Enquanto ouço um dos meus álbuns favoritos, The Miseducation of Lauryn Hill, um álbum com mais de 20 anos que começa com a típica chamada em sala de aula, surge-me a necessidade de falar de Educação e de perceber para quem é esta educação.

Em momento de eleições legislativas à porta e debates que não informam, apenas confundem e baralham, a página Voto Negro fez um trabalho de análise e congregação de dados demonstrando o estado do ensino para estudantes afrodescendentes:

Fonte: Voto Negro

Através de uma análise destes dados, percebemos que 5 vezes menos jovens afrodescendentes ingressam no ensino superior e que ingressam desproporcionalmente no ensino profissional.

Depois de eu própria ter frequentado a universidade em Portugal e no Reino Unido, ter feito a licenciatura e mestrado e não ter tido uma única professora ou professor negro/afrodescendente e de ter tido, ao longa da vida, apenas duas pessoas negras enquanto colegas de turma, depois de mais de 15 anos a trabalhar com jovens enquanto assistente social, em ter passado pelo apoio escolar, pela área da empregabilidade e pelo setor das novas tecnologias, a pergunta mantém-se: estamos a educar quem?

No outro dia falava com um grupo de jovens a trabalhar sobre educação e racismo na licenciatura de Sociologia. Perguntavam-se qual o papel da educação para a prevenção do racismo. A pergunta que lhes fiz de volta foi: Quantas pessoas negras/afrodescendentes tiveram ao longo da vida a dar-vos aulas? A resposta foi nenhuma. Seguidamente estas jovens revelaram que nenhuma das pessoas que estudaram, das quais leram as obras eram negras/afrodescentes. Estas jovens hoje com 19 anos (menos 15 que eu) vêm o mesmo que eu via quando fiz a minha licenciatura. As pessoas negras/afrodescendentes não chegam ao palanque, às listas de leitura obrigatória ou aos exemplos de sucesso.

Esta é uma realidade que revela um problema sistémico que estamos constantemente a tapar com a peneira e a querer negar, que é - existe racismo no ensino em Portugal e pouco ou nada é/foi feito ao longo dos anos para o desmantelar, para o revelar e rever, e para tornar o ensino mais acessível ou até um espaço seguro para jovens afrodescendentes. E toca ao fundo a música Forgive them father (Pai, perdoa-lhes) em que Lauryn Hill diz:

  • Forgive them father, they know not what they do (Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem) - Adequado na crucificação de Jesus Cristo e nesta situação também?

Cristina Roldão et. al. (2016) escreve no seu artigo “Afrodescendentes e oportunidades de acesso ao ensino superior”[1]:

"Passados cerca de 25 anos, muitos dos seus descendentes estarão hoje dentro da idade modal de frequência do ensino superior, contudo, tendo em conta o que mostram diferentes estudos, espera-se que o acesso desses estudantes ao ensino superior encontre ainda obstáculos, como nos deixam antever pesquisas, relativas ao ensino básico e secundário, sobre os resultados escolares (Casa-Nova, 2005; Marques e outros, 2005 e 2007); as estratégias educativas familiares (Seabra, 1999); ou a diversidade étnica dos públicos escolares e sua vulnerabilidade ao insucesso, explicada pelas descontinuidades culturais, e defendendo uma instituição escolar atenta à especificidade e diversidade étnica dos alunos (Cortesão e Pacheco, 1991; Cortesão e Stoer, 1996; Leite, 2002; Ferreira, 2008; Santos, 2004). Incluem também os discursos e práticas dos professores sobre a integração das crianças de origem estrangeira (sobretudo africana), assinalando visões deterministas do insucesso, atribuído a causas exógenas à escola; e inércia, desvalorização e expectativas negativas (Angeja, 2000; Milagre e Trigo-Santos, 2001). Algumas pesquisas têm mostrado que o preconceito étnico-racial está presente mesmo entre pares em idade infantil (6 e 10 anos), com as crianças brancas a tenderem a revelar esse preconceito, embora o dissimulem melhor com o avançar da idade (Monteiro et al, 2009). Para além disso, algumas pesquisas têm evidenciado que nos manuais escolares de história os africanos tendem a ser representados, implicitamente, de forma inferiorizada, assim como as lutas de libertação nacional em África, o colonialismo ou o envolvimento de Portugal no tráfico atlântico de escravos africanos de forma despolitizada (Araújo e Maeso, 2010)."

A contínua negação da questão do racismo faz com que professores simultaneamente não sejam formados para lidar com esta questão, não a entendam enquanto questão, e percebam todos os movimentos para trazer este assunto para a sala de aula como uma ameaça ao poder instituído, mesmo que este poder seja apenas aquele que eles e elas têm dentro da sala de aula. Ilustrador deste exemplo é o que responde um professor branco que acusa um jovem negro, que não está a fazer barulho, que é ele que está a causar distúrbios na sala de aula e por isso mandado para fora da sala. Quando questionado sobre o que aconteceu, o jovem diz:

- “A professora não gosta de mim, tudo o que acontece na sala… sou sempre eu.” E muitas vezes “é sempre” o jovem negro, cigano, de classe baixa, o que se senta na última fila da sala.

E a pergunta mantém-se: o ensino, a educação é para quem?

A resposta não é simples, no entanto, é cada vez mais escurecida (em vez de clara). Serve esta provocação não de resposta, mas de reflexão.

Se não fizermos/tivermos uma educação para todas as pessoas, como podemos querer que as pessoas que “são sempre” “o problema” deixem de ser?

Se continuarmos a utilizar os mesmos textos, os mesmos livros, os mesmos autores, os mesmos métodos?

Se continuarmos a privilegiar uma educação para a ordem e disciplina e não um ensino para a criticalidade e liberdade, será que teremos mudança?

Se o interesse pela mudança estiver apenas nas vontades dos oprimidos e não nas secretárias das escolas em forma da história contada, da literatura lida, do mundo lá fora e cá dentro, será que algum dia será diferente?

O que não podemos mais evitar ou fingir que não existe é a diferença e a diversidade, estas, mesmo que, cheguem apenas aos níveis primários da educação oficial, existem, estudam, trabalham, têm História e têm também um contributo inestimável que, ao fazermos de conta que não existem, não estamos a aproveitar e todas as pessoas saem um pouco mais pobres/pequenas/burras por causa disso.


[1] Ler artigo completo aqui.

-Sobre Alexa Santos-

Alexa Santos é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa, em Portugal, e Mestre em Género, Sexualidade e Teoria Queer pela Universidade de Leeds no Reino Unido. Trabalha em Serviço Social há mais de dez anos e é ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIA+ e feminista anti-racista fazendo parte da direção do Instituto da Mulher Negra em Portugal e da associação pelos direitos das lésbicas, Clube Safo. Mais recentemente, integrou o projeto de investigação no Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Diversity and Childhood: transformar atitudes face à diversidade de género na infância no contexto europeu coordenado por Ana Cristina Santos e Mafalda Esteves.

Texto de Alexa Santos
Fotografia de Lisboeta Italiano
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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