Formada em design de moda, Eduarda Abbondanza iniciou a carreira na área da moda em 1985, em Lisboa, e em 1986, em Milão, Itália. Atualmente, é a diretora da Associação da ModaLisboa.

Prestes a iniciar a 55.ª edição do Moda Lisboa, o mote deste ano é o “Mais”. A edição está disponível, de 7 a 11 de outubro de 2020, tanto online como presencialmente. Com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, a base de operações presenciais ocorre nos Jardins do Parque Eduardo VII.

Em entrevista ao Gerador, Eduarda Abbondanza falou acerca das expectativas de uma nova edição face à pandemia instaurada no país.

Gerador (G.) – Descobriste a paixão pela moda quando foste morar para Milão. Como é que nasceu o projeto da Modalisboa? E porquê na cidade de Lisboa?

Eduarda Abbondanza (E.A.) – Eu morava na cidade de Lisboa, se bem que trabalhei no Porto durante dois anos e meio. O projeto da ModaLisboa, na altura, foi desenvolvido e foi entregue ao posto de turismo da cidade de Lisboa, pertencente à Câmara Municipal de Lisboa, daí a marca conter o nome Lisboa, numa altura em que ninguém fazia isso. Portanto, nós fomos os primeiros a incluir o nome Lisboa que atualmente é uma marca para todos, na nossa marca. Mais tarde, passamos a chamar-lhe de LisboaFashionWeek.

G. – Com a chegada da Covid-19, e posteriormente com o confinamento obrigatório, muitos foram os setores que viram os seus negócios ficarem em stand-by. No caso da ModaLisboa, de que forma o setor reagiu a este período de confinamento? Na altura, apostaram em novos mecanismos?

E.A. – É assim, nós conseguimos executar com muitos protocolos, e muitas normas de segurança a edição da marca da ModaLisboa. Portanto, já tínhamos mesmo muitas normas, como o álcool-gel, as aprovações da Direção Geral da Saúde, etc. Mas conseguimos executar. No domingo, mal acabou a ModaLisboa nós entramos em confinamento voluntário, porque tínhamos estado expostos a muitas pessoas. E, quando estávamos em confinamento voluntário, foi quando nos apercebemos de que tínhamos mesmo entrado em confinamento obrigatório. Não nos vimos mais. Claro que alterou o sistema todo. Eu dou aulas na faculdade, portanto nessa mesma semana comecei, igualmente, a dar aulas online também na faculdade, e isto alterou a maneira como nós pensamos esta edição.

Nós não pensamos esta edição à semelhança das outras. Nós pensamos esta edição a partir da situação que estamos todos a viver. Os criadores também. Portanto, nós estivemos sempre ligados online, todo o tempo, o confinamento e o pós-confinamento, tentando evitar situações de risco, trabalhando online quando é possível, e agora, numa fase mais executiva, fazendo reuniões presenciais, mas sempre com proteção, naturalmente. Como temos um evento para realizar nós todos, enquanto equipa, também nos protegemos muito nos nossos tempos livres. Não nos pomos em risco, temos essa disciplina há seis meses.

Por exemplo, esta é a primeira edição que vamos fazer sem qualquer estação. Exatamente porque os criadores tiveram uma quebra de vendas, como teve toda a moda, e, portanto, achamos uma atitude sustentável não estar ao abrigo de nenhuma estação, mas sim ao abrigo da estação que cada um dos designers decidir apresentar.

Fotografia disponível via facebook ModaLisboa

G. – O mote da edição da ModaLisboa 2020 é — “Mais”. Porquê esta expressão? Qual a principal mensagem que pretendes transmitir?

E.A. – Nós tivemos meses e meses online a assistir ao menos. Menos convívio, menos saúde, menos paz, menos comércio, menos emprego, menos moda, menos consumo, menos tudo. E, de repente, estava na altura de pensar o que iríamos fazer em relação à área que representamos, à indústria da moda. Só tínhamos uma lista de menos isto, menos aquilo, e através da fatia desse menos tentamos criar alguma coisa, o mais. Portanto, partimos da velha regra de, menos com menos, dá mais, e daí o ModaLisboaMais que traduz muito a nossa perceção e a maneira como nós fizemos o briefing para esta edição da ModaLisboa. Como sempre, os temas da ModaLisboa refletem aquilo que está à nossa volta, e aquilo que é o mundo. Portanto, nada mais simples do que transformar este nosso sentimento em mais, no tema da ModaLisboa.

