Numa madrugada fez-se a página, o logo e tudo o que fosse preciso para a construção do Grupo EducAR, visionado em 2016 pelo professor de História e doutorando em Antropologia, Danilo Cardoso, depois de vir do Brasil para Portugal — perceber todo um sistema de servidão, obediência e racismo que descreve como assustador (dentro e fora da restauração) —  e oficializado, em 2018, com o evento dos 15 anos da Lei brasileira que obriga o ensino de história da cultura afro-brasileira e indígena junto aos 20 anos de existência da Casa Brasil em Portugal, celebrado com o primeiro de três “Ciclos de Encontros de Educadores Antirracistas”.

O ciclo, “projeto esqueleto” do EducAR , “tem como principal objetivo: (re)pensar a Educação dentro e fora da escola com um compromisso antirracista a partir da realidade social portuguesa e do seu diálogo com experiências africanas e brasileiras, experimentando “diferentes espaços e públicos”, tendo “a arte-educação como caminho e fim” – afirma-se na descrição do grupo. 

“A educação antirracista é um termo muito novo, eu acho que faz sentido porque é bem demarcado, bem posicionado, a gente mira como quer. Tal não seria necessário se a educação sem o ‘antirracista’ fizesse a parte dela, mas a escola acaba por reproduzir tudo – desigualdade, preconceito, etc. O ponto de partida para a educação precisa de ser antirracista porque, se não, não há transformação nenhuma, se o eixo não for esse, é tudo balela e romance”.

Ainda no ano de 2018, existiram “pontapés iniciais” quando Beatriz Gomes Dias – com quem tinha grande afinidade —, apresenta Danilo a Ariana Furtado, Ana Stela, Célso Soares e Simone Andrade. Daí surge uma parceria na criação de “Com a mala na mão contra a discriminação: Uma viagem pela história dos nossos direitos”, um projeto contemplado pela primeira edição do edital do Prémio de Direitos Humanos.

Hoje, desenvolve-se no mesmo edital o projeto “O Dicionário de Princípios: Um guia para ver e ouvir a cidade”, que consiste na construção de um dicionário por crianças de oito anos, da Escola Básica do Primeiro Ciclo Professor Oliveira - Agrupamento de Escolas Patrício Prazeres, onde ilustram e definem algumas noções ligadas aos diretos humanos. Através de linguagens próprias, as crianças pensam o que é cidadania, direito, preconceito, liberdade e igualdade. Para além disso, irão ilustrar o dicionário e desenvolver um audioboock com as suas vozes. “Estamos à espera do regresso às aulas presenciais para implementarmos o projeto nas escolas” – finaliza Danilo.

Dentro do, agora, desejo de formalização continuam a ser criadas atividades como os “Ciclos de Encontros de Educadores Antirracistas”, o “Jardim de verão”, “Diário do !agora!” ou o lançamento da revista “RAIAR – Revista de Arte Intervenção Antirracista”, e pesquisas como “Memórias do racismo académico português”, o nome do formulário que integra uma comunicação-investigação aceite pelo GT80: "Universidade e racismo: resistências na produção de conhecimento e políticas públicas num espaço branco” para o XIV Congresso Luso Afro-Brasileiro, que se realizará de 15 a 17 de setembro de 2021, em Coimbra.

“O objetivo da pesquisa é mostrar que o racismo estrutural está na academia – que subentende-se um lugar que não tem racistas porque toda a gente é “inteligente”, e mostrar a multiplicidade de manifestações de racismo – não existe racismo apenas entre professor e aluno, também existe entre funcionário e aluno, entre setor de propina e aluno, e outras várias relações. É exatamente mostrar que esse racismo está nesse espaço de poder e conhecimento, que não é blindado. A ideia maior é mostrar que isso tem de ser um projeto de estado – criminalização do racismo, por exemplo”

