Mais de uma década depois, o Festival Materiais Diversos regressa ao Cartaxo, Minde e Alcanena. Iniciado a 5 de outubro, o evento prolonga-se até dia 17 deste mês e explora o encontro e a reflexão de ideias e pensamentos entre artistas e comunidade local.

Este ano, o certame revela uma nova fase, patente na sua programação não hierarquizada. Na lista de 26 atividades e cerca 50 artistas e participantes, haverá 12 conversas, 7 espetáculos nacionais e 2 internacionais, 4 em estreia e 1 em antestreia. A intenção, segundo Elisabete Paiva, é mesmo diversificar e chegar a tantas pessoas quanto possível. “Nós trabalhamos em potência para qualquer pessoa, quer ela se sinta mais próxima das artes ou mais afastada, e acho que esse é o nosso desejo, o de trabalhar para qualquer tipo de espectador.”

Numa entrevista que faz o balanço de 11 anos de Festival Materiais Diversos, a diretora artística destaca o impacto positivo do evento nos territórios envolvidos e o contributo do mesmo para a necessária descentralização da cultura. “Essa tónica, fora dos grandes centros, acho que é importante para ambas as partes. Tanto para nós, como para os territórios”, diz Elisabete Paiva.

Gerador (G.) – Esta é a décima primeira edição do Festival Materiais Diversos e decorre em Minde, Alcanena e Cartaxo. Qual a importância do evento para estes territórios?

Elisabete Paiva (E. P.) – Na nossa perspetiva, tem havido um efeito de contaminação positiva e de crescimento recíproco na nossa estadia nestes territórios, em vários sentidos.

Por um lado, porque tem havido um trajeto de aproximação da nossa parte, de proximidade cada vez maior. Com parcerias cada vez mais longas no tempo, essa cumplicidade e proximidade vai sendo aprofundada, e isso a nós faz-nos questionar as nossas formas de pensar programação, produção, mediação. Portanto, [isso] faz-nos crescer e explorar novos campos de trabalho enquanto profissionais. Estou a falar primeiro de nós, mas isso é importante para os territórios. Porque a nossa a profissionalização e o nosso crescimento profissional – que não é um crescimento só em visibilidade ou relevância, mas é um crescimento mesmo no sentido de apurar as melhores formas de estar com as pessoas, com as comunidades e de produzir, acolher, programar – faz com que as referências que estas pessoas, outros profissionais da cultura (nomeadamente a dos teatros municipais, dos equipamentos municipais ou as outras coletividades, jovens artistas, jovens profissionais da cultura que se estão a formar e a começar a querer estabelecer-se nesses territórios) tenham referências bastante mais desafiantes e atualizadas sobre o que é que pode ser fazer cultura fora dos grandes centros.

Essa tónica, fora dos grandes centros, acho que é importante para ambas as partes. Tanto para nós, como para os territórios. O [facto] de não querer mimetizar o que acontece nos centros urbanos maiores, mas ser capaz de pensar a cultura no plural e de encontrar formas específicas de programar, de estar com pessoas... Algumas delas… não se trata de não frequentarem o nosso festival, que é um festival de arte contemporânea. Há sempre pessoas que também não frequentam os teatros municipais ou não frequentam os museus municipais, e nós não trabalhamos apenas para as franjas. Nós trabalhamos em potência para qualquer pessoa, quer ela se sinta mais próxima das artes ou mais afastada, e acho que esse nosso desejo, de trabalhar para qualquer tipo de espectador, cria também esse desejo e essa possibilidade em quem connosco está no território e, ou está a começar, ou está nas instituições, num papel diferente do nosso, que é o papel da rotina, do quotidiano e, portanto, que, connosco, tenha aqui referências diferenciadas.

G. – Portanto faz um balanço positivo de todo o percurso que foi feito até aqui, em termos de impacto que teve para esses territórios e para as populações?

E. P. – Sim, é um impacto muito positivo de parte a parte. Sem querer estar agora a perder-me em nomes específicos de pessoas, mas, em algumas das sessões de avaliação informal que fazemos no final de cada festival ou na prática que temos vindo a desenvolver de pedir testemunhos por escrito às pessoas (sejam parceiros de logística, sejam parceiros institucionais ou sejam públicos), algum do feedback que temos, do ponto de vista desse impacto, é precisamente [que], ao longo destes anos, aprendemos a fazer melhor. Ao longo destes anos, vimos que há muitas maneiras de fazer, diferentes daquelas que estávamos habituados. Vimos espetáculos ou estivemos com artistas com quem nunca teríamos podido estar, coisas que nunca poderíamos ver se não fosse através do Festival Materiais Diversos. E isto tudo porque amplia – é uma consciência que temos e temos de tido esse feedback – amplia o horizonte de possibilidades destas pessoas. O horizonte de possibilidades não só enquanto público, mas, por exemplo, enquanto jovens, que se reveem no seu território de origem de outra forma e horizonte de possibilidades do ponto de vista do imaginário, do posicionamento como cidadãos e cidadãs. E esses para nós são os grandes impactos.