G. – Excecionalmente, este ano, a ModaLisboa está a trabalhar em conjunto com a Altice para o desenvolvimento de uma aplicação móvel, de um micro site e de uma app TV. Para quando a data prevista de conclusão? E qual o objetivo principal destas ferramentas?

E.A. – Desde muito cedo percebemos que era claro que o online tinha superado o tempo de implementação naquilo que é a vida das pessoas no mundo inteiro. Superou mesmo décadas. Naquele momento, a única coisa que tínhamos era o online, que fazia aproximar a nível pessoal e profissional. Portanto, percebemos que, independentemente do que pudéssemos vir a fazer, nós teríamos de reforçar as nossas plataformas digitais, e teríamos de as reforçar porque parte da comunicação iria ser feita lá. Até porque, de futuro, mesmo quando a pandemia retroceder, nós não vamos voltar para trás. O online instalou-se nas nossas vidas, e instalou-se em todas as gerações. Deixou de ser uma coisa dos jovens, para ser uma coisa de toda a gente. Como tal, havia que reforçar essas plataformas de comunicação, e também porque o online é uma economia de comunicações.

Portanto, do ponto de vista da sustentabilidade, quando ele tiver em equilíbrio, que neste momento não está, ele vai cumprir uma função.

 Nós começamos por aí, tendo reuniões com o nosso parceiro tecnológico, que é a Altice, e foi um trabalho incrível que começou muito cedo, em confinamento, e como tal pudemos usufruir de uma disponibilidade de pessoas importantes da área. Em reunião com todos, fomos estruturando e trabalhando. Portanto, é uma parte muito importante da ModaLisboa, porque a parte digital é aquela parte que haja o que houver, conseguimos garantir. Como todos nós sabemos, cada dia é um dia. Portanto, temos de saber quais são as certezas que temos, que são poucas: a certeza de que no online iríamos produzir conteúdos e transmitir para toda a gente. Essa é a parte que conseguimos imaginar. Quanto à data, já existe, mas não sei de cor. Não me lembro se é cinco ou seis. Há um dia em que as plataformas vão ser lançadas para que as pessoas possam fazer os downloads, e comecem a utilizá-las para estarem preparados para os dias que nós pensamos.

G. – Em outras entrevistas tuas disseste o seguinte: “Não estamos [as mulheres] no apogeu, mas, nesta época, as mulheres estão a posicionar-se na liderança.” Atualmente, sentes que o papel da mulher tem vindo a ser enaltecido no mundo da moda?

E.A. – Eu tenho duas formas de falar disso! A primeira que é — nós enquanto organização não temos quotas, não fazemos essa distinção, porque dentro da organização da ModaLisboa a avaliação tem muito que ver com o mérito, ou a criatividade, e com os resultados de cada um. Portanto, isso está para além da orientação sexual, dos géneros. Esta é a nossa realidade desde sempre.

Depois, em termos do mundo, as mulheres têm vindo a ganhar força. No entanto, nos lugares de decisão máxima, em todos os organismos do mundo inteiro, elas não estão na mesma percentagem que os homens. Os cargos de decisão máxima vão optar maioritariamente por homens. É um caminho que se faz caminhando. É um assunto que está no ADN das nossas gerações. Uma mulher define o seu futuro em função da sua natureza e aquilo que quer para si, já não está tão presa como no passado.

Eu, por exemplo, que já sou muito crescida, tive uma educação que nunca se prendeu a isso, talvez por essa razão trabalhei nas estruturas que trabalhei. Nunca pensei que determinada coisa me estava a correr menos bem porque era mulher, nunca na vida. Se me viesse isso à cabeça teria sido uma tragédia, um horror. Naturalmente, eu propunha-me fazer o que a minha aptidão estava pronta. Mas, atenção, isto é diferente nas sociedades ocidentais.

Fotografia disponível via facebook ModaLisboa

G. – Na mesma entrevista acrescentaste, ainda: “O cabelo e a makeup são essenciais na definição de um look. Só com os vários elementos em coordenação se consegue transmitir uma mensagem.” Tendo como foco os profissionais dos bastidores dos desfiles consideras que estes são valorizados no dia a dia?

