“Nada te impede de teres aquilo que queres profissionalmente, é somente uma questão de foco! Não importa o teu background, toda a gente chega lá da mesma forma se mantiver o foco! Toda a gente consegue construir um império bilionário do nada, é só uma questão de foco! #empoderamento”

LOL. Poupai-me.

Criarei duas personagens fictícias, a Joana e o António, para exemplificar os obstáculos da sociedade capitalista (pelo menos como ela de momento existe) à igualdade de evolução profissional.

A Joana é de classe média baixa. Durante a faculdade, trabalhou em part-time em restauração para pagar as suas contas. Por consequência, demorou mais dois anos a acabar o curso que os seus colegas que não trabalhavam. Agora que acabou a faculdade, a Joana queria começar a trabalhar numa grande empresa para conseguir ter uma vida mais estável e deixar de depender dos pais — que em muito já esticam mensalmente o seu orçamento.

Todas as grandes empresas que contactou e estariam dispostas a aceitá-la, exigem que ela faça um estágio não remunerado para “a conhecerem e ter a oportunidade de entrar no quadro da empresa”, “o que é justo para as duas partes — ela conhece a empresa e aprende com eles, e eles passam a conhecer as suas potencialidades”. Lol (Isto sem tocar em questões de desigualdade de género).

A Joana precisa de dinheiro. A Joana não pode ficar meio ano a trabalhar mais de 8 horas por dia (sabemos como as grandes empresas são a alargar os horários e a fazer parecer mal não ficar para lá do horário LEGAL ESTABELECIDO) sem receber nada. No entanto, a restauração paga-lhe. Que caminho é que acham que a Joana vai seguir? No mundo em que vivemos, tempo é mesmo sinónimo de dinheiro. Por isso, estagiar de graça, na verdade, é pagar para trabalhar. Só quem já tem dinheiro de alguma forma, é que se pode dar ao luxo de trabalhar sem receber.

“Ah, mas a Joana podia fazer um empréstimo para conseguir estagiar durante meio ano.” Primeiro, isso chega a ser doentio. Fazer um empréstimo para poder trabalhar de graça? E segundo, nenhum banco faz um empréstimo sem se ter previamente uma quantidade razoável de dinheiro, e sem analisar a capacidade de pagar o empréstimo. A única opção seria um aqueles créditos pessoais manhosos com juros mega altos. A Joana passaria de pagar para trabalhar de graça, para trabalhar para pagar um empréstimo que fez para poder trabalhar de graça. Outra vez: doentio.

Imaginemos agora que, afinal, o que a Joana queria era começar o seu negócio. O problema é o mesmo: se não tem dinheiro para investir, tem de fazer um empréstimo — já vimos a complexidade de fazer um empréstimo — ou tem de arranjar investidores, ou seja, tem de ter/arranjar contactos. O que faria provavelmente, seria juntar dinheiro aos poucos com o seu trabalho de restauração, o que ainda demoraria o seu tempo, com frustração e cansaço.

Passemos agora para o António. O António nunca teve dificuldades financeiras. Nunca trabalhou até acabar o mestrado. Os pais levaram-no desde pequeno para os eventos importantes cheios de bons contactos de negócios; a visitar outros países e culturas; e a eventos culturais através dos quais criou uma cultura visual riquíssima. O António poderia começar o seu negócio, tendo uma boa ideia, poderia estagiar em várias empresas à disposição. A verdade, é que o negócio do António só subsistiria se tivesse realmente bem construído, e o António só teria real sucesso profissional na empresa se realmente fosse bom, mas chegar até lá seria bem mais fácil. A meu ver, o António tem, sim, de aproveitar as oportunidades que tem com inteligência, e tentar fazer deste mundo um mundo melhor com os seus contactos. Mas não venham dizer que “é só uma questão de foco”. A diferença de oportunidades profissionais de vida entre a Joana e o António existe desde o momento em que nasceram. Não deveria ser assim, claro, o problema não é diretamente nem da Joana nem do António, é mesmo de um sistema que torna muito complicado uma pessoa subir de poder económico quando nasce numa família que tem pouco. (Também tem a ver com a diferente importância que se dá a empregos essenciais, tidos como sem-necessidade-de-qualificação, vs. empregos com cargos de topo de poder de decisão, mas não me vou alongar por aí).

Pierre Bourdieu, sociólogo, explica como é mesmo complicado para alguém que nasce numa classe social conseguir subir na escala das classes. Porquê? Porque nasce num contexto específico. Se a Joana nasceu numa família de classe média baixa, não teve acesso aos eventos culturais, aos livros, aos contactos a que o António teve acesso. Claro que depende do António, para além de ter noção do seu privilégio, aproveitar ou não as oportunidades que tem, mas para a Joana as ter, querendo-as, terá de trabalhar muito mais. Desta forma, será impossível que a Joana consiga criar um negócio profícuo ou que consiga um alto cargo numa grande empresa? Não, mas é muito mais fácil para alguém que tem uma rede de apoio financeira e contactos que potenciem a evolução profissional (para além de ser bem mais fácil para alguém que também seja um homem cis branco hetero, fica a nota).

Este caminho de lutar constantemente pode tornar-se um veículo de frustração, tirando o ânimo à Joana, porque é tudo difícil. Por este motivo, há muita gente que teria altas capacidades para cargos, mas que nem sequer terá a oportunidade de os conseguir. Claro que o António também tem os seus problemas — toda a gente os tem — mas o dinheiro não é um deles. Confrontado com estas realidades, Bourdieu afirma que o meio pelo qual será possível subir de poder económico em relação ao nascimento é a educação. Eu concordo. (Para além de ser necessário garantir uma melhor valorização de empregos essenciais.) Se não há igualdade na oportunidade de estudar, haverá igualdade de oportunidades? Não. Claro que já há algumas ajudas sociais, mas não chegam. Os livros são caríssimos, os materiais eletrónicos, as propinas; os transportes escassos/lotados para os subúrbios; as rendas altas perto dos campus das universidades… Considero que a “solução” seria tentar garantir ao máximo a igualdade de oportunidades pela educação e criar mais programas de mentoria profissional, para que as pessoas que merecem as oportunidades consigam ter os contactos que precisam. Quem luta na arena e se entreajuda, constrói a comunidade e potencia a sua evolução pela equidade.

Por tudo isto, não é só uma questão de foco — que sem dúvida é imprescindível —, é também, na essência, uma questão de privilégio.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio. Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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