Oficialmente, participam 22 pessoas no EducAR e existe uma “comissão de frente” constituída por Danilo Cardoso, Ana Stela, Andressa Lopes , Helena Vicente, Mérita Fortes e Maíra Zenun, um grupo maioritariamente brasileiro com gente que mora em Portugal, Brasil, Senegal, França e Inglaterra

Com Danilo Cardoso, que começou no Brasil, como arte educador num projeto com crianças dos 6 aos 17 anos e como alfabetizador numa prisão de jovens, no projeto “Brasil Alfabetizado”, do Governo Federal, onde diz ter entrado inevitavelmente em contacto com a “lente freiriana” para pensar a educação – por Paulo Freire ser também um filho de Pernambuco (Recife), criou-se, em três horas de chamada pelo Zoom, um recorte da história do EducAR que pretende, tal como o grupo, desencadear interesse e ação por quem lê.

Gerador (G.) – Conta-nos mais sobre as influências do método de Paulo Freire no teu trabalho.

Danilo Cardoso (D.C.) – Paulo Freire é uma referência brasileira mundial e tem essa preocupação com a alfabetização, não no sentido de instrumentalizá-la. É uma alfabetização mais cultural — de leituras do mundo, do que o simples ato de ler e escrever, apesar de que ele também enfatiza que dominar a ferramenta do ler e escrever é uma forma de emancipação. Sai do Brasil perseguido pela ditadura, tem várias experiências na América latina, em África e vai aperfeiçoando essa questão de um método para poder emancipar essas pessoas, tanto na escrita como na leitura do mundo. Ele tem algumas questões conceptuais de partida e de palavras geradoras, partindo da utilização de instrumentos da realidade quotidiana dos alunos, aí é que vai fazer sentido o ler e escrever. Tem vários livros, um clássico é a “Pedagogia do Oprimido” e só fazendo um upgrade, a Bell Hoocks é que vai dar uma potencializada nele porque é um homem branco brasileiro e a Bell Hoocks vai pegar o centro da discussão de Paulo Freire e adicionar essas questões raciais e de género. Hoje vejo como uma continuidade muito maior do que o Paulo Freire produziu. Eu acho que no livro “Ensinando a transgredir”, da Bell Hoocks, estão os dois juntos porque ela faz referência ao Freire, e eu gosto muito do uso que ela faz da história dela para justificar o seu posicionamento. Gosto muito da ideia da transgressão. No EducAR nós trabalhamos muito com desobediência e a galera fica meio em pânico e eu penso que é preciso abraçar esses conceitos sem achar que eles são do mal, sem achar que é pecado transgredir, que é pecado desobedecer. É exatamente nesse nadar contra a corrente que está uma possibilidade de transformação.

Paulo Freire tem um contacto com Amilcar Cabral no processo de independência, e existe uma preocupação sobre a educação num contexto de guerra, algo muito particular, na Guiné. Eu fico pensando muito na bagagem do Paulo Freire que coloca na mesa várias questões, principalmente essa da opressão. Ele pensa muito a educação como liberdade, por isso é que ele se foca na opressão, porque se a educação não for libertária, não há educação.

A educação tem de fazer parte do processo de libertação. O que é a educação escolar? Cheia de regras, normas do que pode ou não pode ser. Já se oferece uma coisa pronta, que é aquilo que Paulo Freire chama educação bancária. Uma educação que formata e padroniza todo o mundo e você não tem esse uso de criatividade e produção de conhecimento com autonomia. Autonomia, por exemplo, é um ponto a que ele vai se dedicar na década de 90, no livro “Pedagogia da Autonomia”. “Pedagogia do oprimido e “Pedagogia da Autonomia” são os principais.

A autonomia é fundamental para nós pensarmos liderança. Se todo o mundo for autónomo para quê existir tanta liderança? Liderados e lideranças de todos os lados, é uma coisa que eu sinto muito em Portugal, fico perplexo com isso e pergunto-me como assim não vamos construir juntos, em vez de acordo com alguém que está acima de nós.