G. – Isso vai um pouco ao encontro daquilo que eu ia perguntar, em relação ao lema deste ano, “Repara, cuida, partilha”. Tem que ver precisamente com isto?

E. P. – Tem muito que ver com isto. É interessante referires-te especificamente ao que escolhemos como mote para nos apresentarmos este ano. Tem que ver com querer assumir (e sobretudo querer fazê-lo) depois de uma edição muito grande e exploratória como é um aniversário – os dez anos do festival – querermos focar-nos especificamente nestes três verbos.

Valoriza aquilo que para nós é verdadeiramente importante no desenvolvimento do festival ao longo do tempo, que é a proximidade com as pessoas, a atenção que damos, a capacidade de escuta que vamos desenvolvendo – e não é sempre imediato, há um processo de aproximação que é realmente feito, que às vezes não nos aparece logo – e esta importância que eventualmente a pandemia até veio reforçar, mas que já estava no nossa mente desde 2018, quando decidimos que o festival deveria ser bienal e não anual. Que é do cuidado e do privilegiar lógicas mais lentas, mais desaceleradas, de partilha, de estar com, do que propriamente a escala ou a quantidade de projetos. E sendo este um festival que apresenta, nesta edição e noutras, muitos projetos pela primeira vez – é um festival de criação –; o tempo que estes artistas aqui passam durante as residências de pesquisa, técnicas ou artísticas, para finalizar os seus trabalhos, esse tempo é muito precioso, porque é um tempo de processo que fica aberto também para as pessoas e não só um tempo de apresentação de uma estreia como produto.

G. – Compreendo que seja difícil referir uns em detrimento de outros, mas... quais são os destaques nesta edição?

E. P. – Vai ser difícil de facto, até porque este ano, mais do que ainda noutros anos, não há um programa muito hierarquizado, em que nós temos, por exemplo, os espetáculos de um lado ou as estreias de um lado e as atividades paralelas do outro.

Então, logo o meu primeiro destaque é para as conversas quase diárias, no ponto de encontro. São um acontecimento de pequena escala, de proximidade, mas que revela logo uma diversidade de pontos de interesse, de questões mudais, que nós descobrimos com as pessoas, com os parceiros, ao longo do tempo e que quisemos revelar e expor em forma de mesa-redonda, de mesa grande, de debate, durante todos os dias do festival. Este é o meu primeiro destaque. Depois, de uma forma transversal, talvez destacasse, por exemplo, o projeto Paraíso Bruto no cartaz, que é uma ação em contínuo que passa por habitar uma parte do jardim, aqui na zona central do Cartaxo, feita pelo Teatro do Frio, que é uma companhia do Porto. E nesta terceira residência – que é aquela que culmina e é aberta ao público durante o festival, digamos já numa forma acabada – este Paraíso Bruto (é assim que se chama o projeto) é um dos destaques que faria, porque é uma intervenção no espaço público e que nos parece cada vez mais importante acionar, enquanto possibilidade de programação num festival com o perfil do nosso. Ou seja, que as artes estejam atentas ao que é este valor do que é público e de habitar de forma diferenciada, mas em conjunto, as cidades, sejam [elas] pequenas ou grandes.

Este Paraíso Bruto traz-nos isso e acabou por encontrar como grande eixo motor o encontro com muitos jovens aqui do Cartaxo. Então, o que vamos poder experienciar ao longo dos dias do festival, com o Teatro do Frio, é uma experiência que acho que vale a pena para qualquer tipo de público.

Depois, talvez destacasse também o projeto de pesquisa do Bruno Caracol, que acontece em Minde, na Fábrica de Cultura de Minde. É uma grande instalação chamada Subterrâneo, que é inspirada numa pesquisa nas grutas na Serra d’Aire e Candeeiros. Por um lado, a memória que a serra tem de outros usos humanos, das suas grutas, dos seus campos agrícolas – que, entretanto, já não são agrícolas porque deixámos de precisar – e ao mesmo tempo, uma pesquisa sobre uma sociedade utópica, que tem de se reorganizar após um apocalipse. Tendo em conta toda a discussão, tão premente, sobre as alterações climáticas, que velozmente nos afetam, esta instalação do Bruno caracol é-nos particularmente cara, até porque também envolve, de múltiplas formas, a comunidade local, seja na apropriação e musicalização dos textos, seja na sessão de abertura com o coro, seja com materiais criados por jovens da EB 2/3 de Minde, que farão parte da instalação... Portanto, há aqui uma participação muito ativa da comunidade local neste projeto.

