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Ela é brasileira!

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shenia Karlsson, a propósito do episódio de racismo na praia da Costa da Caparica, fala-nos na necessidade de o Estado encontrar estratégias para o término de episódios de raciscmo ou xenofobia no espaço público."Para imigrantes neste país, é frequente a vivência de situações semelhantes, considerando o aumento do fluxo imigratório aliado à rejeição da sociedade portuguesa. Por um lado, políticas de incentivo a imigração por parte do Estado português, por outro, a inabilidade do Estado em trabalhar a consciência da sociedade através de campanhas nacionais."

©Flávio Tepperman

“Para quem não sabe, a mulher conduzida à esquadra é brasileira, não podemos esquecer da existência de brasileiros de extrema-direita a viver em Portugal.”

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Essa foi a primeira fake news a circular nas redes sociais sobre o caso dos atores brasileiros Giovana Ewbank e Bruno Gagliasso. O caso ganhou uma enorme repercussão internacional. A família enquanto aproveitava suas férias numa região praiana em Portugal, tiveram seus filhos negros vítimas de ofensas racistas proferidas pela PORTUGUESA Maria Adelia Coutinho Freire de Andrade de Barros, sim, uma PORTUGUESA branca atacou crianças negras gratuitamente numa praia enquanto elas brincavam. Eram apenas crianças embora o racismo desumanize tudo que vê pela frente.

“Negros imundos”, “Voltem para sua terra”, “Aqui não é lugar nem para africanos e brasileiros”.

Maria Adelia, portuguesa.

Parece uma inocente falsa notícia, entretanto, contém nela algo de muito estratégico: o mecanismo projeção. Conceito abordado amplamente pela Psicanálise, a projeção é um mecanismo de defesa ativado diante de algo que é insuportável ao consciente e, rapidamente deve ser deslocado ao outro (nesse caso a vítima) evitando então o insuportável desconforto. O racismo enquanto estrutura contém nele pactos coletivos inconscientes e produz tais movimentos a fim de responsabilizar as vítimas pelas violências sofridas e/ou, suavizar as atitudes do membro do grupo protetor do pacto.

“Há racismo em Portugal, mas não podemos generalizar.”

Presidente da República Portuguesa

Para imigrantes neste país, é frequente a vivência de situações semelhantes, considerando o aumento do fluxo imigratório aliado à rejeição da sociedade portuguesa. Por um lado, políticas de incentivo a imigração por parte do Estado português, por outro, a inabilidade do Estado em trabalhar a consciência da sociedade através de campanhas nacionais. Como Psicóloga Clínica, ouço casos de xenofobia e racismo diariamente, não é uma surpresa. Surpresa mesmo foi ver uma portuguesa a ser encaminhada à esquadra, enquanto negra, mulher e brasileira, provavelmente, quem iria presa era eu. Detalhe, ela foi detida por desacato a polícia e não por racismo, mas já imaginávamos.

Em termos de identidade nacional, podemos pensar o quão difícil deve ser para uma parcela da sociedade portuguesa ter de conviver com as diferenças, tudo aquilo (na opinião de muitos, é claro) que não reflete o próprio espelho. Trata-se de um espelho idealizado, construído ideologicamente e permeado pelo saudoso colonialismo. Os antigos colonos assumem quase uma posição de “retorno de recalcado”, causando assim uma enorme ameaça de invasão. O sentimento de ser “invadido” remete ao peso dos que historicamente constituíram-se por invasões sistemáticas e, ao passo em que carregam a marca do algoz, negam-se assumir esse papel localizando suas projeções no outro, no estrangeiro. Se algo de errado acontece, deve ser brasileira, é claro.

As demonstrações de racismo e xenofobia crescem vertiginosamente, estamos num estágio em que há a necessidade urgente de se pensar estratégias eficientes para combater a animosidade nas relações no espaço público. O Estado é cúmplice no sentido de sua negação e negligência relativa a um assunto tão fundamental à nossa saúde social. A projeção não é uma solução eficiente e, sim, um alívio imediato àqueles de consciência pesada, os românticos e saudosistas de uma história cheia de fantasias e falsas glórias. Sejamos convocados à realidade dura circunscrita cruelmente pela história e chamados à responsabilidade.

- Sobre a Shenia Karlsson -

Preta, brasileira do Rio de Janeiro, imigrante, mãe do Zack, psicóloga clínica especialista em Diversidade, Pós Graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Mestranda em Estudos Africanos no ISCSP, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no Instituto da Mulher Negra de Portugal, Co fundadora do Papo Preta: Saúde Mental da Mulher Negra, Terapeuta de casais e famílias, Palestrante, Consultora de projetos em Diversidade e Inclusão para empresas, instituições, mentoria de jovens e projetos acadêmicos, fornece aconselhamento para casais e famílias inter racias e famílias brancas que adotam crianças negras.

Texto de Shenia Karlsson
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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