Ter hierarquia é uma coisa muito louca. Como existe um processo de construção ligada à educação com hierarquia? No EducAR usamos a questão do horizontal e um exemplo é a forma como comunicamos com as pessoas — que é sempre na horizontal, seja no email, numa discussão, dentro da academia, espaços formais e informações, porque se reproduzirmos essas hierarquias, rola uma hipocrisia.

Nós queremos uma educação antirracista e não vamos reproduzir esses detalhes hierárquicos de liderança. Ou é para ser de facto ou se não é melhor nem fingir porque fica feio.

(G.) – Experimentamos diferentes abordagens e formatos para diferentes espaços e públicos tendo a arte-educação como caminho e fim” — é uma das frases utilizadas para descrever a ação do EducAR. Como é que a arte-educação se aplica nas atividades do EducAR?

 (D.C.) – Eu acho que a arte-educação é a combinação mais revolucionária que pode existir por diversos fatores. Por ser uma coisa libertária de envolvimento, de permitir múltiplas leituras e estimular uma criação autoral. Existem dois conceitos complementares que nós usamos bastante, que é a questão da autoria e da coletividade — por se tratar de uma discussão antirracista é inevitável  não ir para a narrativa de discurso oficial em todas as discussões, e digamos que quando pegamos num poema, música ou imagem suponho que isso humaniza, porque tira desse duelo de ficar discutindo sobre o certo e o errado, o coerente e o incoerente. Existem várias coisas para além do verbo que são fundamentais para se pensar e repensar o quotidiano, porque não se trata de decorar um vocabulário politicamente correto ou adquirir conhecimentos especializados, é uma mudança substancial da forma de ser, fazer, agir, pensar e sentir, dentro de uma sociedade, em todos os lugares, com todas as pessoas. É uma atenção que pode adoecer – a saúde mental também é fundamental nesse processo todo. É uma atenção de se estabelecer laços de afeto do tipo – “eu só vou-me preocupar com esta causa se eu conviver com as pessoas que passam por esta situação”.

São vários os projetos e eles têm pegadas diferentes, por exemplo, o “Jardim de Verão” consiste em se discutir a partir de arte e artistas negres, ou seja, você conversa sobre coisas, mas com um referencial negro para se pensar. Tem a questão da informação, mas também, da surpresa porque como a galera desconhece muita coisa, quando você apresenta coisas diferentes — que ninguém sabe que existe, rola um impacto de conhecer o “novo”. No “Ciclo de Encontros de Educadores Antirracistas” — já estamos na terceira edição, tudo está mais académico porque virámos o jogo e estamos discutindo branquitude, então estamos metendo texto e está bem académico para todo o mundo ficar feliz e sabido. Em todas as outras ações sempre colocamos a arte no centro e começamos uma discussão/troca, que é um formato que assusta. Todos estão preparados para participar de uma palestra que alguém muito importante ou intitulado vai falar, mas todos nós somos importantes, todos nós sabemos muita coisa então o formato de roda, às vezes, para Portugal, nos coloca numa posição de menos legítima. Como a galera está acostumada com essa palestra para multidões, quando a gente fecha tudo em roda, a galera fica assustada com a dinâmica — que não é uma coisa do EducAR , nós não inventámos a roda, apenas usámos uma coisa que muita gente já faz por aí. A outra questão é a de inverter a fala pela escuta. A roda não é um lugar para você

ficar falando, é um lugar para você muito mais escutar do que falar. Você escuta, fica aí, processa e vê o que é que faz. Os usos que se fazem do lugar de fala parece uma briga das cadeiras – parece que a galera briga para sentar numa cadeira, me faz confusão. Falar é importante, mas escutar é fundamental. Se você escuta bastante, você fala menos besteira e aprende a filtrar essas palavras também, então a combinação da arte e da educação é potente para nós conseguirmos tocar em vários assuntos de uma maneira menos tensa, menos bélica e mais humana.