E.A. – Considero que naquilo que é a imagem, na coleção, eles são determinantes. Uma coleção não é só aquilo que a marca depois vende. Até porque as vendas das peças de roupas são sempre relacionadas com um look, com um estilo. Esse estilo não é dado só pela roupa, é dado pelo cabelo, pela makeup, pela atitude. Essa atitude é representada de muitas formas, e o cabelo é um dos elementos determinantes na identificação da atitude que uma marca pode ter. Quanto à valorização, sinto que há pessoas que valorizam mais que outras. Isto tem que ver com a sensibilidade das pessoas, mas os consumidores, atualmente, têm tantas marcas que quando escolhem uma em detrimento de outra resolvem ser fãs daquela marca. Não tem só que ver com a marca, tem que ver com a atitude, com a comunicação, com os valores que a marca defende. Atualmente, por exemplo, para além da atitude é muito importante para os consumidores os valores da marca. Ou seja, o consumidor está mais desperto para uma série de pormenores que o podem identificar mais com aquele produto. O vestir deverá ser uma extensão de nós próprios, daquilo que nós somos, daquilo que queremos comunicar que somos. Portanto, tudo isso passa pela roupa, acessórios, pelos sítios a que vamos, pelos artistas de que gostamos. E isso passa também pela roupa que vestimos. Uma pessoa que está vestida de uma forma que não é a dela, é como um peixe fora de água e vai-lhe retirar segurança.

G. – Na campanha ModaLisboa 2020 lê-se o seguinte: “A Moda não são apenas peças de roupa: é uma indústria, uma comunidade, é pensamento, é sociedade, é vida.” Sentes que a sociedade tem a perceção desta amplitude face ao panorama do nosso país?

E.A. – Trabalhamos todos para isso, haverá setores que sim, outros que não. A moda é uma disciplina, às vezes, difícil de entender para algumas áreas. Isto, porque a moda muda muito rapidamente, daí que as pessoas usem a palavra moda no seu discurso normal dizendo que são modas, não relacionando à própria moda. Há modas com letras pequenas, e há modas com letras grandes, que é uma disciplina. A moda é claramente uma disciplina que tem uma relação com a sociedade muito grande, com um fator criativo, mas faz parte de uma herança cultural também. As próprias questões do estilo. É muito fácil nós não termos elementos para estar nessa dinâmica, basta apostarmos numa atitude mais básica, uma roupa mais básica para nos criar alguma tranquilidade, repouso. O mercado contempla estas opções para todas as tipologias de pessoas. Isso é o lado mais democrático da moda, ter sido capaz de constituir propostas para todas as pessoas, não ter uma ditadura da moda. Há marcas, há histórias, há emoções, há liberdades. A moda é uma disciplina que só existe quando existe liberdade.

Fotografia disponível via facebook ModaLisboa

G. – Caso um indivíduo queira integrar a equipa da ModaLisboa que skills deve deter?

E.A. – Depende do sítio para onde vai! A equipa da moda tem muitas áreas. Nós temos uma equipa fixa de seis pessoas, mas nós não trabalhamos só entre nós. Nós trabalhamos com os criativos de muitas áreas. Trabalhamos com empresas, cultura, dança, etc. Portanto, para integrar a ModaLisboa teria de ser uma pessoa versátil, porque somos uma estrutura em que uma pessoa de comunicação pode fazer outra coisa, caso seja necessário. Temos de ser versáteis por um mundo que muda constantemente. Trabalhar na ModaLisboa tem de ter entendimento pelo mundo, pessoas criativas, boas pessoas. Por exemplo, todos nós ajudamos, quando foi do confinamento, alguma causa. Por isso, têm de ser pessoas sensíveis, solidárias, e que, de alguma maneira, querem ter um papel transformador na sociedade.

G. – Que projetos ainda gostavas de realizar a nível pessoal? E profissional?

E.A. – Não sei, continuo a pensar que gostaria de ter uma marca minha. Eu gosto muito desse trabalho. Depois tenho outras coisas mesmo muito pessoais…

Fotografia disponível via facebook Eduarda Abbondanza

G. – Há algum projeto futuro da ModaLisboa que gostasses de destacar?

E.A. – Para já, não. Nós estamos solidários com toda a gente a tentar resistir a este momento que estamos a passar. A nosso ver, esta resistência passa por duas frentes: por todos os protocolos de segurança, afastamento social, higienização, etc. Mas, para nós, o combate ao vírus também é continuar a trabalhar para que, quando for possível controlar a pandemia, o mundo não tenha acabado, e que as pessoas não tenham perdido a esperança.

Um exemplo disto, é o sangue novo que foi lançado ainda em pandemia, ou nos primeiros dias pós-pandemia, já não me lembro bem, e esteve em discussão se arrancávamos ou não, mas depois houve uma razão que me fez decidir. Estes jovens todos não existem sem esperança, sem sonho, sem futuro, porque a vida deles está para ser escrita. O sangue novo é uma esperança. E nós tivemos 100 propostas, mais que em período normal. Portanto, temos mesmo de nos manter ativos e não esmorecer pelo caminho.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Eduarda Abbondanza