprensa e no online, predominam os textos de crítica quase curatorial e faltam os textos noticiosos. Por outro lado nota-se um deficiente acompanhamento de situações que podiam ser abordadas numa perspectiva de investigação objectiva. Por exemplo, basta pensarmos no quase silêncio em torno da entrega do MAAT a Serralves: surgiram artigos de opinião mas não me lembro de uma peça que relatasse com objectividade a situação, explorasse o contraditório e permitisse fornecer ferramentas para se tomar opinião e se escrutinar o sucedido e perceber o papel dos privados e do Estado no processo. O mesmo se passou em relação à polémica em torno da escolha do representante oficial português na Bienal de Veneza. Houve muito debate ideológico mas pouco relato do que efectivamente se passou.

Um sinal da subalternização do acompanhamento da política cultural é a forma como tem decorrido a campanha eleitoral para as legislativas de Janeiro deste ano. Não me recordo de uma pergunta sobre qual a política cultural defendida pelos líderes partidários nas dezenas de debates televisivos realizados. E, na maioria dos programas dos partidos concorrentes, a política cultural resume-se a chavões e declarações de interesse geral. Não me recordo igualmente de ler um artigo que comparasse propostas eleitorais actuais e as confrontasse com a política efectivamente realizada pelo partido do Governo e as propostas dos deputados na Assembleia da República. A cultura é o parente pobre da política e não é só no Orçamento de Estado que isso se nota, também se nota na forma como os meios de comunicação de massas acompanham essa área específica.

Sobretudo desde o início deste século nota-se nos mídia portugueses uma degradação e subalternização maior da informação relativa às actividades culturais  - e isto apesar de ser indesmentível que existe maior oferta cultural não só nas grandes cidades mas também em vastas zonas do interior. Seria de esperar mais informação, maior acompanhamento da actualidade, mas não é isso que se passa. A diminuição da informação foi acompanhada por uma radicalização da crítica, constatando-se aquilo que sempre acontece em circunstâncias destas: aparece quem tem lobby e conhecimentos, não tem existência quem tem só o seu trabalho e criatividade. A crítica substitui ainda mais a notícia e a falta de objectividade é justificada com a invocação ideológica e a obediência aos cânones do momento. A deficiente informação sobre a actividade e as políticas culturais agrava-se ainda mais com a entrada em cena de critérios mais políticos que artísticos que privilegiam quem segue as tendências e penalizam que tem uma agenda própria fora das modas do momento. A arte de causas ganha espaço à criatividade e à inovação e essa é outra grave distorção na circulação de uma informação plural e abrangente  na área cultural.

O problema não está em falar de quem usa a política e causas como fonte de inspiração, o problema está em ignorar tudo o resto. A arte, em qualquer das suas formas de expressão, sempre reflectiu os tempos e olhou para a sociedade; a diferença é que hoje em dia se quer formatar o que deve ser feito e penalizar quem não segue o cânone. Quando esta forma de estar passa da produção artística para linha editorial a situação só pode contribuir para uma ainda maior desinformação. E isso provoca o inevitável círculo vicioso: alheamento dos públicos, criação de ghettos, desinteresse dos políticos, inexistência de debate sério.Com poucas excepções é este, infelizmente, o estado da arte em matéria de informação cultural nos mass media hoje em dia. Como Albert Camus dizia, «prefiro os homens empenhados às literaturas empenhadas. Coragem na vida e talento nas obras, já não é assim tão mau.»

-Sobre Manuel Falcão-

Manuel Falcão iniciou-se no jornalismo pela fotografia e, ao longo de duas décadas, desenvolveu a sua carreira como repórter e redactor. Foi fundador do Blitz e de O Independente, trabalhou nas Agências Notícias de Portugal e Lusa, no Expresso, no Se7e e na Visão, entre outros. Realizou vários programas de rádio. Dirigiu as áreas de produção de TV e de novas edições da Valentim de Carvalho e foi diretor do canal 2 da RTP. Foi também Presidente do Instituto Português de Cinema, Diretor do Centro de Espectáculos do CCB e administrador da EGEAC. Durante 15 anos, foi Director-Geral da agência de meios Nova Expressão. Em 2013 fundou a editora Amieira Livros, dedicada à fotografia e, em 2020, criou a SF Media onde desenvolve os seus projetos pessoais.

Texto de Manuel Falcão
Fotografia de Paulo Alexandrino
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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