Outra preocupação que acho que o EducAR tem é o facto de fazermos um encontro e pedimos que se escrevam palavras ou se façam desenhos. Aquele desenho que vai ser feito naquele dia, naquela roda tem a autoria de quem participou e foi feito em conjunto. Isso também é memória. Eu acho que Portugal está num regate de memória do passado, mas não existe uma preocupação em construir memórias agora. O que estamos construindo enquanto memória agora? Escrevermos o que se faz nos encontros é uma forma de memória,  porque o que não tem registo nesse mundo vai embora, é como se não tivesse acontecido. Por exemplo, os registos do que temos feito como o documentário do SOS Racismo, com uma preocupação com a imagem, as fotografias dos protestos, é bem recente. Acho fundamental nós conseguirmos ter uma preocupação nessa construção da memória agora, então se eu pegar num desenho de uma ação, isso pode gerar uma identificação. Existe um laço estabelecido entre as pessoas quando se usa a arte-educação nas ações, acho que dá uma cumplicidade.

(G.) – Das atividades realizadas, o que ficou registado a nível artístico?

(D.C.) – No ano de 2020, sem sabermos que ia ter pandemia, montámos o Diário do !agora!, para ler poesia e escrever versos. Tivemos oito convidados e convidadas, quatro mulheres e quatro homens poetas de Portugal e tínhamos um exercício no final de cada encontro em que as pessoas escreviam versos. Aquilo é um registo escrito que possivelmente vai ser publicado, a ideia é que o livro tenha os roteiros de todos os encontros e alguns resultados das pessoas que participaram para que isso sirva de roteiro para qualquer pessoa. Se alguém quiser pegar nesse livro e pensar no tema que a Raquel Lima usou no roteiro dela, usar os mesmos materiais – vídeos, músicas, e fazer o exercício, isso também pode se multiplicar. Parece uma coisa boba porque nós infantilizamos muito a questão artística – ou a arte é produzida por pessoas virtuosas ou ela é uma coisa de criança, então rola meio isso — ou é artista profissional ou é desenho de criança. Desenhar é uma coisa que nós paramos de fazer, o adulto não desenha, o adulto não escreve poesia. São bloqueios bizarros que a sociedade vai impondo e as pessoas vão interiorizando e eu acho que é exatamente nessa criatividade e imaginação, que existem possibilidades de transformação, nessa outra construção espontânea que obviamente dialoga com liberdade, emancipação e tudo mais. A arte-educação entra mais ou menos nesse sentido. Mandámos o material para o museu, acho que vai sair uma publicação do que foi o evento.

Temos duas instalações em processo de divulgação para espalhar pelo mundo — é só chamar que nós levamos a instalação. Uma é “Ver a Cidade pelas Suas Vozes”, o que a gente construiu para o Festival Todos 2019 e a “Educação pela Pedra” são instalações artísticas cheias de bombas dentro dela, que as pessoas vão interagindo. Quando disse que a arte-educação é um começo e um fim, é porque muita gente usa a arte educação como meio, mas a arte educação, por si só, é educativa. Se eu interajo com uma instalação dessa, eu já estou no processo de educação e não são necessários professores, nem ninguém. Por isso é que acho que a arte-educação é uma bomba.

“Ver a Cidade pelas Suas Vozes” são áudios com vários headphones e mp3. Cada mp3 tem uns quatro a cinco relatos curtos que fomos coletando, com várias situações – em SEF, escola, academia, trabalho, entre outros. A maioria dos relatos são de mulheres e nós deixámos disponível para que as pessoas oiçam as bombas bem ao pé do ouvido e as reações são incríveis. Nós ficamos com as pessoas junto à instalação caso queiram conversar depois. Quando fizemos isso no Festival Todos, uma senhora branca portuguesa disse que tudo aquilo era um absurdo, e quando uma brasileira, que faz parte do EducAR, foi conversar com a senhora, a senhora disse que odiava as brasileiras na cara dela. Existem pessoas que choram, outras que vão para o meio da roda e passam o que sentirem dos áudios para uma ilustração.