Por último, talvez destacar um projeto que poderá passar despercebido, embora esteja todos os dias também disponível para o público. É uma projeção de um filme que se chama Filme e que é uma primeira aventura do coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin, que é conhecido precisamente pelo seu trabalho completamente engajado com a proximidade com o público, o encontro entre os espectadores e os performers. Aqui, também como forma de antecipar restrições às viagens entre a América do Sul e Portugal, aventurou-se na realização de um filme com outros dois artistas do Piauí – um estado do Norte do Brasil –, o Daniel Carvalho e a Fernanda Silva, e que nos trazem uma reflexão muito provocadora sobre estes povos brasileiros, estes povos indígenas e que importa também hoje olhar a partir de um olhar que não deixará de ser o europeu, mas que se pretende que seja mais crítico e acho que pode ser um bom desafio para o público.

G. – Sei que trabalham muito com projetos que vos chegam... Não sei exatamente de que forma vos chegam... se são efetivamente submissões ou pedidos. É o caso desta edição? Ou seja, há projetos e obras que são resultado da aproximação dos artistas a vocês?

E. P. – Sim, é uma pergunta muito interessante. Na verdade, pontualmente, nós fazemos convites a artistas para criações de raiz, pensadas para o festival, pensadas para estes lugares, mas, estes últimos dois anos, temos privilegiado o acolhimento de propostas dos artistas, que começam a identificar que o festival tem este compromisso, de olhar com atenção para os territórios e as suas comunidades e que há esta abertura de investir nos processos longos de criação, nos processos longos de pesquisa.

Então, na verdade, não há encomendas propriamente ditas este ano – a não ser uma, que posso depois referir –, mas são projetos que vamos acolhendo e que nos vão chegando. Eu analiso ,muitas vezes discuto com a equipa, para ter um feedback antecipado antes de responder – e porque temos também tentado trabalhar de forma cada vez mais horizontal entre equipa e colher perspetivas desde o âmbito da produção, do âmbito da comunicação, da mediação. Por isso, sim. São maioritariamente propostas que nos chegam e que depois, muitas vezes, resultam até de um encontro num ponto que é diferente daquele que os artistas imaginavam. Porque, quando começam a vir fazer a pesquisa no território, obviamente vão encontrar-se com uma realidade que é sempre particular e então aquilo que nos propõem num dossiê, suponhamos, ou numa reunião, vai tomando o seu caminho. E há um lugar onde nos encontramos todos, que é o objeto final ou a experiência final e que já não é só dos artistas, já é uma criação que bebe destes encontros com as pessoas, com os lugares, com os edifícios, também. Porque temos tentado voltar a explorar também espaços não convencionais e não trabalhar só dentro dos teatros. Então há muitas coisas que nascem destes encontros.

G. – Para terminar: qual é, então, o projeto que foi “encomendado”?

E. P. – Há, de facto, um projeto, de uma outra artista da América do Sul, que é Carolina Cifras, que é chilena e que viria à partida fazer uma performance em caminhada durante o festival. E, precisamente como antecipação para eventuais restrições provocadas pela pandemia, aquilo que fizemos com a Carolina Cifras foi criar uma dupla como uma artista portuguesa, que é a Ana Trincão, e este projeto é o único projeto do festival que é pensado para um público organizado de profissionais. Todas as outras atividades são abertas ao público, esta, em particular, estará talvez mais na linha da nossa escola de verão.

É uma atividade mais de investigação para profissionais, mas que nos agrada muito precisamente porque o convite que fiz à Carolina foi transformar uma coisa que era uma performance individual, uma grande caminhada que tinha que ver com o abandonar as coisas supérfluas e refletir sobre os impactos que o neoliberalismo e o consumo têm no nosso corpo, que ela o transformasse numa experiência coletiva. Portanto, há um grupo de pessoas que fará uma caminhada, de sul para norte, apanhando aqui uma localidade que é de Vaqueiros, que pertence a Santarém, até uma localidade que pertence a Alcanena. Esta caminhada pretende suscitar uma reflexão precisamente sobre como é que hoje estamos a fazer cultura em Portugal. Como é que programamos e escolhemos. Aceitamos convites ou provocamos convites? Como é que produzimos? E como é que criamos? Com que relevância e com que ferramentas?

Texto de Sofia Craveiro
Fotografia de Luísa Baeta

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal clica aqui.