A água cai em cordões verticais e vivos, cantando. Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão em que o súbito gosto da pureza se mistura ao temor. A água é uma delicadíssima e exaltante matéria. Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos voltando-as de todos os lados para ficarem bem molhadas. Uma água vasta e nua, uma água maternal.[1]
“Conseguem ver as gruas Poderosa e Vigorosa? Às vezes elas estão no meio do rio a carregar barcos que depois seguem para sítios distantes como a Colômbia ou o Gana.” De olhos postos no mar e depois de se ler este pequeno preâmbulo, escuta-se uma contagem descrente. É este o mote que serve de início a Terra Nullius, um espetáculo-percurso, criado por Paula Diogo, e acolhido pelo Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, onde permanecerá até ao próximo dia 11 de outubro.
A ideia fundamental é a de se caminhar, ao mesmo tempo que se ouve a voz da sua criadora, que nos fala primeiramente do conceito que dá titulo a esta criação, “Terra Nullius”: um termo criado pela lei internacional para definir territórios que não pertenciam a ninguém e que podiam ser ocupados. Ao dar exemplos de territórios que podem ser descritos nesta condição, como Bir Tawill (uma faixa de terra entre o Egito e o Sudão), a Antárctida, o mar internacional e a Lua, Paula leva-nos depois até Reiquiavique, capital da Islândia, onde passou um ano a estudar.
Foi nesse período que desenvolveu o projeto, “que tentava capturar uma experiência do lugar”, cruzando-a com narrativas pessoais e coletivas” e materializado num olhar sobre a relação da humanidade com os lugares que se habitam. A esta dimensão acrescesse-se ainda a reflexão presente sobre os processos de descolonização ou a crise dos refugiados mas também da relação com veio a estabelecer com o factor da insularidade, presente na Islândia.
“Eu já fui com o propósito de fazer um projeto de mestrado que acabava numa performance, só não sabia que formato teria. Quando lá cheguei tinha várias fases de apresentação e uma das coisas que eu comecei logo a fazer foi a escrever, sendo que também caminhava muito. Então, quando chegou a altura de partilhar com as pessoas aquilo que andava a desenvolver, pareceu-me que a melhor forma de o fazer era propor fizessem exactamente o que eu tinha feito, isto é, caminhar e, no caso delas de ouvir o que escrevi”, sustenta.
Da zona onde se começa o percurso, a umas dezenas de metros do Lux Frágil, até à D. Maria II, onde termina, somos guiados por essas premissas simultaneamente poéticas e performáticas. A autora fala-nos da água que rodeia uma ilha, da forma como ocupamos e abandonamos lugares, do problema dos arrendamentos nas grandes cidades e dos refugiados – cuja condição nómada os conduz ao conhecimento de novos territórios –, ao mesmo tempo que o nosso olhar se debruça sobre o rio Tejo, que nos vai acompanhando durante a caminhada até ao cais da Colunas.
É também dessa forma que se estabelece uma relação mais natural entre as duas cidades que, em última análise partilham problemas, angústias e virtudes semelhantes, independentemente do continente em que se situam. “Se saíres de casa é possível reinventares-te”, escuta-se no início do percurso, mas isso não resulta num desaparecimento dos problemas que nos acompanham, explica-nos Paula.


Pelas suas palavras e pelo nosso olhar, as semelhanças entre Lisboa e Reiquiavique evidenciam-se pela “ fricção” de temáticas, seja o mar, a pequena dimensão dos dois países ou o crescimento desenfreado do turismo, o que faz com tantos destes aspetos pareçam “encaixar no mesmo sítio”, conta, acrescentando que a reflexão que se produz no fim da experiência é pessoal. “Para mim essa reflexão só faz sentido na relação com o mundo. Não me interessava fazer um trabalho em que falo sobre a minha própria história. É mais sobre o que é que essa minha história me ajuda a compreender o que está à minha volta”, sintetiza.
É também por isso que, embora haja um percurso definido, a caminhada seja, um tanto ou quanto, modular, uma vez que cada caminhante pode e deve seguir o seu próprio ritmo. Tal como nos diz, é um percurso marcado pela “geografia das nossas histórias”, que por isso se pode fazer de forma íntima e individual para que, possivelmente redescubramos o lugar que habitamos, a nós próprios e aos outros.
[1]Herberto Helder, Photomaton & vox (Uma ilha em sketches), 2013