Áudio "Ver a Cidade pelas Suas Vozes"

A “Educação pela Pedra” está sempre aberta. São três elementos, um poema, fotografias de pessoas – Viriato, Infante Dom Henrique, Salazar até Mamadou Ba, Joacine Katar Moreira e pessoas desconhecidas, ao todo 25 fotografias, e como está em construção e desatualizada, e 70 notícias – prints de jornais, ligados ao racismo. Existem algumas que são de xenofobia, mas a maioria é de racismo. Eu criei isso para a exposição “Arte Para Todos” no ISCTE. Pensei logo em fazer essa bomba. Foi na semana da implementação do estado de emergência. Escrevi o poema, meti as fotografias que nós já tínhamos de uma atividade do EducAR e coloquei 50 notícias de 2015 a 2020. Em setembro, fui convidado para participar na exposição “Revolução em Marcha” no espaço Santa Catarina, ou seja, de março a setembro adicionámos mais 20 notícias, o que é lamentável. A última vez que partilhámos esta exposição foi no Bairro do Fim do Mundo, em Cascais, que uma colega nossa, a Eleonor Mata, convidou. De outubro até agora (fevereiro), já tem um monte de bombas. Ontem teve bomba. Não sei nem se já passou de 100 notícias.

Visualmente, é muito bacana porque ocupa uma parede toda, tem esse jogo das fotografias coloridas com as notícias a preto e branco e uma chuva de notícias porque você tem de tudo – violência policial, académica, despejo e aí fica nítido que não são casos isolados.

Essas duas obras falam por si e nós lamentamos por não circular muito, mas agora estamos fazendo um catálogo para que elas possam circular. As duas obras vão fazer parte de um projeto que está em construção, que é o “CirculAR: Circuito de Cultura Antirracista” que consiste em pegar projetos já desenvolvidos e oferecer para as juntas de freguesia, bibliotecas, escolas e para quem quiser. Seria uma intervenção, durante alguns dias, por meio desses projetos.

(G.) – Na primeira pergunta referes que o EducAR trabalha muito com desobediência, que tipo de desobediência?

(D.C.) – Quando entramos, fazemos as coisas como queremos. Tem muito essa questão do: “Portugal é assim, aqui é assim” e que seja assim, mas nós tentamos driblar isso. Acho isso fundamental, assim como a desobediência de rua. Temos o projeto “MorAR” em que ocupamos um lugar que já é frequentado, na maioria por pessoas africanas,  indocumentados e foi onde fizemos o CineExu. Como tinha a pandemia não foi linear mas a ocupação daquele espaço é desobediente no sentido de se permanecer e provocar. A questão de ocupar o espaço público com produção, que dialoga muito com o PIxa Bixa nos lambes — nós também expomos algumas coisas na rua. O fim do ciclo sempre é na rua – nem sempre porque o ano passado teve pandemia e este ano ninguém sabe, mas o primeiro foi no xixi, o termo que se usa para o espaço atrás da Padaria Portuguesa do Martim Moniz – porque a galera faz xixi na escada. O ponto de encontro é o restaurante da Mama – onde se conversa, come, fuma e bebe, é outra dinâmica.

No “Jardim de Verão” rola uma desobediência que é levar uma discussão dessa para um jardim em que supostamente as pessoas estão, muito tranquilas, tomando banhos de sol. O fazer sem comunicar também é desobediente.

(G.) – Achas que existe um descrédito por ser um grupo de maioria brasileira? 

(D.C.) – Dentro da bolha portuguesa, independente das cores, existe um problema seríssimo com o brasileiro/brasileira. Em relação à educação antirracista, acho que existem alguns problemas pelo Brasil não ter tido uma luta pela independência, tudo nos foi dado historicamente, não foi uma questão revolucionária — se compararmos as lutas de libertação em África com a independência do Brasil, não tem nada que ver.

A questão de o movimento ter conquistado muitas coisas e do Brasil estar a anos luz, lá na frente, é como se nós não pudéssemos discutir aqui – tanto por ser brasileiro como por, muitas vezes, não ter uma negritude física. É como se fosse uma treta entre Áfricas e Portugal: “Não se metam porque primeiro vocês não são tão negros assim”.

Outra coisa que entendi é que é como se a cultura do brasileiro em Portugal fosse a de fazer uma grana e voltar: - “Vem , faz mestrado e volta”, ou “Vem, faz um dinheirinho e abre uma empresa no Brasil”, e isso faz com que as pessoas não estabeleçam laços porque pensam sempre que vamos voltar, mas é uma sensação de: - “Volta para a tua terra”, que, para mim, eu sinto que todo o mundo quer que a gente volte.

Portugal é muito pequeno, todo o mundo se conhece, existe um medo de errar, as pessoas querem construir coisas perfeitas e aí demora muito. A experiência do Brasil é de ir fazendo. Nós não temos problemas em errar, pedir desculpa. O como deve ser é uma coisa insuportável, é uma coisa muito regrada. Muita gente chega no EducAR e pergunta como se deve fazer as coisas e eu respondo que a pessoa é que vai encontrar a forma de fazer aquilo.

Essa treta com o brasileiro tem muito que ver com essa maneira de ser e estar. Tive vários conflitos com as pessoas porque, querendo ou não, eu faço parte do movimento negro português e quando eu falo mal do movimento, eu estou falando mal de uma coisa que eu participo e isso é legitimo, é saudável, mas a galera se ofende muito. Existe uma fragilidade portuguesa que passa muito por aí.

Percebo também que a galera, às vezes, volta os olhos muito para o movimento negro dos Estados Unidos por ser mais legítimo, porque é inglês. A questão do inglês, é uma coisa que eu acho muito bizarra, tanto na academia como fora da academia. Eu consigo entender que é uma língua universal, mas se todo o mundo falar essa língua ela vai continuar a ser hegemónica. Estamos defendendo uma língua e atrás dela tem uma política também.

Isso tudo não é culpa das pessoas, é herança do colonialismo. São poucas as pessoas que estão na linha da frente. Existe muito a questão das lideranças e dos seguidores, e acho que ampliar, redistribuir a luta é fundamental para tudo isso, mas em Portugal, existem as ciladas das lógicas brancas. A galera se organiza como branco para lutar contra a branquitude. Mas estamos juntes, construímos juntes.  

(G.) – Em que sítios o movimento não chega e o que se conclui desses espaços?

(D.C.) – Tem um diferencial nesse não contacto do movimento negro com essa região do xixi, que a gente não se relaciona. Os africanos que frequentam o chichi, na maioria das vezes, não são PALOP, então existe outra questão em jogo. O movimento negro português é palopiano e os outros africanos, onde eles ficam dentro do movimento negro? Tem muito congolês e senegalês. É uma galera que não precisa desse movimento porque os interesses são outros.

Agora estamos fazendo campanha porque o restaurante Hollywood está fechado e tem muita gente passando fome. Essa campanha começou quando o restaurante fechou para obras, quando bateu o frio, covid e fome. A campanha era de roupa, mas já está ficando calor — então já não é tão fundamental, comida principalmente para as mães e é possível a doação de dinheiro. O que eu acho bacana do EducAR são as várias frentes.

Este ano pensámos na construção de um catálogo de formações – que não pode ter este nome por causa das burocracias de Portugal, que dialogassem com a educação antirracista, forçando a aproximação de temas distantes ou de temas mais específicos como o racismo linguístico e o racismo religioso, agora em março. A nossa luta vai ser: Quem é que vai legitimar os antirracistas de Portugal, se para se ser um “profissional antirracista” são necessárias outras habilitações que não as académicas? E isso entra em choque com as recomendações do Concelho Nacional de Educação do começo de novembro do ano passado.

Um documento lindo e cheio de problemas: primeiro que usam teóricos brancos para justificar as recomendações — não cita despejo, violência policial, morte, linchamento, só cita os autores brancos. Fala de dar autonomia para as escolas contratarem equipas especializadas, mas quem são esses profissionais habilitados para falarem sobre antirracismo? Isso me cheira a golpe – brancos vão se formar antirracistas para assumirem esses lugares. Fico pensando em quem não tem formação académica – existem lideranças das comunidades que têm autonomia de sobra para serem formadores. Quem vai legitimar essas pessoas para ser um formador/a? A treta da formação nesse Portugal velho de guerra é o seguinte – a acreditação de formação foi descentralizada, saiu de Lisboa e foi para a Universidade do Minho, porque estava tudo no Ministério da Educação aqui em Lisboa, ou seja, mandou a creditação de todas as formações do país lá para o norte e é tudo burocrático. Têm a plataforma CCPFC, você vai lá preenche, a galera avalia os teus diplomas e dá uma credencial de formador, te legitima. Como vai funcionar isso para o antirracismo? É preciso haver uma comissão – não sei em qual departamento — para legitimar essas formações que tenham outra abordagem, outro ponto de partida. Estamos indo na criação de um catálogo para tentar disseminar essas informações, reunir as pessoas e se encontrar — a galera está toda lutando e não têm tempo para se conhecerem, relaxarem. A formação vai ter o mesmo formato do ciclo onde sempre tem uma ação que fecha o ciclo, que pode vir como um desenho numa atividade ou como uma ação pensada, mas que não se fique na teoria. A discussão /reflexão precisa sair do corpo coletivamente e se transformar num ato, então essa ação é praticamente um fundamento.

Realizámos o “Ciclo de Comunicação Não Violenta” e o de “Mindfullness” que tinha, mais ou menos, entre 10 a 15 pessoas, e pagantes, porque essa também é uma questão, visto que, a galera acha que a educação antirracista é uma missão jesuítica. Nós não estamos comercializando as formações, estamos reunindo fundos e o dinheiro vai direto para os formadores, e os formadores são convidados a doar uma parte para o EducAR.

Temos dois projetos aprovados pela Europa o “MorAR”, o Movimento de Rua Antirracista, em parceria com a Kazumba e financiado pela European Netwoking Againstg Racism e outro é o VIBE - Voices os Iberia in Black Europe, projeto da Kazumba em parceria com o Grupo EducAR e a revista La Rampa, financiado pela Culture os Solidarity Fund

A galera acha que a gente mama no dinheiro.

(G.) – Disseste que dar autonomia para as escolas contratarem equipas especializadas pode ser visto como um golpe para que a branquitude assuma esse lugar por causa do financiamento que é dado. Essas pessoas possivelmente vão à procura de formações e mesmo não tendo o poder de formar oficialmente pessoas, o EducAR pode ser um espaço para essas pessoas conseguirem ocupar esse lugar de consultores antirracistas. Como tem sido pensar a educação a partir da realidade social portuguesa?

(D.C.) – Agora o tema é a branquidade e agora ela é o público, nas duas primeiras edições as nossas temáticas eram mais raciais, digamos assim, e nós ficávamos meio que “chorando” os nossos problemas à frente da branquitude. Inverter o tema seria uma forma de fazer com que essa branquitude tome iniciativa para mudar as coisas. Entendo perfeitamente essa instrumentalização do EducAR, mas se tratando de ferramentas, eu não vejo como algo nocivo porque o que nós oferecemos nessas formações são referências de livros e conhecimento. Obviamente que as pessoas podem pegar nisso e trilhar um caminho de especialista – isso não tem como controlar. Como nós valorizamos outras coisas, por exemplo, no ciclo existe uma orientação no final do formulário – nesse ciclo o privilégio de falar não é do branco, escute e fale só se for muito importante. Eu acho que o tratamento que a gente dá para esses encontros faz com que esses aproveitamentos sejam mais vergonhosos.

Acho que nós inibimos essa possibilidade de continuarem se aproveitando das coisas porque esses ciclos dialogam com essa urgência de ser frontal. Rola meio que um pânico porque as coisas são feitas de forma incômoda e frontal – chega de agradar, vamos falar das coisas como elas devem ser. A única coisa que conseguimos constatar no ciclo é o quão ignorantes as pessoas são, mas o racismo não é só uma questão de ignorância – não é só consumindo esses livrinhos que você vai estar feita na vida. O que nós destacamos mais é a questão do que fazer com essas referências. Eu sempre falo que não gosto de receita de bolo porque não funciona, cada situação é uma situação, existem várias formas de usar essa bagagem teórica e essa problemática social, mas controlo não tem como.

Nós temos uma campanha de material em paralelo ao ciclo que gira mais no Instagram. Antes de cada encontro do ciclo nós lançamos uma pergunta meio provocadora. Algo para você ouvir, para ver, ler e fazer, para também trabalhar com os sentidos. 

É uma casca de banana nós acharmos que temos de ler ou usar certos termos, isso distancia-nos de muita gente — se não fica académicos falando para académicos e assim consecutivamente. Desglamorizar a discussão, é falar para todo o mundo entender, falar de casos quotidianos, corriqueiros e ilustrar muito todos os episódios, então fica inevitável questionar uma coisa que a pessoa está relatando. A pessoa está mentindo? 

(G.) – Qual é o feedback dos eventos sobre e com a branquitude?

(D.C.) – Essa branquitude está toda organizada em bolhas – o máximo de contacto que ela tem com essas outras realidades é através do “amigo negro”, é muito pequeno, então quando você reúne-se com pessoas que você não conhece e escuta, já causa um furo nessa bolha. O que nós sentimos é que existe uma questão de sensibilização – não adianta só escutar, tem de se sentir. Os finais de todos os encontros dão uma satisfação de que se aprendeu de facto alguma coisa – coisas que não eram sabidas passaram a ser conhecidas. Não muda um jeito de ser, estar, pensar e agir, mas acho que é na base da sementinha. A escuta é o que é mais transformador para a branquitude, porque às vezes é violento você escutar — você se acusa. Se você escuta uma bomba – no sentido metafórico, aquilo pode ser violento para o seu lugar de conforto e você vai ter de lidar com a violência daquela outra realidade sozinho. Essa construção de consciência é o mais transformador.

(G.) – A campanha de formalização do EducAR vem dessas burocracias de Portugal?

(D.C.) – Nós fazemos muita coisa ao mesmo tempo, sem ser organização e sem dinheiro, por isso é que nos vamos formalizar, o que é uma cilada porque se a gente se formalizar vamos ter de ter presidente, ata, votação. A nossa dinâmica é saudável, nós não precisamos disso, só que existem coisas que nós não conseguimos participar – isso é o principal. A formalização irá potencializar os nossos projetos, no que diz respeito a financiamentos por exemplo, é um passo necessário para a gente conseguir continuar a caminhar porque não existe fundo nenhum

(G.) – Quais são os próximos passos desse caminho?

(D.C.) – Sonho que o EducAR permaneça uma plataforma aberta e horizontal, que não esteja limitada às fronteiras de Portugal — que seja uma plataforma transatlântica, onde só se agregue e consiga multiplicar contactos, laços e vínculos, concretizar o que nós acreditamos, seja por livro, revista ou ação. Dar forma ao que se acredita.

O próximo projeto é com as Mulheres Negras Escurecidas (MNE) utilizando as redes sociais – pensando em como podem ter esse poder educativo, que seriam alimentadas por alunos do 12º ano. O mote é a realização de conversas sobre o que é ser homem, o que é ser mulher e o que é que nós podemos ser para além dessas duas coisas. A ideia é que se converse e aprofunde esses temas, mas eles é que vão produzir conteúdos para alimentar essas redes. Eles vão se educar entre jovens. É para ser algo cuidado, ou seja, eles entrevistam-se uns aos outros com orientação, e depois do projeto a rede continua com eles administrando. O protagonismo é deles, nós só damos umas dicas.

Texto por Filipa Bossuet

Fotografia da Cortesia do EducAR